Arquivo do mês: junho 2009

Leituras

Nesta semana concluí dois livros que aguardavam em minha cabeceira: o clássico da auto-ajuda empresarial “O Monge e o Executivo” e a história da Sociedade Esportiva Palmeiras escrita pelo renomado jornalista esportivo Orlando Duarte, “Palmeiras – O Alviverde Imponente“.

mongeexecutivo

Começando pelo best-seller do James C. Hunt. Os conceitos apresentados no livro não deixam de ter sua relevância. Mais até, o livro apresenta com simplicidade e compreensibilidade algumas questões bastante importantes para as pessoas envolvidas no mercado de trabalho. Não me darei ao trabalho de resenhar o livro pois isso é facilmente encontrável na internet.

Porém algumas questões merecem ser analisadas. Primeiramente o livro apresenta um viés comportamental bastante perceptível. E eu sempre considerei psicologia comportamental um engodo, uma forma de se amestrar micos. Mas há de se reconhecer que o pragmatismo da psicologia comportamental combina com a sociedade americana e com os valores do American Way of Life. E eis outra crítica a ser feita ao livro. Sua defesa ideológica dos valores do capitalismo estadunidense. Individualismo, auto-determinação, self made man e outros conceitos ideológicos são propagandeados no livro. E para isso o autor recorre a uma crítica bastante superficial e distorcida a Freud e à psicanálise, reduzindo os avanços de Freud na psicologia e na psiquatria a meros fatores deterministas que servem como formas de se escapar da responsabilidade.

Por fim o livro é chato. Chato e mal escrito. É necessário escrever de forma tão piegas, tão infantilóide para se fazer entender e se criar um best-seller? Como disse, os conceitos apresentados são bastante interessantes. Mas não é um prazer ler este livro.

alviverde imponente

Por fim vamos à historiografia de Orlando Duarte. Nunca soube para qual time torce o jornalista. Não me espantaria se fosse para o Palmeiras, tal o número de clichês “de e para” torcedor que ele escreveu.

Para quem acha que história é mais que datas e eventos, o livro decepciona. Eu esperava algo mais que mera listagem de títulos, partidas, jogadores e gols marcados. Muito superficial. É verdade que o segmento literário esportivo cresce a cada dia com novos lançamentos. Mas parece que ainda é necessário muito mais quantidade para peneirar alguma qualidade.

Espero ter mais sorte com os livros na semana que começa.

Update: fui informado pelo amigo trivelista Felipe SS que o time do nobre jornalista Orlando Duarte é a simpática Lusa. Então os clichês “de e para” torcedores que detectei no livro devem ser por exigência do gênero literário em questão.

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Seria a Espanha um novo Brasil?

Que momento mais inadequado para um post com este título, não? Afinal de contas, após 35 jogos de invencibilidade e 15 vitórias consecutivas, o selecionado espanhol cai vergonhosamente diante de um fraco time estadunidense.

espanha

 Porém  antes de comentar os resultados das partidas, concentrem0-nos na forma como Brasil e Espanha jogam nos últimos tempos.

O Tim Vickery, colunista de futebol sul-americano da BBC, em sua última coluna analisa o Brasil após essa recente sequência de bons resultados e, como qualquer pessoa de bom senso, não hesita em colocar o Brasil como um dos favoritos à conquista da Copa de 2010 na África do Sul. Todavia a forma como o Brasil obteve tal credenciamento é que é inédita na história do futebol brasileiro.

O Brasil de hoje é um time que tem sérios problemas em furar retrancas, embora menos que a um ano atrás, naquela sequência de 0-0 em casa, porém é extremamente mortal no contra-golpe.  Ainda segundo o Tim Vickery, o Brasil é o único do mundo que tem nos escanteios a favor de seus adversários uma situação clara de gol A FAVOR, tal a velocidade e a eficácia dessa estratégia de contra-ataques. Além dos contra-ataques, as jogadas ensaiadas de bola parada são as principais armas ofensivas do Brasil. Não por acaso as vitórias contra Egito e África do Sul vieram com jogadas de bola parada e contra os Estados Unidos o primeiro gol veio de bola parada e o segundo em um contra-ataque.

