Arquivo do mês: março 2010

Um poema às quartas

The Waste Land

IV. DEATH BY WATER

PHLEBAS the Phoenician, a fortnight dead,
Forgot the cry of gulls, and the deep seas swell
And the profit and loss.
A current under sea
Picked his bones in whispers. As he rose and fell
He passed the stages of his age and youth
Entering the whirlpool.
Gentile or Jew
O you who turn the wheel and look to windward,
Consider Phlebas, who was once handsome and tall as you.

V. WHAT THE THUNDER SAID

AFTER the torchlight red on sweaty faces
After the frosty silence in the gardens
After the agony in stony places
The shouting and the crying
Prison and place and reverberation
Of thunder of spring over distant mountains
He who was living is now dead
We who were living are now dying
With a little patience

Here is no water but only rock
Rock and no water and the sandy road
The road winding above among the mountains
Which are mountains of rock without water
If there were water we should stop and drink
Amongst the rock one cannot stop or think
Sweat is dry and feet are in the sand
If there were only water amongst the rock
Dead mountain mouth of carious teeth that cannot spit
Here one can neither stand nor lie nor sit
There is not even silence in the mountains
But dry sterile thunder without rain
There is not even solitude in the mountains
But red sullen faces sneer and snarl
From doors of mudcracked houses
If there were water
And no rock
If there were rock
And also water
And water
A spring
A pool among the rock
If there were the sound of water only
Not the cicada
And dry grass singing
But sound of water over a rock
Where the hermit-thrush sings in the pine trees
Drip drop drip drop drop drop drop
But there is no water

Who is the third who walks always beside you?
When I count, there are only you and I together
But when I look ahead up the white road
There is always another one walking beside you
Gliding wrapt in a brown mantle, hooded
I do not know whether a man or a woman
—But who is that on the other side of you?

What is that sound high in the air
Murmur of maternal lamentation
Who are those hooded hordes swarming
Over endless plains, stumbling in cracked earth
Ringed by the flat horizon only
What is the city over the mountains
Cracks and reforms and bursts in the violet air
Falling towers
Jerusalem Athens Alexandria
Vienna London
Unreal

A woman drew her long black hair out tight
And fiddled whisper music on those strings
And bats with baby faces in the violet light
Whistled, and beat their wings
And crawled head downward down a blackened wall
And upside down in air were towers
Tolling reminiscent bells, that kept the hours
And voices singing out of empty cisterns and exhausted wells.

In this decayed hole among the mountains
In the faint moonlight, the grass is singing
Over the tumbled graves, about the chapel
There is the empty chapel, only the wind’s home.
It has no windows, and the door swings,
Dry bones can harm no one.
Only a cock stood on the rooftree
Co co rico co co rico
In a flash of lightning. Then a damp gust
Bringing rain

Ganga was sunken, and the limp leaves
Waited for rain, while the black clouds
Gathered far distant, over Himavant.
The jungle crouched, humped in silence.
Then spoke the thunder
D A
Datta: what have we given?
My friend, blood shaking my heart
The awful daring of a moment’s surrender
Which an age of prudence can never retract
By this, and this only, we have existed
Which is not to be found in our obituaries
Or in memories draped by the beneficent spider
Or under seals broken by the lean solicitor
In our empty rooms
D A
Dayadhvam: I have heard the key
Turn in the door once and turn once only
We think of the key, each in his prison
Thinking of the key, each confirms a prison
Only at nightfall, aetherial rumours
Revive for a moment a broken Coriolanus
D A
Damyata: The boat responded
Gaily, to the hand expert with sail and oar
The sea was calm, your heart would have responded
Gaily, when invited, beating obedient
To controlling hands

I sat upon the shore
Fishing, with the arid plain behind me
Shall I at least set my lands in order?

London Bridge is falling down falling down falling down

Poi s’ascose nel foco che gli affina
Quando fiam ceu chelidon—O swallow swallow
Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie
These fragments I have shored against my ruins
Why then Ile fit you. Hieronymo’s mad againe.
Datta. Dayadhvam. Damyata.

