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Baader-Meinhof Blues

Minha atualização cinematográfica, nessas épocas de instantaneidade internética, beira o sinal de fumaça. Só bem recentemente cheguei a conhecer o filme “O Grupo Baader-Meinhof“, filme que concorreu ao Oscar de melhor filme estrangeiro em 2009.

O filme, óbvio, conta a história da Facção do Exército Vermelho, grupo guerrilheiro de esquerda que era conhecido pela mídia como “Baader-Meinhof”. Não vou mencionar a história do grupo, facilmente localizável na internet, mas a forma como o episódio da história recente alemã foi abordado em película é bastante interessante.

Há evidentemente uma certa romantização da atuação do grupo. O que não deixa de ser surpreendente numa época em que o aparato ideológico a partir de Reagan conseguiu demonizar a luta armada em todos os seus aspectos (claro que os terroristas islâmicos fanáticos foram os principais responsáveis por isso graças a seus ataques contra alvos civis), o que ignora o fato de que a grande maioria dos processos de independência ou de derrubada de governos opressivos e totalitários. Desde a guerra da independência dos EUA até o atentado contra o Hotel King David em Jerusalém, promovido pelo Haganá para expulsar as forças de ocupação britânicas, táticas de terrorismo e guerrilha tem sido largamente utilizadas por forças consideravelmente menos fortes.

E eis a questão (aliás, o título em alemão, “Der Baader Meinhof Komplex” evoca essa dubiedade, pois “komplex” pode significar tanto “grupo” quanto “questão”): poderiam os grupos terroristas de esquerda se enquadrarem nesta categoria, visto que, diferentemente de grupos como o IRA, que combatia um governo de ocupação, ou as guerrilhas do Araguaia que combatiam um governo ditatorial e repressivo, a maioria dos países europeus ocidentais seriam democracias liberais?

A primeira geração pós-nazismo combatia o que consideravam ser uma nova forma do fascismo: o imperialismo, propulsionado pelo governo e pelos principais banqueiros e empresários, todos saídos das fileiras nazistas, e pela mídia reacionária que desqualificava a luta da esquerda pacifista e incitava a violência e repressão policial contra os estudantes. E o estopim foi justamente a repressão policial brutal contra os estudantes, que na esteira das convulsões estudantis francesas que eclodiriam em 1968, protestavam contra a presença do Xá Reza Pahlavi e culminou na morte do estudante Benno Ohnesorg e o assassinato do líder de esquerda Rudi Dutschke por um estudante de extrema-direita, incitado pelo empresário Axel Springer (dono dos jornais Bild-Zeitung e Die Welt).

A partir daí dá-se o início de uma frenética sequência de ataques contra alvos norte-americanos e alemães, perseguições, prisões, julgamento, contra-ataques até culminar com o que foi conhecido como Outono Alemão, uma série de atentados terroristas que protestavam contra a situação da prisão dos principais líderes da Facção. Tudo ao som de muito rock’n’roll.

Os achados, além das excelentes atuações, é a beleza de duas de suas protagonistas. Johanna Wokalek, que fez o papel de Gudrum Ensslin (a despeito de Ulrike Meinhof aparecer na mídia no nome do grupo, o braço direito de Andreas Baader certamente era sua mulher Gudrum) e (principalmente) Nadja Uhl, interpretando Brigitte Mohnhauptm líder da violentíssima segunda geração da Facção do Exército Vermelho e responsável pela morte do banqueiro Ponto e do empresário Schleyer, durante o Outono Alemão.

Em uma época de revisionismo histórico lancinante, de contínuos ataques às conquistas obtidas nos anos 60, de desqualificação da luta política, o filme é um incentivo à reflexão sobre o período. Mas, se você não se interessar por história ou política, há aqui um motivo para se assistir ao filme.

Futebol e porrada

A desculpa foi arranjada. Estava ensinando inglês para um grupo que, ao mudar de livro, cuja fonologia era baseada na pronúncia-padrão americana para um livro que enfatizava o inglês britânico, passou a enfrentar certas dificuldades para compreender o que escutavam. Então sugeri a meus alunos que assitissem (sem recorrer a legendas em português) alguns filmes como “Harry Potter”, “Bridget Jones” ou “Notting Hill”. Claro, como bons alunos eles não assistiram a filme nenhum. Então eu peguei esse título para servir  de exemplo para as diferenças de pronúncia entre ambas as variedades de inglês.

O filme é Hooligans. Ou, Green Street Hooligans, como saiu na Inglaterra. Conta a história de Matt, expulso de Harvard, que se muda para a Inglaterra para morar com a irmã. Lá passa a se envolver com a “firm” do irmão de seu cunhado, Pete, que apóia o West Ham United.