Ainda na imprensa internacional o especialista em tática do jornal inglês The Guardian, Jonathan Wilson, analisa a formação tática do Brasil, segundo ele um 4-2-3-1 onde à frente da linha de defesa existem dois volantes (Gilberto Silva e Felipe Melo), um meia-ofensivo pela direita (Ramires), um centralizado (Kaká) e um meia-ofensivo pela esquerda (Robinho) com Luis Fabiano de finalizador solitário. O colunista analisa com profundidade a tática, contrastando-a com a tradicional formação européia do 4-2-3-1 (segundo ele, uma evolução do 4-4-2 com o meio-campo em linha) e apontando as principais diferenças entre o estilo brasileiro (puramente Dunguiano, já que não há times no Brasil que joguem dessa maneira) e o estilo europeu.

E eis a grande questão. Ambos os colunistas, embora reconhecendo as características tipicamente brasileiras da nossa seleção, enfatizam a maneira europeizada com a qual o Brasil tem obtido seus resultados. O futebol apresentado pela seleção tem se valido da velocidade de Kaká, Robinho e (atualmente) Ramires em puxar contra-ataques e na eficácia das finalizações de Luis Fabiano, imensamente inferior tecnicamente aos últimos centroavantes brasileiros titulares em Copas do Mundo (Ronaldo, Romário e Careca, para ficar com os últimos).

A Espanha, ao contrário, é o time que joga através da troca de passes. Constrói lenta e pacientemente suas jogadas ofensivas com seu meio-campo habilidoso formado por Xavi, Fabregas e Riera. O meio-campo titular na UEFA Euro/2008 era ainda melhor, com Xavi, Davi Silva e Iniesta. Atrás dessa linha de meias posiciona-se um meia defensivo, atualmente Xabi Alonso enquanto na Euro o titular era o Marcos Senna. Pessoalmente eu prefiro o Xabi Alonso ao Marcos Senna por sua melhor qualidade de passe, que quando vertical rasga defesas adversárias ao meio. Esse meio-campo habilidoso troca passes pacientemente, aciona os laterais (principalmente o Capdevila) e lança bolas para sua dupla de atacantes resolverem na grande área. Sem pressa, com precisão e com eficiência. Apesar da derrota para os Estados Unidos nesta quarta, foi esta a forma de jogo durante toda a partida, claro que com menor taxa de acerto de passes, mas ainda assim criando inúmeras chances de gol perdidas na partida.

 Ora, esse era o estilo de futebol praticado pelo Brasil, principalmente pela seleção de 82. A qualidade do meio campo central (termo pouco usado no Brasil, substituído pelo termo “volante”, de conotação defensiva) daquela seleção, com Falcão, Cerezo e Batista era inigualável. Infinitamente superior ao meio campo atual do Brasil, com Josué, Gilberto Silva e Felipe Melo. Gilberto Silva é um terceiro zagueiro postado em frente da linha defensiva. Eficaz no que exigido. Mas nada mais. Diferentemente de Fabregas, Iniesta, Xavi ou Alonso, que quando ocupando a mesma posição (Xavi, Iniesta e Fabregas já jogaram de “volante”, embora hoje atuem mais avançados – Alonso é um volante) imprimem uma qualidade de saída, inversões e toque de bola superior que seus pares brasileiros.

Eis o paradoxo do futebol atual. O Brasil joga de forma europeizada, com retomadas de bola e contra-golpes velozes e a Espanha de forma abrasileirada, com toque de bola, inversões, penetrações centrais e manutenção da posse de bola. Ambos são os atuais campeões de seus continentes. Qual deles se sairá melhor na Copa do Mundo? A saber.

Thank God it’s Friday – Leffe

leffe

 

Para quem gosta de ótima relação custo-benefício. A Leffe é uma das melhores opções de compra no mercado brasileiro.  Esta Belgian blond ale ( http://www.bjcp.org/2008styles/style18.php#1a ) tem um aroma excelente, adocicado com toques de cravo, uma espuma de boa formação e com maior densidade, comparada com as cervejas comuns brasileiras, um sabor característico, frutado e condimentado, mas sobretudo tem um ótimo preço.