Shantih shantih shantih

A Terra Desolada

IV. MORTE POR ÁGUA

Flebas, o Fenício, morto há quinze dias,
Esqueceu o grito das gaivotas e o marulho das vagas
E os lucros e os prejuízos.
Uma corrente submarina
Roeu-lhe os ossos em surdina. Enquanto subia e descia
Ele evocava as cenas de sua maturidade e juventude
Até que ao torvelinho sucumbiu.
Gentio ou judeu
Ó tu que o leme giras e avistas onde o vento se origina,
Considera a Flebas, que foi um dia alto e belo como tu.

V. O QUE DISSE O TROVÃO

Após a rubra luz do archote sobre suadas faces
Após o gelado silêncio nos jardins
Após a agonia em pedregosas regiões
O clamor e a súplica
Cárcere palácio reverberação
Do trovão primaveril sobre longínquas montanhas
Aquele que vivia agora já não vive
E nós que então vivíamos agora agonizamos
Com um pouco de resignação.

Aqui água não há, mas rocha apenas
Rocha. Água nenhuma. E o arenoso caminho
O coleante caminho que sobe entre as montanhas
Que são montanhas de inaquosa rocha
Se água houvesse aqui, nos deteríamos a bebê-la
Não se pode parar ou pensar em meio às rochas
Seco o suor nos poros e os pés na areia postos
Se aqui só água houvesse em meio às rochas
Montanha morta, boca de dentes cariados que já não pode
cuspir
Aqui de pé não se fica e ninguém se deita ou senta
Nem o silêncio vibra nas montanhas
Apenas o áspero e seca trovão sem chuva
Sequer a solidão floresce nas montanhas
Apenas rubras faces taciturnas que escarnecem e rosnam
A espreitar nas portas de casebres calcinados
Se água houvesse aqui
E não rocha
Se aqui houvesse rocha
Que água também fosse
E água
Uma nascente
Uma poça entre as rochas
Se ao menos um sussurro de água aqui se ouvisse
Não a cigarra
Ou a canora relva seca
Mas a canção das águas sobre a rocha
Onde gorjeia o tordo solitário nos pinheiros
Drip drop drip drop drop drop drop
Mas aqui água não há

Quem é o outro que sempre anda a teu lado?
Quando somo, somos dois apenas, lado a lado,
Mas se ergo os olhos e diviso a branca estrada
Há sempre um outro que a teu lado vaga
A esgueirar-se envolto sob um manto escuro, encapuzado
Não sei se de homem ou de mulher se trata
– Mas quem é esse que te segue do outro lado?

Que som é esse que alto pulsa no espaço
Sussurro de lamentação materna
Que embuçadas hordas são essas que enxameiam
Sobre planícies sem fim, tropeçando nas gretas da terra
Restrita apenas a um raso horizonte arrasado
Que cidade se levanta acima das montanhas
Fendas e emendas e estalos no ar violáceo
Torres cadentes
Jerusalém Atenas Alexandria
Viena Londres
Irreais

A mulher distendeu com firmeza seus longos cabelos negros
E uma ária sussurrante nessas cordas modulou
E morcegos de faces infantis silvaram na luz violeta,
Ruflando suas asas, e rastejaram
De cabeça para baixo na parede enegrecida
E havia no ar torres emborcadas
Tangendo reminiscentes sinos, que outrora as horas repicavam
E agudas vozes emergiam de poços exauridos e cisternas vazias.

Nessa cova arruinada entre as montanhas
Sob um tíbio luar, a relva está cantando
Sobre túmulos caídos, ao redor da capela
É uma capela vazia, onde somente o vento fez seu ninho.
Não há janelas, e as portas rangem e gingam,
Ossos secos a ninguém mais intimidam.
Um galo apenas na cumeeira pousado
Cocorocó cocorocó
No lampejo de um relâmpago. E uma rajada úmida
Vem depois trazendo a chuva