Peraí! Um americano vai pra Inglaterra e vira hooligan do West Ham! Verossimilhança pro saco. Claro. Mas como vender nos EUA um filme baseado em um produto cultural (futebol) ignorado e desprezado lá e como explicar um outro ambiente cultural (hooliganismo e ‘firms’) totalmente  restrito à Inglaterra? Ora, acrescentando um personagem americano, representado por um ator famoso (Elijah Wood) pra poder vender uns ingressos na terra de tio Sam. Aliás, essa foi a desculpa para eu passar esse filme. Um americano, um inglês bem sucedido e um bando de jovens classe média-baixa e baixa. Ou seja, exposição a três tipos de sotaque de inglês no mesmo filme. Perfeito.

Tirando a bobagem do Matt, o filme é um interessante, cru e por vezes cruel retrato da juventude de classe média-baixa e baixa nos subúrbios de Londres. Explica até com certo didatismo a cultura hooligan inglesa (a representação dos hooligans do Birmingham City – conhecidos como Zulu Nation por causa da grande influência e imigração negra em Birmingham é bem fiel ao que vi no documentário The Real Football Factories).

Aliás, o documentário “The Real Football Factories” é apresentado pelo ator Danny Dyer, que atuou no filme The Football Factory, que conta o conflito entre as “firms” de Millwall e Chelsea. Neste Hooligans os conflituosos são Millwall e West Ham. Em matéria de futebol o Millwall está a décadas nas divisões inferiores. Mas no que diz respeito a pancadaria, os caras são top.

As vicissitudes da tevê por assinatura (Fórmula 51)

Eu prometi a mim mesmo que não iria reclamar mais. Mas eu acho que todo mundo sabe do que eu estou falando… quando se nasce classe média não se experimenta a sensação que eu descreverei, afinal já se nasce num lar que conta com tv por assinatura via cabo ou miniparabólica e já se convive desde sempre com a infinidade de canais pagos. Mas quem antes era um escravo da meia-dúzia de canais abertos, sendo refém de Super Cines, Zorras Totais e Serginhos Groismans conhece bem o friozinho na barriga que dá quando o homem da tv por assinatura chega para instalar o equipamento. “Nunca mais assistirei Zorra Total, Luciana Gimenez e Ratinho…” a gente esperançosamente imagina, quase como uma criança solta na loja de doces.

Mais tempo, menos tempo o choque de realidade toma conta e percebemos que não somos mais reféns de meia duzia de canais porcarias, mas sim de meia centena de canais porcarias, e sobe a grade, desce a grade duas vezes com o controle remoto e mesmo assim nada que presta parece estar passando (ou com previsão de passar nas próximas quatro horas).

Faz parte…

Nesse espírito e ainda em clima de fim de férias (como sou professor, trampo mesmo de verdade só com a volta às aulas) eu estava zapeando pelos canais de filmes quando decidimos (eu e a Marisa) parar num filme policial que estava passando. Era uma típica cena de perseguição policial onde uma dupla de bandidos (Samuel L.Jackson e o excelente Robert Carlyle, de bons filmes como a comédia histórica Plunkett e Macleane, a excelente comédia social Ou tudo Ou Nada e o drama hardcore Trainspotting) fugia de policiais e outra gangue de bandidos, com uma misteriosa mulher seguindo a todos à distância.

Havia percebido se tratar de uma perseguição nas ruas de uma cidade inglesa. Além dos indefectíveis tijolinhos vermelhos, os motoristas sentavam-se à direita. Mas em um determinado momento o carro passa voando (??? ) por uma construção famosa e  ao aterrisar (???????) numa balsa de transporte de lixo eu falei pra Marisa: “o filme se passa em Liverpool.”

O prédio famoso é o Royal Liver Building, que além de  inconfundível, tem em suas torres as figuras de dois Liver Birds. O Liver Bird é um pássaro mítico que é o símbolo da cidade de Liverpool (além de ser o escudo do Liverpool FC).

Outro motivo que levou-me a identificar a cidade (isso antes do personagem de Samuel L.Jackson chamá-la de “Liver’fuckin’pool, traduzida por “nessa porra de Liverpool”) foi o fato do personagem do Carlyle e o cara que conduzia a balsa estarem com camisas do Liverpool FC.

