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Revoada e descompasso

Em meu post anterior sobre futebol, chamado “Futebol globalizado? Aqui não“, eu comentei, com a ajuda de outros blogs, sobre o dano que o calendário brasileiro mal feito e descompassado traz aos próprios clubes pelo fato de impedi-los de disputarem os amistosos e torneios de pré-temporada que acontecem na Europa, América do Norte, Ásia, África e Austrália. Esse dano é financeiro e mercadológico.

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Agora vamos falar do dano esportivo que esse descompasso traz ao nosso campeonato. O já citado nesse blog Emerson Gonçalves faz uma interessante análise da tabela do campeonato brasileiro (aqui) e conclui que existem quatro períodos distintos no campeonato brasileiro: “1º turno: 9 de maio a 8 de julho  – Fase “das Copas-”; “2º turno: 1º de julho a 31 de agosto – Fase “Janela de Verão”; “3º turno: 11 de julho a 23 de agosto – Fase “Jogos Sem Descanso”; “4º turno: 29 de agosto a 6 de dezembro – Fase “Reta Final”.

Pois bem. O calendário trôpego prejudica no início do campeonato justamente os times mais qualificados, pois junta reta final de Copa Libertadores e Copa do Brasil com o início do Brasileirão. Depois, com a janela de verão européia, há a saída de jogadores de inúmeros times, ao mesmo tempo em que ocorre a intensificação das partidas, com rodadas duas vezes por semana

Ou seja: bem no momento quando os times terão seus elencos mais exigidos, com maior incidência de contusões, suspensões e maior cansaço, os clubes tem seus elencos reduzidos com as vendas para o exterior. Claro que alguns clubes aproveitam essa janela para poderem reforçar seus elencos. Mas em geral a “balança comercial da bola” é superavitária para o mercado brasileiro. Resumidamente, exportamos mais que importamos.

Os grandes times já começam a se movimentar: O Atlético MG repatriou Rentería. o Flamengo o David (zagueiro ex-Palmeiras), o Cruzeiro o Gilberto (Tottenham) e o Corinthians o Edu. Mas as saídas de André Santos e Cristian tiram bastante força do Corinthians (que ainda pode perder o Douglas e o Felipe – quatro titulares em um mês) e o Inter perde grande parte de seu já combalido ataque com a saída do Nilmar. O Cruzeiro contratou o Guerrón, mas perdeu Ramires. Enquanto isso o Flamengo perde para o futebol russo seu principal articulador, Ibson.

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Após o período de janela de transferências, os times voltam a ter um calendário menos apertado, quando o campeonato entra em seu terço final, coincidindo também com o início da Copa Sulamericana. E muitos times que disputam a Copa estão lutando ou contra o rebaixamento, ou por uma classificação na Libertadores, consequentemente entrando na competição internacional com times reservas e sem prioridade.

E mais uma vez times brasileiros perdem a chance de se internacionalizarem, de lutar por um título, de aumentarem seu faturamento graças a um calendário esdrúxulo e mal-formatado.

Porém não há a menor previsão de que a Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sulamericana venham a ser disputadas simultaneamente em um prazo mais estendido. Para os clubes brasileiros seria altamente positivo, pois os clubes que disputam  a Libertadores poderiam disputar a Copa do Brasil também e os clubes que disputam a Sulamericana poderiam dar maior prioridade a ela. Mas a AFA e a Fox Sport se oporiam, pois o atual calendário permite que Boca Junior e River Plate possam disputar dois campeonatos internacionais por ano (aliás, justamente a interferência da Fox Sport e do Banco Santander fizeram que os times mexicanos “voltassem atrás” em sua decisão de abandonarem os torneios da Conmebol). E o futebol brasileiro vai se mediocrizando, perdendo jogadores por preços irrisórios (leia aqui um outro artigo do Emerson Gonçalves falando sobre o valor dos jogadores brasileiros no mercado europeu).

A movimentação do mercado aparentemente beneficia Palmeiras e Atlético MG, enquanto enfraquece Flamengo, Corinthians e Inter. O Palmeiras receberá o lateral Figueroa e promete trazer mais um atacante, isso sem perder Pierre e Diego Souza, sua espinha dorsal. O Atlético reforça seu ataque o que poderá dar-lhe um pouco mais de força, pois seu elenco é acanhado. O Inter já começa a ter seu desempenho prejudicado e o Corinthians, embora já tenha garantido seus títulos  e a vaga na Libertadores, deve ter menos profundidade no elenco para chegar junto no campeonato (embora eu não seja louco de desconsiderar Ronaldo).