O Ganga em agonia submergiu, e as flácidas folhas
Esperam pela chuva, enquanto nuvens negras
Acima do Himavant muito além se acumulam.
A selva agachou-se, arqueada em silêncio.
Falou então o trovão
DA
Datta: Que demos nós?
Amigo, o sangue em meu coração se agita
A tremenda ousadia de um momento de entrega
Que um século de prudência jamais revogará
Por isso, e por isso apenas, existimos
E ninguém o encontrará em nossos necrológios
Ou nas memórias tecidas pela aranha caridosa
Ou sob os lacres rompidos do esquálido escrivão
Em nossos quartos vazios
DA
Dayadhvam: ouvi a chave
Girar na porta uma vez e apenas uma vez
Na chave pensamos, cada qual em sua prisão
E quando nela pensamos, prisioneiros nos sabemos
Somente ao cair da noite é que etéreos rumores
Por instantes revivem um alquebrado Coriolano
DA
Damyata: o barco respondeu,
Alegre; à mão afeita à vela e ao remo
O mar estava calmo, teu coração teria respondido,
Alegre, pulsando obediente ao rogo
De mãos dominadoras

Sentei-me junto às margens a pescar
Deixando atrás de mim a árida planície
Terei ao menos minhas terras posto em ordem?
A Ponte de Londres está caindo caindo caindo
Poi s’ascose nel foco che gli affina
Quando fiam uti chelidon – Ó andorinha andorinha
Le Prince d’Aquitaine à la tour abolie
Com fragmentos tais foi que escorei minhas ruínas
Pois então vos conforto. Jerônimo outra vez enlouqueceu.
Datta. Dayadhvam. Damyata.
Shantih shantih shantih

(Tradução: Ivan Junqueira)

Neste site podemos ouvir e baixar o próprio T.S.Eliot lendo seu poema The Waste Land: http://town.hall.org/radio/HarperAudio/011894_harp_ITH.html

Será que é desta vez?

A temporada 2009/2010 da Premier League está particularmente emocionante. Três clubes disputam o título: Manchester United, Chelsea e Arsenal (que a despeito de ter perdido pontos neste fim de semana, tem a tabela mais tranquila dos três), garantindo briga até o finalzinho. E diferentemente dos anos anteriores, o clubinho dos quatro parece ter sido quebrado.

A última vaga para a UEFA Champions League está aberta e sendo disputada a foice por Tottenham Hotspur, Manchester City, Liverpool e Aston Villa. E eis a grande surpresa. O time atualmente mais credenciado a levar a vaga é o Tottenham. Um time com grande torcida em Londres, concentrada na zona norte, famoso por ter um futebol bonito e ofensivo mas com uma sala de troféus bem pouco populosa. Aliás, o último título nacional (dos dois) conquistado pelo Tottenham Hotspur foi em 1961.

Isso tudo e ainda a eterna fama de amarelão. O time joga bem, joga bonito, mas quando chega na hora do vamo-ver, o time refuga e entrega. Foi  o que aconteceu na temporada 2006, quando chegou na quarta posição até a última rodada mas teve um surto de desinteria (comida estragada) que fez com que o time perdesse a derradeira e decisiva partida, perdendo a tão sonhada vaga para a UCL na última rodada justamente para seus inimigos mortais, o Arsenal (também da zona norte).

Depois de algumas temporadas tentando adotar uma gestão futebolística “moderna”, tentando inovar diante de uma cultura conservadora e pouco afeita a novidades como a inglesa, o presidente Daniel Levy voltou a adotar a forma “britânica” de ver o futebol. Nas temporadas anteriores o time contratou treinadores do continente (Martin Jol, Juande Ramos), um diretor de futebol para dividir a tarefa do planejamento, investiu pesado mas teve duas temporadas com péssimo início e que só depois de muita luta escaparam das últimas posições. Pois desta vez contrataram o Harry Redknapp. Boleirão. Nada sofisticado. Não afeito a ser um grande tático, mas um administrador de elenco. Mas esse “Joel Santana” cockney levara o modesto Porstmouth ao título da FA Cup. Porque não dar certo no norte de Londres?

Parece estar dando.  O time, que mesmo nas temporadas fracassadas contava com um elenco bem qualificado, parece ter encaixado seu jogo e continua  demonstrando um futebol bonito e bem ofensivo.  Mas diferentemente do 4-3-3 do Arsenal (dirigido pelo francês Wenger), do 4-3-1-2 com meio-campo em losango do Chelsea (dirigido pelo italiano Ancelotti) e do 4-2-3-1 do Liverpool (dirigido pelo espanhol Benítez), o Tottenham joga no inglesíssimo 4-4-2 em linha, com dois meias-centrais (um mais recuado, Palacios, um mais ofensivo, Huddlestone) e dois wingers que jogam quase colados à linha lateral.  E o futebol bonito flue.