Pois graças a esse incentivo resolvi encarar o filme na quente e lassa noite de sábado. O filme é Fórmula 51.  Um químico, Elmo McEnroy (Jackson) desenvolve uma poderosa droga, segundo ele 51 vezes mais potente que a cocaína, 51 vezes mais alucinógena que o ácido e 51 vezes mais explosiva que o ecstasy. Elimina seu chefe, o traficante interpretado por Meat Loaf (???? de Bat Ou of Hell? Uau) e tenta negociar a droga com um traficante local, além de fugir da assassina profissional Dakota (interpretada por Emily Mortimer, a atrapalhada secretária de Clouseau no remake da Pantera Cor de Rosa).

Mas o máximo da fita é que a negociação da droga acontece durante uma partida do Liverpool, num dos camarotes executivos do mítico estádio de Anfield Road. Felix de Sousa (Carlyle), torcedor fanático do Liverpool, não sossega enquanto não assiste a partida do time naquela tarde, e a negociação é marcada para o estádio.

Diversão descompromissada para uma noite de sábado. Mas valeu pelo tour pela cidade de Liverpool e pelo interior do estádio.

Minha nossa

As férias se aproximam do fim. Mas a sessão-abacaxi no canal de filmes da TV a cabo não. Engraçado, mas quando não estou de férias é mais fácil atualizar o blog, há mais assunto para ser tratado, enfim… com as férias o ritmo diminui, o ânimo (de escrever e de pensar) também.

Agora, o que dizer desse filme? Elenco: estelar (Meryl Streep, Colin Firth, Pierce Brosnan). Cenário: um dos mais belos do mundo (as ilhas gregas). Música: divertidíssima (Abba). Mas o conjunto… ah, como é fraco.

A história da menininha que quer conhecer o pai e manda carta convidando os três possíveis para seu casamento até que seria razoável. Boa até. Mas a mocinha em questão, a bonitinha Amanda Seyfried, quando tenta fazer cara de angustiada consegue no máximo parecer que sofre de constipação intestinal. As cenas de canto e dança (afinal, isto é um musical) são até que bem coreografadas e tudo mais, mas cansa. Tá bom, confesso. A culpa é minha. Sempre odiei musicais. Mas a cena de “The Winner Takes it All”, uma das melhores canções do Abba, parece um dueto da antiga dupla argentina Pimpinella, ou de Jane e Herondy, tamanha a forçação de barra no sentimentalismo à flor da pele.

O final, piegas até, que tenta trazer um ar de modernice com a mocinha casadoira desistindo das bodas para viajar com o namorado, um dos ex-amantes da Donna (o personagem do Colin Firth) tendo um relacionamento gay com um dos ilhéus, mas com a sempre sofredora Donna achando por fim o amor de sua vida, a mensagem final é de conformidade. E é isso aí. Filme bom pra sessão da tarde, vale a pena pela música.

Roteiro de Avatar

Estou numa temporada de férias do cão em matéria de filmes na TV. Ou é azar demais ou então meu padrão de diversão está meio fora do mercado. Mas de “Paranóia” a “Controle Absoluto“, cheguei no fundo do poço em matéria de bosta cinematográfica:  “Pagando bem, que mal tem“. Lixo dos lixos.

E eu penso com meus botões… eu ainda pago pra assistir essas porcarias todas! Há dinheiro mais mal gasto que canal de filmes na TV por assinatura? Difícil.

Mas, o que falar de uma hiper-ultra-mega-bosta, que tem o maior orçamento da história e arrasta multidões para as salas como se fosse um deslocamento de refugiados de uma área em guerra!  E que pra assistir essa hiper-ultra-mega-bosta fosse preciso pagar quase trinta paus para ir numa sala IMAX para poder ter o mínimo de qualidade de efeitos especiais (afinal, há outro atrativo para essa hiperbosta?). Como diria Bartleby, prefiro não.

Mas, seus problemas acabaram. Não quer ficar de fora do hype da estação, então tá. Vazou o roteiro de Avatar na internet. Curta, cortesia do LLL.

Retrospectiva 2009 – Filmes

Com o período de festas de fim de ano, o ritmo de novas postagens diminui. Mas como o período é apropriado para fazer um balanço sobre o que pintou neste espaço desde sua inauguração, em junho, vamos lá:

Um filme piegas sobre cachorrinhos. Mas, atire a primeira pedra quem não deu nem uma choradinha: (Marie e Eu)

Um filme poderoso sobre… o que mesmo? Amor, superação e otimismo??? Sem chance: (Paper Planes)

Ah… como esses europeus são deprimidos: (Polaroids Européias)

Benjamin Button? Já vi essa história antes: (De trás pra frente)

Lembra como o Indie era legal? Como faz tanto tempo isso: (Autoparódia)

Que a força (e toda a ideologia moral cristã ocidental) esteja contigo: (Mitologia Georgelucana)

Vampiros bonzinhos e castos, como  bons mórmons: (Literatura ruim é melhor que literatura nenhuma?)

