Arquivo do mês: setembro 2009

Um poema às quartas

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The sorrow of love

The quarrel of the sparrows in the eaves,
The full round moon and the star-laden sky,
And the loud song of the ever-singing leaves,
Had hid away earth’s old and weary cry .

And then you came with those red mournful lips,
And with you came the whole of the world’s tears,
And all the trouble of her labouring ships,
And all the trouble of her myriad years.

And now the sparrows warring in the eaves,
The curd-pale moon, the white stars in the sky,
And the loud chaunting of the unquiet leaves,
Are shaken with earth’s old and weary cry.

As penas do amor

Sobre os telhados a algazarra dos pardais,
Redonda e cheia a lua – e céu de mil estrelas,
E as folhas sempre a murmurar seus recitais,
Haviam esquecido o mundo e suas mazelas.

Então chegaram teus soturnos lábios rosas,
E junto a eles todas lágrimas da terra,
E o drama dos navios em águas tempestuosas
E o drama dos milhares de anos que ela encerra.

E agora, no telhado a guerra dos pardais,
A lua pálida, e no céu brancas estrelas,
De inquietas folhas, cantilenas sempre iguais,
Estão tremendo – sob o mundo e suas mazelas.

(Tradução de André C S Masini)

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Uma verdade universalmente conhecida

Jane Austen é ao mesmo tempo uma queridinha literária e uma injustiçada. É uma campeã de audiência, tendo praticamente todos os seus livros já transformados em filmes, minisséries da BBC, séries de TV e tudo o mais do subproduto da indústria cultural. E uma injustiçada porque muita gente, inclusive para a famosíssima (ainda mais agora em época de “Crepúsculo“) e respeitável Emily Brontë, consideram a inglesa apenas uma escritora de comedinhas românticas. E também para os estudantes de inglês no curso de letras da USP, para quem os livros dela são um horroroso fardo a ser carregado por um semestre no curso de Leituras do Cânone.

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Grande injustiça. Alguns críticos defendem que os romances da autora deve ser lidos alegoricamente, como uma representação da união entre burguesia e aristocracia na Inglaterra do século XVIII que interrompeu o ciclo revolucionário e impediu o acesso do proletariado à nova ordem politico-econômica que se desenhou a partir daquele período. Sob esse ponto de vista seus romances passam a ser interessantíssimos. Mas não apenas por isso.

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.”

É assim que inicia a obra (pelo menos na literal tradução da Lúcia Cardoso), um dos inícios de romance mais inesquecíveis. Não chega aos pés do início de Ana Karenina de Tolstoi – “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” – ou mesmo de Metamorfose de Kafka – “Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.” –  mas mereceria ao menos estar na seleção de melhores inícios do blog Todoprosa.

jane A tradução de Paulo Mendes Campos é mais literária e menos literal que a da Lúcia Cardoso e inicia assim: Um homem solteiro, possuidor de razoável fortuna, deve estar à procura de esposa. Uma solução quase boa, porque ignora a chave da frase. Uma verdade universalmente conhecida. “It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife”.

A frase é o máximo. O máximo do racionalismo antropocentrista burguês da idade moderna! Hoje em dia quem poderia falar em “verdades universalmente conhecidas” sem parecer anacrônico, ridículo ou então fundamentalista religioso? Ou então, quem pode dizer “penso, logo existo” como dissera Descartes e ignorar todo o conhecimento de psicanálise trazido por Freud ou Jung, o conhecimento de consciência de classe de Marx, a “vontade de poder” de Nietszche? Hoje não dá. Mas na época dava. Foi o suprassumo da arrogância burguesa, do projeto burguês.

Mas não é apenas por isso que Orgulho e Preconceito é delicioso. Primeiramente porque a afirmação que abre o volume, feita pela sra.Bennett é implacavelmente desconstruída pela própria, numa saborosa ironia que dura o livro todo. E, a propósito, o romance é engraçadíssimo. Me peguei rindo sozinho em sala de espera, à noite na cama enquanto minha esposa não entendia nada. Realmente, Jane Austen está muito, muito distante de ser uma precursora das horrendas comedinhas românticas que salvam a conta bancára das Meg Ryans da vida.

Não assisti o filme. Assisti “Razão e Sensibilidade“, que não reproduz um décimo do mordente irônico da autora e por esse tipo de adaptação facilmente se conclui. Jane Austen continua sendo uma injustiçada.

Seu primeiro baile

“Her first ball” é um conto escrito pela neozelandesa Katherine Mansfield, importante escritora do início do século XX e influência de Virginia Woolf e do modernismo inglês. katherine_mansfield-788298

HER FIRST BALL

EXACTLY when the ball began Leila would have found it hard to say. Perhaps her first real partner was the cab. It did not matter that she shared the cab with the Sheridan girls and their brother. She sat back in her own little corner of it, and the bolster on which her hand rested felt like the sleeve of an unknown young man’s dress suit; and away they bowled, past waltzing lamp-posts and houses and fences and trees.

“Have you really never been to a ball before, Leila? But, my child, how too weird–” cried the Sheridan girls.

“Our nearest neighbour was fifteen miles,” said Leila softly, gently opening and shutting her fan.