Restando seis rodadas (sete para alguns com partidas atrasadas) o Tottenham tem cinco pontos de vantagem sobre o Manchester City, com seu milionário elenco. Embora o Manchester City tenha uma partida a menos, a ser disputada hoje (segunda feira 29/03). O que significa que a vaga pode ser consolidada no confronto direto no estádio City of Manchester. Aston Villa tem 51 pontos em 31 partidas e parece estar perdendo fôlego, como acontecera na temporada anterior. O Liverpool tem os mesmos 54 pontos, mas um jogo a mais que Tottenham e Aston Villa e dois a mais que o Manchester City.

O que pode tirar a vaga dos Spurs é o fato deles certamente enfrentarem a tabela mais complicada, com uma sequência contra Chelsea,  Arsenal e Manchester United (os Spurs  costumam ratear feio diante de times grandes), além do confronto contra o City. Faltam poucas semanas para saber se o velho boleiro conseguiu imprimir uma mentalidade vencedora nos Spurs ou se a velha sina de entregar o ouro na reta final prevalecerá.

A vida é boa demais

O grupo islandês The Sugarcubes é o responsável pelo canto do cisne da New Wave que varrera a música mundial desde 1977. O ano é 1989 (aliás, annus mirabilis em matéria de música, que viu o lançamento de L’eau rouge dos Young Gods, Freedom do Neil Young, New York do Lou Reed, Bizarro do Wedding Present, Disintegration do The Cure e algumas outras pequenas obras primas da música) e o álbum é Life’s Too Good.

O Sugarcubes é uma banda que se equilibra entre os polos de Bjork Guðmundsdóttir (entenderam porque ela é conhecida só pelo primeiro nome?) e Einar Örn, com uma música simples, mas climática, vibrante e energética. A musicalidade ao mesmo tempo anacrônica e idiossincrática, talvez fruto do isolamento de se viver na Islândia (em época pré-imediatismo internético) é deliciosa, fresca e bela. Como era fresca e bela Bjork aos  19 anos de idade.

O disco abre com a sorumbática Traitor, prenunciando o clima do que viria a seguir. Depois das pops e dançantes Motorcrash e Delicious Demon, somos apresentados ao núcleo da obra da banda. Birthday, Coldsweat, Deus e Blue Eyed Pop.

Essas canções apresentam a expressão vocal de Bjork no seu auge, oscilando entre a delicadeza de Deus à dissonância rasgada de Birthday. A contribuição contida de Örn acrescenta o toque necessário de dramaticidade às canções pop, perfeitas, bem acabadas do álbum. Depois há a divertida Sick for Toys e o impagável rockabilly de Fucking in Rythm & Sorrow.

O álbum representou a estréia, o auge e o canto do cisne dos Sugarcubes. O segundo álbum não manteve o mesmo nível, até pelo desequilíbrio, já que Einar Örn passou a assumir um papel mais presente nas canções, berrando feito um louco e abafando a voz da Bjork. Aliás, nem em carreira solo (embora fosse por décadas a musa dos moderninhos de butique) Bjork chegou perto do que mostrou neste álbum. Pois é. A vida é boa demais. Pena que é curta.

Romantismo à moda russa

Além de O Capote, de Gógol, outras leituras obrigatórias do meu curso de literatura russa incluem obras de Aleksandr Puchkin, autor seminal da literatura russa e responsável pela introdução e divulgação do romantismo na literatura russa. Romantismo russo? Eu pagaria pra ver…

E paguei. E valeu a pena. Li A Filha do Capitão, em boa tradução do russo por Helena Nazário, cujo volume ainda incluiu um ensaio da tradutora comentando a questão das epígrafes no livro. Não que eu seja capaz de avaliar uma tradução de literatura russa, mas a solução da Nazário em manter certos vocábulos em russo com notas de tradução explicativas me pareceu interessante, primeiro por situar culturalmente a obra, além de evitar aproximações, em caso de objetos tipicamente russos. Afinal, um tulup é um tulup, não é um casaco ou um capote. Enfim…

