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A voz. Apenas a voz

Sem ornamentos. Sem enfeites. Apenas a voz.

Mas em 1990 dois garotos desconhecidos pegara a voz e puseram uma classuda batida a lá Soul 2 Soul (o que de melhor já foi feito em matéria de dance e r&b) e fizeram essa versão. Desta vez não apenas a voz. Mas ainda assim uma canção poderosa.

Os já não tão jovens deuses

O ano de 1989 foi talvez o melhor ano da música pop pós década de 60. Se não dá pra competir com 1967 e os lançamentos de “Velvet Underground and Nico“, “Pet Sounds”, “Sgt.Pepper“, “Beggar’s Banquet“, “The Doors“, e “Piper at the Gates of Dawn“, discos como “Life’s Too Good“, “Freedom“, “Songs for Drella” e muitos outros fazem com que o já distante ano faça parte da história da música pop.

Um desses álbuns fundamentais é L’Eau Rouge, segundo disco da banda suíça The Young Gods. O combo suíço apresentou a ouvidos brasileiros o verdadeiro significado de “rock industrial”, numa época em que industrial muitas vezes era confundido com EBM (electronic body music – dos também históricos belgas do Front 242) ou New Beat (do também belga Tragic Error).

Samples, colagens, mixagens de guitarras barulhentas, música clássica, polca em uma música ao mesmo tempo lírica e furiosa. Mas o que na época fez dos suíços únicos foi o fato de cantarem em francês.

Long Route

Rue des Tempetes

L’Eau Rouge

La Fille de la Mort

L’Amourir

Posteriormente eles começaram a cantar em inglês, visando a entrada no mercado norte-americano. Com isso parte do charme e da originalidade da banda se perdeu, o que não impediu que eles ainda gravassem músicas poderosas.

Gasoline Man

Kissing the Sun

Salomon Song (Kurt Weil)

Seu último lançamento é o álbum acústico (????) Knock on the Wood, onde os suíços fazem versões com violões e outros instrumentos para suas canções anteriormente forjadas em computadores, sintetizadores e samplers.

The Young Gods in Venice (Knock on the Wood)

I’m the Drug (acústica)

Long Route (acústica)

Não estão mais tão jovens. Mas o The Young Gods ainda está anos-luz à frente da música atual, como estavam em 1989.

Pata Pata

A Copa da África do Sul está sendo uma bela celebração. Embora ainda haja terríveis desigualdades e desmandos, é emocionante ver um povo que foi tão horrendamente oprimido manifestar sua alegria, seu contentamento e sua cultura como os sul-africanos tem feito.

E não há como falar em cultura sul-africana sem lembrar da Mama Africa, Miriam Makeba, que além de grande cantora foi importante ativista anti-apartheid. Exilada, impedida de entrar em sua terra natal e por fim tendo sua cidadania revogada, Makeba representou na música o que Mandela e Desmond Tutu representaram no ativismo político.

Sua canção símbolo, Pata Pata, foi cantada pela linda cantora Lira na festa de abertura da Copa.

Portanto, discordo do (esteticamente belo) comercial da ESPN narrado pelo Bono, que diz que isso (a copa) não tem nada a ver com política, com direitos. Tem sim tudo a ver. Tem a ver sim. Tem a ver com o resgate da cidadania de um povo inteiro.

Canções de Setembro

Bertold Brecht é um dos nomes fundamentais do teatro do século XX. Criador do chamado “teatro épico”. Segundo Brecht, o drama burguês, com sua técnica realista, procura a identificação emocional e o enlevo. Seu objetivo era outro. Ao invés de mostrar, narrar. Ao invés de identificar, estranhar. Através do estranhamento e do distanciamento, o espectador conseguiria analisar e aprender, ao invés de se enlevar e se emocionar. A busca era sempre a da análise crítica.

Uma das principais ferramentas de estranhamento utilizadas por Brecht era a música. Seus principais colaboradores musicais foram Hans Eisler e Kurt Weil.

Só que a obra de Weil foi tão excelente que alçou vôo próprio. O próprio Brecht temia que as canções de suas peças mais belas como “The Rise and Fall of the City of Mahagonny” e “The Three Penny Opera” encantariam tanto o público que eles seriam levador por elas, ao invés de as utilizarem como elemento de estranhamento.

Bem, havia o risco.

Em 1997 uma série de importantes artistas como Lou Reed, Nick Cave, P.J.Harvey e outros lançaram September Songs, uma coletânea com algumas das principais canções de Weil e Brecht.