Oh dear, how hard it was to be indifferent like the others! She tried not to smile too much; she tried not to care. But every single thing was so new and exciting . . . Meg’s tuberoses, Jose’s long loop of amber, Laura’s little dark head, pushing above her white fur like a flower through snow. She would remember for ever. It even gave her a pang to see her cousin Laurie throw away the wisps of tissue paper he pulled from the fastenings of his new gloves. She would like to have kept those wisps as a keepsake, as a remembrance. Laurie leaned forward and put his hand on Laura’s knee. (continua aqui)

Uma das disciplinas que tive neste ano na faculdade de letras foi “Prática de Tradução”, onde como trabalho final tivemos de traduzir o conto da Mansfield, em grupo (????). Traduções em grupo são sempre problemáticas. Uma das formas preferidas das pessoas fazerem isso é picotar o texto em várias partes, cada um traduz sua parte e depois costuram de volta o Frankenstein. Horrível. Nosso grupo, formado por gente batuta (claro), decidiu pelo caminho mais longo. Cada um de nós fez sua própria tradução, levantou os problemas e dificuldades e por fim, cotejamos todas as traduções para formarmos uma única versão. Tivemos de escolher um texto-base e depois começamos a examinar o conto linha a linha, escolhendo as melhores construções sintáticas, o vocabulário mais adequado para o gênero, para a época, para os personagens, enfim. Discussões? Algumas. Difícil? Certamente. Mas foi muito interessante e até divertido.

O Seu Primeiro Baile

Exatamente quando o baile começava Leila teria achado difícil dizer. Talvez o seu primeiro parceiro de verdade fosse o automóvel. Não importava que ela o dividisse com as Sheridans e seu irmão. Sentou-se atrás no seu próprio cantinho, e o descanso almofadado sobre o qual a sua mão repousava dava-lhe a sensação da manga do paletó de um jovem desconhecido; e ambos giravam, valsando ao longo de postes de iluminação e casas e cercas e árvores.

— Você realmente nunca esteve num baile antes, Leila? Mas, menina, isso é muito estranho ? — estrilavam as Sheridans.

— O nosso vizinho mais perto ficava a 15 milhas — disse Leila suavemente, abrindo e fechando o seu leque com delicadeza.

Ah céus, como era difícil ser indiferente como os outros! Ela tentava não sorrir demais, tentava não se importar. Mas cada detalhe era tão novo e empolgante… As angélicas de Meg, a grande presilha âmbar de Jose, a cabecinha morena de Laura, brotando da sua estola branca como uma flor através da neve. Ela se lembraria para sempre. Até teve uma pontada ao ver seu primo Laurie jogar fora os filetes de papel que ele tirava das abotoadoras das suas luvas novas. Gostaria de ter guardado aqueles filetes como lembrança, como uma recordação. Laurie inclinou-se para frente e apoiou a uma mão no joelho de Laura. (continua aqui)

O trabalho foi feito a várias mãos, entre elas a minha, as do Ed Batista, Mariana Castelli, Carol Rodolpho, Marcos Hadid, Cassio Aurélio e Eliana Machado.

Tráfico de crianças

A globalização econômica transformou definitivamente o futebol. De representante de uma cidade ou comunidade, um clube de futebol passou a ser uma empresa que briga no mercado global por mais consumidores (torcedores), num processo de internacionalização que tem nas TVs, amistosos e torneios de pré-temporada e na venda de produtos suas pontas mais visíveis.

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Todavia, a briga nos mercados internacionais motiva os clubes a se digladiarem não apenas por consumidores, mas por matéria-prima, os jogadores também.

E os órgãos reguladores do futebol como a FIFA e a UEFA, baseados ainda nos antigos conceitos de nacionalidade, lutam para tentar manter o futebol dentro desses mesmos conceitos antigos. Tentam fazer com que um time inglês não apenas represente o torcedor inglês (coisa que não mais acontece, como vimos aqui) mas seja representado por ingleses em suas equipes. Uma briga perdida de antemão, pois a legislação européia proíbe a discriminação de cidadãos europeus no mercado de trabalho (portanto, leis como a proposta 6 + 5 estão fadadas ao fracasso, a não ser por um acordo de cavalheiros entre os clubes – muito pouco cavalherescos, diga-se) e os clubes aprenderam rapidamente a burlar essas leis com naturalizações.

Outro aspecto que tem chamado a atenção recentemente são as transações que envolvem atletas cada vez mais jovens, tema que voltou à berlinda após a recente condenação do Chelsea em um caso de aliciamento de menor envolvendo o jovem Gael Kakuta junto ao Lens da França. Logo em seguida o Manchester United foi denunciado pela Fiorentina e pelo Le Havre, visto que a legislação da França e da Itália proíbem menores de 16 anos de assinarem contratos profissionais (o que facilita o aliciamento) e o Manchester City sofrer investigação semelhante.