E o livro em  si é uma delícia. Curto (120 páginas, ou 134 com o capítulo excluído, apresentado como anexo ao final do romance), vivaz e muitíssimo agradável de se ler. Assim como no Brasil, romantismo na Rússia é uma daquelas coisas que Roberto Schwarz chamaria de “idéia fora de lugar”. E Puchkin sabia disso. Tanto que usa todos os clichês do romantismo sempre com um viés subversivo e satírico. Primeiramente o “herói romântico” é um imbecil. Desde o início ele é um gauche, preguiçoso que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Um a um os personagens se apresentam como seres patéticos, ridículos e tontos. Desde o general “alemão” até o capitão do destacamento onde Piotr Andréievich Grinov serve, que dá ordens a um regimento de aleijados e zarolhos vestido de pijama enquanto quem manda na fortaleza é sua esposa. O pai do herói é um militar decadente e esquecido pela hierarquia imperial, sua mãe é nula e seu preceptor, um pateta responsável pelo canil da família.

O ponto de partida da obra é o romance histórico, gênero principal do romance romântico (romance romântico? putz, que  horrível, mas fazer o quê? Em inglês isso viraria “romantic novel”). Mas, enquanto em Waverley, de Walter Scott, expoente máximo do romantismo britânico, o herói é imbuído dos mais nobres sentimentos, dado a versificar e corajoso ao extremo, com suas pretendentes descritas ora como a casta e pura (Rose Bradwardine), ora como a donzela guerreira (Flora Mac-Ivor), a filha do capitão é uma menina tonta, medrosa e dada a chiliques. A nobreza dos guerreiros no romantismo tradicional é substituída pela estupidez das autoridades russas, pelos incompetentes e beberrões militares russos e pela parvoíce generalizada dos personagens.

A ironia, a chacota e a sátira não impedem que Puchkin utilize os clichês românticos a seu favor, quando necessário. E, interessantemente, o único personagem a merecer tratamento trágico e elevado é justamente o vilão, Pugatchóv, responsável por um levante popular no reinado de Catarina II. Pugatchóv é sanguinário, mas não bárbaro. Demonstra compaixão, senso de justiça, gratidão e dignidade. Tratamento jamais dispensado pelo autor aos dirigentes militares ou políticos russos.

A nota engraçada disso tudo é que o professor da disciplina de Introdução à Literatura Russa, ao exigir que os alunos lessem na tradução da Helena Nazário, comentou que a tradução havia sido publicada nos anos 80 e ainda não havia sido esgotada, sem jamais ser reimpressa ou reeditada. “Ninguém compra esse livro”, ele disse, “eles só vendem uns exemplares ou outro na feirinha, e olha que eu indico esse livro todo ano”. Pois bem, encomendei o exemplar e ao recebê-lo em casa, aberta a embalagem subiu um cheiro típico de ácaro (aquele cheiro de livro velho, de sebo). Folheei o exemplar fedido e vi: impresso na falida a décadas “Imprensa Metodista”. Data de edição: 1980.

Realmente. Ninguém compra esse treco. O que é uma pena, pois é uma leitura deliciosa.

Um poema às quartas

The Waste Land

III. THE FIRE SERMON

THE river’s tent is broken: the last fingers of leaf
Clutch and sink into the wet bank. The wind
Crosses the brown land, unheard. The nymphs are departed.
Sweet Thames, run softly, till I end my song.
The river bears no empty bottles, sandwich papers,
Silk handkerchiefs, cardboard boxes, cigarette ends
Or other testimony of summer nights. The nymphs are departed.
And their friends, the loitering heirs of city directors;
Departed, have left no addresses.
By the waters of Leman I sat down and wept…
Sweet Thames, run softly till I end my song,
Sweet Thames, run softly, for I speak not loud or long.
But at my back in a cold blast I hear
The rattle of the bones, and chuckle spread from ear to ear.

A rat crept softly through the vegetation
Dragging its slimy belly on the bank
While I was fishing in the dull canal
On a winter evening round behind the gashouse
Musing upon the king my brother’s wreck
And on the king my father’s death before him.
White bodies naked on the low damp ground
And bones cast in a little low dry garret,
Rattled by the rat’s foot only, year to year.
But at my back from time to time I hear
The sound of horns and motors, which shall bring
Sweeney to Mrs. Porter in the spring.
O the moon shone bright on Mrs. Porter
And on her daughter
They wash their feet in soda water
Et, O ces voix d’enfants, chantant dans la coupole!