É facilmente encontrável nos principais supermercados brasileiros devido ao fato de ser produzida por uma cervejaria de propriedade da ABInBev (mega-cervejaria belgo-brasil-estadunidense formada pela fusão da Interbrew com a Ambev e posteriormente da Anheuser-Busch) a um preço bastante competitivo: em torno de quatro reais a garrafa de 355 ml. Tá bom, eu sei que comparado ao um real e dez da Skol, Brahma ou Kaiser esse valor parece absurdo. Mas ao comparar com outras importadas de qualidade equivalente, percebe-se que o investimento é altamente compensador.

Infelizmente existem boatos circulando dizendo que a InBev não mais importará para o Brasil as cervejas de sua linha alemã e belga (que incluem além da Leffe as cervejas Hoegaarden, Franziskaner, Spaten e Lowenbrau) já que a empresa estaria se desfazendo de suas unidades produtivas na Alemanha. Se a notícia se confirmar, será uma grande perda para os consumidores de boas cervejas.

Então precisamos aproveitar enquanto é tempo. Pra quem quiser sair do óbvio mas não está disposto a gastar altas somas, eis uma cerveja que vale a pena.

Um poema às quartas

 robert_frost

The Road Not Taken

Two roads diverged in a yellow wood,
And sorry I could not travel both
And be one traveler, long I stood
And looked down one as far as I could
To where it bent in the undergrowth;

Then took the other, as just as fair,
And having perhaps the better claim,
Because it was grassy and wanted wear;
Though as for that the passing there
Had worn them really about the same,

And both that morning equally lay
In leaves no step had trodden black.
Oh, I kept the first for another day!
Yet knowing how way leads on to way,
I doubted if I should ever come back.

I shall be telling this with a sigh
Somewhere ages and ages hence:
Two roads diverged in a wood, and I–
I took the one less traveled by,
And that has made all the difference.

 

A Estrada Não Trilhada

Tradução de Renato Suttana

Num bosque, em pleno outono, a estrada bifurcou-se,
mas, sendo um só, só um caminho eu tomaria.
Assim, por longo tempo eu ali me detive,
e um deles observei até um longe declive
no qual, dobrando, desaparecia…

Porém tomei o outro, igualmente viável,
e tendo mesmo um atrativo especial,
pois mais ramos possuía e talvez mais capim,
embora, quanto a isso, o caminhar, no fim,
os tivesse marcado por igual.

E ambos, nessa manhã, jaziam recobertos
de folhas que nenhum pisar enegrecera.
O primeiro deixei, oh, para um outro dia!
E, intuindo que um caminho outro caminho gera,
duvidei se algum dia eu voltaria.

Isto eu hei de contar mais tarde, num suspiro,
nalgum tempo ou lugar desta jornada extensa:
a estrada divergiu naquele bosque – e eu
segui pela que mais ínvia me pareceu,
e foi o que fez toda a diferença.

Hell, no!

Galhofa e sacanagem.

Eis o que esta canção exala. Afinal de contas, dá pra levar a sério uma canção que tem por título “Hell, no!” (“Porra! Não!” numa tradução livre). O jeito cafajeste do cara interpretado pelo Sondre Lerche (interpretado é a palavra mais apropriada, visto que a canção emula os célebres duetos musicais de décadas atrás – no cinema e nos discos),  o arranjo sofisticado e propositalmente adocicado, a letra que conta a historinha dum cara que pisou feio na bola e meio pateticamente suplica pelo perdão da mocinha e o fato da canção fazer parte da trilha  sonora de uma  comédia romântica bem bobinha ( Eu, meu irmão e nossa namorada, ou “Dan  in Real Life, com Juliette Binoche e o ótimo Steve Carell) apenas reforçam o tom de tiração de sarro e a chave irônica com a qual a canção deve ser interpretada.

E sacanagem. Afinal de contas temos quase certeza que  após o cômico diálogo eles se jogariam na cama e passariam horas e horas transando, apesar da insistência da mocinha em repelir as investidas do  calhorda. Aliás, a intérprete da mocinha, a cantora russo-americana Regina Spektor, é um dos maiores achados da música na última década. E, por favor, esqueçam a melosa Fidelity, que embalou um dos casaizinhos românticos mais insuportáveis (das sempre insuportáveis) dos últimos tempos  nas novelas da Globo. Seus primeiros álbuns, menos comerciais e pasteurizados, são essenciais.