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Portanto, não foi com pouca  empolgação e, porque não dizer, espanto que a notícia de que a Premier League limitaria o número de atletas não-revelados nas categorias de base do país para a próxima edição da liga. O mecanismo é semelhante ao que a UEFA utiliza na UCL: cada time poderá inscrever apenas 25 atletas. Destes, 8 devem ser “revelados no país”, ou seja, devem ter frequentado por pelo menos três anos as categorias de base dos clubes ingleses ou galeses. A princípio a medida parecia bastante acertada, pois incentivaria os clubes a investirem em suas categorias de base ao invés de investirem no mercado de transferências e limitaria o número de atletas nos elencos. O Liverpool, por exemplo, conta com 55 atletas inscritos em sua equipe principal (sem contar a reserva e as categorias de base), sendo a maioria absoluta formada por estrangeiros.

Ótimo para o futebol do mundo inteiro, não, já que os jogadores ingleses não mais perderiam oportunidades para estrangeiros de custo mais baixo, e os clubes outros países não mais correriam o risco de perderem seus jogadores de graça.

Mas a prática pode se mostrar outra.

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O jornalista Oliver Kay, do The Times, explicou o porque em seu artigo na versão online do jornal. Afinal de contas, como nacionalidade não está em questão, os ingleses partiriam para cima dos jovens de outros países com ainda mais intensidade, em idades ainda mais jovens (e menos protegidas por legislações trabalhistas). Segundo o critério adotado pela Premier League, Macheda e Fábregas são tão ingleses quanto Walcott e Rooney. Continuaria sendo mais barato “roubar” atletas das categorias de base de outros países a formar seus próprios atletas, o que tornaria a vida dos atletas ingleses ainda mais competitiva, pois mais e mais adolescentes e crianças tomar-lhe-iam os lugares nas categorias de base dos clubes.

Nesta semana o jornalista Tim Vickery publicou em seu blog os danos que o futebol sul americano poderia sofrer. Os clubes ingleses começarão a levar os atletas do continente muito antes deles fazerem suas estréias profissionais, aumentando o vácuo de talentos no continente. Os clubes sul americanos mais bem sucedidos costumam desenvolver os jovens talentos e, depois de certo nome, vendem-nos e com isso sustentam-se financeiramente. O Boca Junior e o São Paulo são os melhores exemplos dessa filosofia. Com o assédio diretamente às categorias de base, os clubes seriam muito menos remunerados pelos jogadores perdidos, se remunerados forem. Afinal, casos como o dos irmãos Rafael e Fabio da Silva, saídos de graça da categoria de base do Fluminense para o Manchester United seriam cada vez mais comuns.

Neste mesmo sentido o excelente site português Futebol Finance publicou uma análise onde eles também expressam suas preocupações sobre a ineficácia da medida para aumentar o número de jogadores ingleses e estimular as categorias de base.

Outros posts sobre futebol, mercado e globalização aqui.

Um poema às quartas

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THE FLEA.


MARK but this flea, and mark in this,
How little that which thou deniest me is ;
It suck’d me first, and now sucks thee,
And in this flea our two bloods mingled be.
Thou know’st that this cannot be said
A sin, nor shame, nor loss of maidenhead ;
Yet this enjoys before it woo,
And pamper’d swells with one blood made of two ;
And this, alas ! is more than we would do.

O stay, three lives in one flea spare,
Where we almost, yea, more than married are.
This flea is you and I, and this
Our marriage bed, and marriage temple is.
Though parents grudge, and you, we’re met,
And cloister’d in these living walls of jet.
Though use make you apt to kill me,
Let not to that self-murder added be,
And sacrilege, three sins in killing three.

Cruel and sudden, hast thou since
Purpled thy nail in blood of innocence?
Wherein could this flea guilty be,
Except in that drop which it suck’d from thee?
Yet thou triumph’st, and say’st that thou
Find’st not thyself nor me the weaker now.
‘Tis true ; then learn how false fears be ;
Just so much honour, when thou yield’st to me,
Will waste, as this flea’s death took life from thee.

A PULGA

Nota esta pulga, e nota, através dela,
Que o que me negas é uma bagatela;
Tendo sugado a mim, e a ti depois,
Nela se mescla o sangue de nós dois;
Sabes que isso não pode ser chamado
Defloração, vergonha, nem pecado;
Ela, no entanto, rude e ousada,
De sangue duplo se deforma empanturrada,
E, perto disso, o que desejo, ai! não é nada.

Pára! Três vidas poupa este momento,
Onde houve quase… oh, mais que um casamento.
Somos a pulga, e a nós ela é perfeito
Templo de núpcias e de núpcias leito;
Contra ti e teus pais, a união se deu
Nesse claustro murado em vivo breu.
Matando-me pela honradez,
Praticarás o suicídio a uma só vez,
E o sacrilégio,três pecados pelos três.

De púrpura manchaste, sem demência,
As unhas com o sangue da inocência?
Essa pulga seria tão daninha,
Só por te haver sugado uma gotinha?
Porém, exultas porque após tal morte
Nenhum de nós se mostra menos forte.
Bem, vê como o temor é ruim;
Perderás tanto de honra ao vires para mim.
Quanto de vida porque a pulga teve fim.

Trad. de Jorge de Sena

We are not the robots

Revisitando os robôs.

Jesus, lembra-te de mim