Twit twit twit
Jug jug jug jug jug jug
So rudely forc’d.
Tereu

Unreal City
Under the brown fog of a winter noon
Mr. Eugenides, the Smyrna merchant
Unshaven, with a pocket full of currants
C.i.f. London: documents at sight,
Asked me in demotic French
To luncheon at the Cannon Street Hotel
Followed by a weekend at the Metropole.

At the violet hour, when the eyes and back
Turn upward from the desk, when the human engine waits
Like a taxi throbbing waiting,
I Tiresias, though blind, throbbing between two lives,
Old man with wrinkled female breasts, can see
At the violet hour, the evening hour that strives
Homeward, and brings the sailor home from sea,
The typist home at teatime, clears her breakfast, lights
Her stove, and lays out food in tins.
Out of the window perilously spread
Her drying combinations touched by the sun’s last rays,
On the divan are piled (at night her bed)
Stockings, slippers, camisoles, and stays.
I Tiresias, old man with wrinkled dugs
Perceived the scene, and foretold the rest—
I too awaited the expected guest.
He, the young man carbuncular, arrives,
A small house agent’s clerk, with one bold stare,
One of the low on whom assurance sits
As a silk hat on a Bradford millionaire.
The time is now propitious, as he guesses,
The meal is ended, she is bored and tired,
Endeavours to engage her in caresses
Which still are unreproved, if undesired.
Flushed and decided, he assaults at once;
Exploring hands encounter no defence;
His vanity requires no response,
And makes a welcome of indifference.
(And I Tiresias have foresuffered all
Enacted on this same divan or bed;
I who have sat by Thebes below the wall
And walked among the lowest of the dead.)
Bestows on final patronising kiss,
And gropes his way, finding the stairs unlit…

She turns and looks a moment in the glass,
Hardly aware of her departed lover;
Her brain allows one half-formed thought to pass:
‘Well now that’s done: and I’m glad it’s over.’
When lovely woman stoops to folly and
Paces about her room again, alone,
She smoothes her hair with automatic hand,
And puts a record on the gramophone.

‘This music crept by me upon the waters’
And along the Strand, up Queen Victoria Street.
O City city, I can sometimes hear
Beside a public bar in Lower Thames Street,
The pleasant whining of a mandoline
And a clatter and a chatter from within
Where fishmen lounge at noon: where the walls
Of Magnus Martyr hold
Inexplicable splendour of Ionian white and gold.

The river sweats
Oil and tar
The barges drift
With the turning tide
Red sails
Wide
To leeward, swing on the heavy spar.
The barges wash
Drifting logs
Down Greenwich reach
Past the Isle of Dogs.
Weialala leia
Wallala leialala

Elizabeth and Leicester
Beating oars
The stern was formed
A gilded shell
Red and gold
The brisk swell
Rippled both shores
Southwest wind
Carried down stream
The peal of bells
White towers
Weialala leia
Wallala leialala

‘Trams and dusty trees.
Highbury bore me. Richmond and Kew
Undid me. By Richmond I raised my knees
Supine on the floor of a narrow canoe.’
‘My feet are at Moorgate, and my heart
Under my feet. After the event
He wept. He promised “a new start”.
I made no comment. What should I resent?’
‘On Margate Sands.
I can connect
Nothing with nothing.
The broken fingernails of dirty hands.
My people humble people who expect
Nothing.’
la la