Alguns tostões:

Nick Cave – Mack the Knife

P.J. Harvey – Ballad of the Soldier’s Wife

David Johansen – Alabama Song

William Burroughs – What Keeps Mankind Alive

Lou Reed – September Song

Lotte Lenya – Jenny the Pirate

Um exemplo de peça teatral e musical em estilo brechtiano foi “A Ópera do Malandro”, com “O Malandro” sendo uma versão de “Mack the Knife” e “Genni e o Zepelin” uma adaptação de “The Pirate Jenny”.

Contextos parecidos.

A maior banda de rock do mundo

Não. Este epíteto nunca foi utilizado para qualificar o The Police. Mas não seria nenhum absurdo se fosse. Primeiro, porque todos eles eram músicos virtuosos. Na época em que a simplicidade do punk e da new wave combatiam os excessos virtuosísticos, operísticos e pseudo-eruditos de um rock progressivo já em estado de decomposição, os três rapazes eram quase que uma exceção á regra, pois sabiam tocar e muito. Em segundo lugar, porque eles venderam milhões e milhões, chegando no ano de 1984 a serem realmente a mais popular banda de rock de então, antes da ascensão do U2 ao posto (assumido em 1987 com Joshua Tree). Por fim porque… ora, porque a música deles era simplesmente sensacional.

Melodias pop extremamente bem executadas. Reggae, rock, ska, um toquezinho de funk aqui e acolá, sofisticado (os três eram músicos com formação jazzística) mas sem soar pretensioso. Dançante. Enfim… Eu tive minha chance na turnê de reunião em 2008. Mas não deu. Assisti pela televisão mesmo. E digo, melhor seria se nem tivesse, pois basta a memória das melhores músicas compostas no final dos anos 70 e início dos 80.

Message in a Bottle

Don’t stand so close to me

Roxane

Walking on the moon

Every breath you take

I can’t stand losing you

De do do do de da da da

Every little thing she does is magic

A Divisão do Prazer

Poucas bandas conseguiram ser tão influentes em tão pouco tempo. Um álbum lançado durante sua atividade. Um póstumo. Algumas coletâneas de singles, faixas ao vivo e sobras de gravação. Tudo isso foi suficiente para que o Joy Division fosse alçado às alturas míticas da música.

Injustamente chamado de “último romântico” do rock, graças às letras desesperançadas e seu suicídio, Ian Curtis na verdade cantava com mais lirismo que seus antecessores e seus contemporâneos a angústia, a falta de perspectiva e a crise econômica da Inglaterra do final dos anos 70.

Sua performance ao vivo era poderosa e agressiva, enquanto sua música soava mais esparsa, etérea e árida em estúdi, graças à contribuição de Martin Hannett.

Enjoy.

Disorder

New Dawn Fades

She’s Lost Control

A Means to an End

Digital

Atmosphere

Love Will Tear us Apart

Ceremony

Que fim levaram todas as revoluções

Nunca antes na história da música deste país se viu tamanha revolução. E nem depois. Em plena efervescência da década de 70, ainda bebendo da fonte da tropicália, surge o grupo Secos e Molhados.

Misturando glam rock, rock progressivo e MPB, o som da banda era definitivamente inovador, ao mesmo tempo brasileiro e cosmopolita. João Ricardo, o líder, era talentosíssimo compositor. Mas nada disso seria coisa alguma não fosse pela entrada de Ney Matogrosso. Por mais que João Ricardo fosse o cérebro, Ney era o rosto e a alma.

Ney tinha a voz. Mas não apenas. Tinha (e tem) uma presença de palco  que pouquíssimos artistas tem. Seu jeito de dançar, ainda mais nos repressivos e militares anos 70, era ao mesmo tempo libertário e ofensivo, pois chocava a moral de então, sem nunca parecer grosseiro ou forçado.

E tinha o visual. A adoção de maquiagem, que muitos atribuiram como fonte de inspiração para que os americanos do Kiss também adotassem (nunca confirmado – aliás, o Kiss é outra banda que também se inpirou no glam rock e no glitter de Gary Glitter, T-Rex, Slade e Alice Cooper) criou uma identidade instantânea. E o grupo virou um sucesso instantâneo.

Vendeu muito. Lotava ginásios por onde passavam. E tão rápido quanto ascenderam, saíram da cena. Com a saída de Ney Matogrosso, por mais que muitos digam ser João Ricardo o responsável pelo SM, a banda virou apenas pálida lembrança daquele turbilhão que varreu o Brasil em 1973/1974.

Nada antes chegou perto do impacto que o SM teve na música brasileira. Nem a Tropicália. E muito menos depois, com o roquinho comportadinho e mauricinho dos anos 80 e com o rock infantilóide e comercial dos anos 90/2000.