Como exigir dos técnicos um planejamento de partidas, de elenco, que possa fazer com que seu time dispute com chances reais todos os torneios e campeonatos utilizando ao máximo seu elenco? Apenas para exemplificar: na temporada 2008/2009 o Manchester United disputou 64 partidas, conquistando 3 títulos (Mundial, Inglês e a Carling Cup) e perdendo dois (a final da UCL e a FA Cup na semi-final). O Cruzeiro disputará em 2009 69 partidas, mas teria disputado apenas três torneios: mineiro, Libertadores e brasileiro. Se o São Paulo ou Palmeiras tivessem chegado à final da Libertadores, disputariam 75 partidas no ano pelos mesmos três campeonatos. Isso mostra como os clubes brasileiros disputam mais partidas e menos torneios, ainda sem a oportunidade de terem uma pré-temporada rentável financeiramente e positiva esportivamente.

Enfim. Mais um post para falar de bastidores de futebol, não de bola rolando. Mas os jogos do brasileirão não me animaram nesta semana e na Europa os amistosos não significam grande coisa para prever a temporada.

P.S. O jornalista Erich Beting, do blog Negócios do Esporte e do site e revista Máquina do Esporte escreveu um post que fala sobre os prejuízos financeiros causados pelo descompasso entre os calendários brasileiro e europeu. O texto se chama “O calendário invertido e a receita perdida no futebol” e pode ser lido aqui.

P.P.S. No blog do Juca Kfouri tomei ciência da existência do seguinte livro: Futebol Brasileiro: Um Projeto de Calendário. O livro “tem como objetivo mostrar que o calendário do futebol brasileiro – principal problema de nosso futebol – continua sendo extremamente irracional, apesar das melhorias pontuias que aconteceram nos últimos anos. O autor acredita que a melhoria do calendário de nosso futebol é condição imprescindível para a melhoria da gestão dos clubes e, por decorrência, da gestão do próprio futebol brasileiro e, neste sentido, propõe uma metodologia de organização do calendário considerada eficaz.” Ver mais aqui.

Crise, que crise?

Eis que o primeiro mês da janela de transferências de verão se vai e tirando as extravagâncias madridistas o mercado se porta com a mais suspeita das calmarias.

Na Inglaterra quem movimenta as peças é o Manchester City e sua injeção de capital via Dubai. Contrataram Roque Santa Cruz, Gareth Barry, mas aquela ambição de formar uma seleção mundial com Fabregas, Buffon, Cristiano Ronaldo e outros está longe de se concretizar. Ainda devem chegar boas e caras peças, como Tevez, talvez Eto’o. Porém nada que indique que o City brigará pelas primeiras posições na liga.

O detalhe é que até os que devem brigar pelas primeiras posições primam pela discrição. O Manchester United perdeu Ronaldo e Tevez. E não dá pistas de que deva torrar todas as libras esterlinas faturadas com a venda do paneleiro da Madeira em reforços. O tão sonhado Benzema também se bandeou para os lados do Santiago Bernabeu. E a realidade é Antonio Valencia. Um bom meia-externo. Mas nada que faça a torcida suspirar. O Liverpool, que terminou a temporada em alta, engata uma marcha-ré terrível, com a ameaça de perder Xabi Alonso, Javier Mascherano, Alvaro Arbeloa e sem a perspectiva da chegada de peças de reposição à altura. Glen Johnson? Sim. Bom lateral direito. Mas nada que os torne mais candidatos ao título. E o Chelsea, que deve ter a generosa carteira de Abramovich aberta novamente, trouxe apenas o treinador Carlo Ancelotti, ainda uma grande incógnita. Mas seu time envelhecido e desmotivado ainda não viu um único reforço digno de nome.

Parece que a desvalorização da Libra Esterlina frente ao Euro, aliada à generosidade fiscal castelhana,  faz com que a chuvosa ilha deixe de ser um destino desejado pelos futebolistas do mundo.

A Itália vê a decadência, iniciada com a falta de modernização do futebol no final dos anos 90, aprofundada com o Calcciocaos em 2005/2006, dar as caras de vez por lá. Figo, Nedved e Kaká não jogarão mais na próxima temporada. Ibrahimovich, Pato, Pirlo e Maicon demonstram querer buscar novos ares caso seus clubes não garantam a valorização que julgam merecer. E com a exceção de Diego, não há a chegada de nenhum nome de peso à península.

Somente a Espanha agita esse mercado de transferências. Mas o abismo que separa o Real e o Barça dos outros deve se aprofundar ainda mais. O Valencia está fora do mercado. O Sevilla demonstra não ter cacife financeiro para buscar reforços que o capacitem como candidatos ao título. Mesmo o Barça demonstra não mais ter a pujança financeira necessária para buscar reforços caríssimos, querendo inclusive se desfazer de Eto’o. Apenas o Real turbina o mercado com contratações hiperinflacionadas custeadas por transações financeiras pra lá de suspeitas.

E no Brasil o tradicional êxodo de jogadores no verão europeu não começou. E nada indica que ele repetirá a revoada de anos anteriores.

Crise? Impressão sua. Vamos ver como funcionará a xepa do fim da janela, lá pro fim de agosto.