To Carthage then I came

Burning burning burning burning
O Lord Thou pluckest me out
O Lord Thou pluckest

burning

A Terra Desolada

III. O SERMÃO DO FOGO

O dossel do rio se rompeu: os derradeiros dedos das folhas
Agarram-se às úmidas entranhas dos barrancos. Impressentido,
O vento cruza a terra estiolada. As ninfas já partiram.
Doce Tâmisa, corre suave, até que meu canto eu termine.
O rio não suporta garrafas vazias, restos de comida,
Lenços de seda, caixas de papelão, pontas de cigarro
E outros testemunhos das noites de verão. As ninfas já
partiram.
E seus amigos, os ociosos herdeiros de magnatas municipais,
Partiram sem deixar vestígios.
Às margens do Léman sentei-me e lá chorei . . .
Doce Tâmisa, corre suave, até que meu canto eu termine,
Doce Tâmisa, corre suave, pois falarei baixinho e quase nada
te direi.
Atrás de mim, porém, numa rajada fria, escuto
O chocalhar dos ossos, e um riso ressequido tangencia o rio.
Um rato rasteja macio entre as ervas daninhas,
Arrastando seu viscoso ventre sobre a margem
Enquanto eu pesco no canal sombrio
Durante um crepúsculo de inverno, rodeando por detrás o
gasômetro,
A meditar sobre o naufrágio do rei meu irmão
E sobre a morte do rei meu pai que antes dele pereceu.
Brancos corpos nus sobre úmidos solos pegajosos
E ossos dispersos numa seca e estreita água-furtada,
Que apenas vez por outra os pés dos ratos embaralham.
Atrás de mim, porém, de quando em quando escuto
O rumor das buzinas e motores, que trarão na primavera
Sweeney de volta aos braços da Senhora Porter.
‘Ó a Lua que luminosa brilha
Sobre a Senhora Porter e sua filha, ambas
A banhar os pés em borbulhante soda.’
Et O ces voix d’enfants chantant dans la coupole!

Tiuit tiuit tiuit
Tiu tiu tiu tiu tiu tiu
Tão rudemente violada.
Tereu

Cidade irreal,
Sob a fulva neblina de um meio-dia de inverno
O Senhor Eugênides, o mercador de Smyrna,
A barba por fazer e o bolso cheio de passas coríntias
C.I.F. Londres, documentos à vista
Convidou-me em seu francês vulgar (demótico, eu diria)
A almoçar no Cannon Street Hotel
E a passar um fim de semana no Metropole.

À hora violácea, quando os olhos e as costas
Às mesas de trabalho renunciam, quando a máquina humana
aguarda
Como um trepidante táxi à espera,
Eu, Tirésias, embora cego, palpitando entre duas vidas,
Um velho com as tetas engelhadas, posso ver,
Nessa hora violácea, o momento crepuscular que luta
Rumo ao lar, e que do mar devolve o marinheiro à sua casa;
A datilógrafa que ao lar regressa à hora do chá,
Recolhe as sobras do café da manhã, acende
O fogareiro e improvisa seu jantar em latas de conserva.
Suspensas perigosamente na janela, suas combinações
Secam ao toque dos últimos raios solares.
Sobre o divã (à noite, sua cama) empilham-se
Meias, chinelos, batas e sutiãs.
Eu, Tirésias, um velho de enrugadas tetas,
Percebo a cena e antevejo o resto.
– Também eu aguardava o esperado convidado.
Chega então um rapaz com marcas de bexiga,
Um insignificante balconista de olhar atrevido,
Um desses tipos à-toa em que a arrogância assenta tão bem
Quanto a cartola na cabeça de um milionário de Bradford.
O momento é agora propício, ele calcula,
O jantar acabou, ela está exausta e entediada.
Ele procura então envolvê-la em suas carícias
Não de todo repelidas, mas tampouco desejadas.
Excitado e resoluto, ele afinal investe.
Mãos aventureiras não encontram resistência;
Sua vaidade dispensa resposta,
E faz da indiferença uma dádiva.
(E eu, Tirésias, que já sofrera tudo
O que nessa cama ou divã fora encenado,
Eu, que ao pé dos muros de Tebas me sentei
E caminhei por entre os mortos mais sepultos.)
Ao despedir-se, concede-lhe o rapaz um beijo protetor
E desce a escada escura, tateando o seu caminho . . .

Ela volta e mira-se por um instante no espelho,
Quase esquecida do amante que se foi;
No cérebro vagueia-lhe um difuso pensamento:
“Bem, já terminou; e muito me alegra sabê-lo.”
Quando uma bela mulher se permite um pecadilho
E depois pelo seu quarto ainda passeia, sozinha,
Ela a mão deita aos cabelos em automático gesto
E põe um disco na vitrola.