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Sobre a Regina Spektor solo, sobre a música pop produzida na Escandinávia (Sondre Lerche é norueguês) e sobre a música  pseudo-pasteurizada irônica, da qual os incompreendidos Cardigans (também escandinavos) são expoentes mais famosos eu falo depois. Por enquanto dá pra curtir “Hell, no!”

Thank God it’s Friday – Fuller’s ESB

Apresento mais uma seção fixa deste blog. Graças a Deus é sexta-feira. E sexta-feira é dia de… CERVEJA!

Mas não qualquer cerveja. Tem de ser uma grande cerveja para ser contemplada neste nobre blog. Para estrear a seção, apresento a Fuller’s ESB (Extra Special Bitter).

ESB

É um dos melhores exemplares do estilo Extra Special Bitter no mercado nacional ( http://www.bjcp.org/2008styles/style08.php#1c ).

Como não sou profissional da gastronomia ou mesmo especialista de cerveja, meus comentários serão sempre baseados na minha impressão subjetiva.

Cor âmbar, espuma bastante presente e densa. Os aromas são cítricos, frutados e lupulados. E em seu sabor sente-se um amargor pronunciado e delicioso. Comprei uma caixa no final do ano passado em uma promoção bastante vantajosa. Infelizmente não comprei mais, pois no mercado ela é uma cerveja com preço meio salgado… De qualquer forma é uma das minhas favoritas.

Não deu.

marcos

Sem entrar naqueles velhos clichês como “perdeu mas jogou com alma”, “caiu em pé” ou então racionalizações como “com esse elenco foi mais longe do que se esperaria”.

A questão não é esta. A questão é: o que fazer a partir de agora. O clube tem um elenco confuso, com posições com excesso de jogadores (não vou nem dizer “excesso de opções” porque muitos jogadores não são opções viáveis), uma folha de pagamento extremamente alta e uma comissão técnica imensa e caríssima. E não adianta negar. O principal objetivo do ano, por mais inatingível que fosse, acaba de ir por água abaixo.

Opções há. A mais fácil (nem por isso a mais correta) é manter tudo como está. Afinal o elenco está montado, o time está razoavelmente bem colocado no campeonato nacional e convenhamos, se não dá pra sonhar com o título, pelo menos almejar uma classificação para a próxima Copa Libertadores é possível.

A outra opção seria começar o planejamento de 2010 a partir de agora. Sim. 2010. Esse elenco não é forte o suficiente para ganhar o Brasileiro. Sejamos sinceros. E é caro. Muito caro. Um planejamento decente para a temporada de 2010 incluiria uma redução radical na folha de pagamento, a começar da comissão técnica.

Luxemburgo teve um ano e meio e o orçamento de contratações dos sonhos de qualquer treinador do Brasil. Não dá mais pra culpar torcida, imprensa, falhas individuais nem nada. Então pronto! Uma canetada e economiza-se um valor com seis dígitos mensais só de treinador. E reduz-se também a comissão técnica. Ao planejar a próxima comissão técnica, deve-se privilegiar uma comissão técnica que seja ligada ao clube, não ao técnico, que seja capaz de executar um planejamento a médio e longo prazo.

Em segundo lugar há a necessidade de enxugar elenco. Só de volantes há Pierre, Souza, Mozart, Sandro Silva, Jumar e Cleiton Xavier. Pierre é xodó da torcida, Souza é revelação prata da casa e Cleiton Xavier é titular absoluto. Sobram Sandro Silva, Mozart e Jumar. Dos três, um apenas seria o suficiente. O Palmeiras também conta com três laterais direitos, Wendel, Fabinho Capixaba e Henrique e luta para contratar o quarto: Figueroa. Caso ele venha, dois dos atuais membros do elenco poderiam sair.

Por fim, com um elenco equilibrado, com um treinador comprometido com o clube e não com seus projetos pessoais e buscando atletas de bom nível, não necessariamente ligados a empresários amigos do treinador, dá para iniciar um planejamento razoável para que, quem sabe, no próximo ano o Palmeiras galgue um degrau na Copa Libertadores.

Do jeito que foi, chegamos longe demais.