Categorias como “clipping” e “poemas” não terão retrospectiva. Clippings se tratam, em geral, de notícias, que perdem a graça após muito tempo. Poemas continuarão a ser publicados mesmo neste mês de “quase férias”.

Literatura ruim é melhor que literatura nenhuma?

Cada vez que surge um novo fenômeno de vendas no campo literário surge a velha discussão: vale a pena? Uns argumentam que sim. Dizem que a literatura infanto-juvenil ruim serve como uma “introdução” a jovens que nunca leriam nada com mais de quinze páginas e cujas páginas não contivessem mais de 3/4 de seu espaço tomado por figuras. Outros discordam. Dizem que quem lê Harry Potter não lê outra coisa. Não passa a ser consumidor de literatura. Passa a ser consumidor do próximo fenômeno de marketing, seja ele literário ou não.

A minha opinião é… eu não tenho opinião alguma formada sobre isso. Ainda. O próprio fato de ter usado termos como “consumidor” e não “leitor” já dá mostras da complexidade do problema. E aí até a velha distinção entre “alta literatura” e “subliteratura” fica superada, pois atualmente a cultura passou a ser vista como entretenimento e como um setor da economia. É o velho slogan do “leia o livro, assista o filme, ouça o disco”, rótulo que pode ser aplicado tanto ao “sério” e “culto” Ian McEwan para o “superficial” e “infantil” Harry Potter.

Tudo isso pra dizer que neste fim de semana assisti a “Crepúsculo“, filme baseado no romance de Stephanie Meyer.  Assisti não seria bem o termo. Eu acompanhei o filme, enquanto comia pizza e conversava com minha esposa e cunhado, a partir do terço inicial para o seu final. O que dizer de um filme/livro que conta a história de um triângulo amoroso entre uma mocinha, um vampiro e um lobisomem? E que o vampiro bonzinho faz parte de uma família de vampiros bonzinhos e “vegetarianos” (eles só sugam o sangue de animais, não de gente)? E que o romance dos dois é puro e virginal como um romance entre uma mocinha branca do sul dos Estados Unidos com um carinha que usa o anel de castidade dos Jonas Brothers (afinal de contas, Stephanie Meyer é mórmom praticante e sua saga serve também para embrulhar bem bonitinho o conceito de moralidade proto-cristã da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)? Não há muito o que falar sobre o filme, mais do que haveria para falar de Bob Esponja, Padrinhos Mágicos ou Hannah Montana.

Que a sociedade americana, e por conseguinte a sociedade ocidental, está em franco e rápido processo de infantilização, cuja proliferação de “desenhos adultos” (não estou falando de paródias pornôs, mas de Simpsons, Family Guy e similares), transformação de baile de debutantes em bailinhos Disney (quando outrora eram o rito de passagem para a vida adulta – casamento, sexo e saída da casa dos pais inclusos) e a proliferação de especialistas para todas as áreas da vida privada, nós já sabemos. Que isto significa que, especilmente na indústria do entretenimento americana, a complexidade dos temas e a qualidade dos produtos ficma seriamente comprometidas em favor de uma “palatabilidade” mais geral possível, também.

Porém se o terreno da “coerência ideológica” está perdido, visto que a recente adaptação cinematográfica de Atonement (no Brasil recebeu o quase idiótico título de “Desejo e Reparação” – o que mostra a necessidade quase patológica de que tudo seja explicadinho e digerido nos mínimos detalhes para o deleite da massa) equipara em termos de “mercadoria” tanto a alta cultura quanto a subliteratura, ao menos no quesito “qualidade” há ainda alguma reserva. Resta saber por quanto tempo.

P.S. Sobre a questão da infantilização da sociedade, há este interessante artigo. Sobre o uso da ficção e da mitologica como meio de transmissão de valores morais, já escrevi aqui.

P.P.S. Para não dizer que o filme não presta para absolutamente nada, dá para dizer que Kristen Stewart é uma atriz boazinha, como seu papel de adolescente louquinha pra dar em “Na Natureza Selvagem” havia mostrado. Mas o grande achado do filme é a beleza (ainda que com pouco talento) de Ashley Greene.

P.P.P.S. Com um enfoque um pouco diferente (e muito mais bem escrito), o jornalista Maurício Stycer escreveu em seu blog um artigo que foi tuitado como “um tiozinho tentando entender Crepúsculo e Lua Nova”: aqui. Tiozinho. Pois é… foi assim que me senti.