“Esta música ondula junto a mim por sobre as águas”
E ao longo da Strand, Queen Victoria Street acima.
Ó Cidade cidade, às vezes posso ouvir
Em qualquer bar da Lower Thames Street
O álacre lamento de um bandolim
E a algazarra que farfalha em bocas tagarelas
Onde repousam ao meio-dia os pescadores, onde os muros
Da Magnus Martyr empunham
O inexplicável esplendor de um jônico branco e ouro.

O rio poreja
Petróleo e alcatrão
As barcaças derivam
Ao sabor das marés
Rubras velas,
Abertas a sotavento,
Drapejam nos pesados mastros.
As barcaças carregam
Toras que derivam rio abaixo
Até o braço de Greenwich
Para além da Ilha dos Cães.
Weialala leia
Wallala leialala

Elizabeth e Leicester
Ao ritmo dos remos
A popa figurava
Uma concha engalanada
Rubra e dourada
A rápida pulsação das águas
Encrespava ambas as margens
O vento sudoeste
Corrente abaixo carregava
O repicar dos sinos
Torres brancas
WeialaJa leia
Wallala leialala
“Bondes e árvores cobertos de poeira.
Highbury me criou. Richmond e Kew
Levaram-me à ruína. Perto de Richmond ergui-me nos joelhos
Ao fundo da canoa estreita em que me reclinara.”

“Meus pés estão em Moorgate, e meu coração
Debaixo de meus pés. Depois do que fez
Ele chorou. Prometeu `começar tudo outra vez’.
Nada lhe censurei. De que me iria ressentir?”

“Nas areias de Margate.
Não consigo associar
Nada com nada.
As unhas quebradas de encardidas mãos.
Meu povo humilde povo que não espera
Nada.”
la la
A Cartago então eu vim

Ardendo ardendo ardendo ardendo
Ó Senhor Tu que me arrebatas
Ó Senhor Tu que arrebatas

ardendo

(Tradução: Ivan Junqueira)

Todos os gols da Copa do Mundo – 2006

Ufa. Terminamos com a retrospectiva dos gols das Copas do Mundo desde 1982.

Parte 1

Parte 2

Parte 3

Parte 4

Parte 5

Parte 6

Parte 7

Parte 8

Parte 9

Parte 10

Parte 11

Parte 12

O Capote

Após longo e tenebroso inverno, voltei a uma das atividades que mais gosto e, proporcionalmente, menos faço: ir ao teatro.

Na verdade a história da minha ida a esta peça está ligada a uma disciplina opcional que escolhi na faculdade: introdução à literatura russa (???). Pois é. Numa conversa informal com um aluno aqui de onde trabalho descobri que o Teatro Popular do Sesi, aqui em SP, estava com a peça The Overcoat/O Capote, do Gecko Theatre Company, uma companhia internacional com atores do mundo todo sediada em Ipswich, Inglaterra. O projeto é um trabalho conjunto do Sesi com o British Council, que faz esse intercâmbio Brasil-Inglaterra de maneira bem interessante. A produção anterior havia sido Cymbeline, peça pouco conhecida de Shakespeare, encenada de maneira brilhante pela companhia Kneehigh Theatre em 2008. Excelente.

Mas, o que a introdução à literatura russa tem a ver com isso? Bem, uma das obras a serem estudadas neste semestre é justamente “O Capote“, de Nicolai Gogol. Conto que narra a história de Akaki, escriturário pobre atormentado pelos colegas pelo fato de ter um capote (peça importantíssima na gélida Rússia do século XIX) esfarrapado. Ao comprar um novo capote, vê a mudança de tratamento que recebe, que dura pouco tempo pois o tem roubado.

Temas completamente atuais como discriminação social, exploração do trabalho, ritmo maquinal e cronometrado são abordados na peça de maneira interessantíssima. Enquanto o Cymbeline da Kneehigh era falado em inglês, com legendas projetadas em português, o Capote do Gecko é falado em português (apenas o personagem principal), francês, inglês, espanhol, italiano, alemão e japonês, tudo ao mesmo tempo agora. E a narrativa é sustentada através do que o grupo chama de “teatro físico”.

Quem perdeu, perdeu.