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Ainda sobre público de futebol

Ecoando com o post que escrevi a alguns dias, sobre o baixo público nas partidas de futebol em São Paulo, eu colo aqui um texto do Mauro Cezar Pereira sobre o mesmo tema.

“Torcedor troca a arquibancada pela poltrona. E isso poderá matar o futebol

por Mauro Cezar Pereira, blogueiro do ESPN.com.br

A morte de Eduardo Vianna, o Caixa D’Água, vai completar três anos nesta sexta-feira, dia 21 de agosto. Ele presidia a Federação de Futebol do Rio de Janeiro no final dos anos 80, quando a TV Manchete adquiriu os direitos de transmissão dos jogos do campeonato carioca, e passou a mostrar, às 18 horas, os jogos que tradicionalmente começavam às 17 horas sem TV ao vivo.

Obviamente houve impacto na presença do público nos clássicos dominicais do Maracanã. E críticas. Foi então que o famigerado cartola disse que se a televisão estava pagando, não o incomodava ver as arquibancadas vazias. Em suma, público? Não importa. Nunca achei que o cartola fosse um visionário, mas de certa forma ele estava prevendo o futuro.” Continua aqui.

Ecoando com este post: https://sinosdobram.wordpress.com/2009/08/10/o-tumulo-do-futebol/

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O túmulo do futebol

Ontem estava retornando para casa com o rádio do carro sintonizado na Eldorado/ESPN, para as tradicionais discussões pós-rodada, quando o jornalista Paulo Vinícius Coelho soltou algo parecido com: “a vários anos o estado de São Paulo só tem média de público maior que Goiás, Paraná e Santa Catarina. Os times de São Paulo não conseguem levar público aos estádios senão em jogos importantes da Libertadores, finais de copas ou se o time está muito bem em uma reta final de campeonato”. Para finalizar o jornalista disse que se não fosse o fato dos times de São Paulo estarem ganhando tudo, o estado poderia ser considerado também o túmulo do futebol.

Resolvi buscar as estatísticas do Brasileirão na internet e encontrei a média de público por estado a partir de 2004:

2004

PA 13.143
GO 9.133
SC 8.532
MG 8.306
SP 8.276
PR 8.140
RS 7.278
RJ 6.921
BA 5.936

2005

CE 23.731
MG 18.816
RJ 15.110
PR 14.175
DF 13.479
PA 13.325
GO 12.980
RS 11.273
SP 11.246
SC 9.279

2006

RS 16.775
MG 15.239
RJ 12.620
CE 11.786
SP 11.481
SC 10.703
PR 10.532
GO 10.305
PE 9.876

2007

MG 23.352
RJ 22.363
PE 19.491
SP 18.520
RS 15.435
GO 14.051
PR 10.637
RN 9.370
SC 8.903

2008

RS 25.183
RJ 20.977
PE 18.300
PR 18.140
BA 15.745
MG 15.495
SP 13.275
SC 9.003
GO 8.558

2009

MG 27.365
RJ 19.592
RS 17.066
PE 15.325
PR 13.616
BA 12.821
GO 11.968
SP 11.367
SC 9.587

Fonte: Site da CBF.

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Na discussão que se seguiu entre o PVC e o Flávio Gomes, âncora do pós-jogo na rádio Eldorado/ESPN, a conclusão é de que já passou da hora de superar os argumentos do tipo “torcida A não vai em estádio”, “torcida B só vai no estádio quando o time está ganhando” e assim por diante, porque todas as torcidas do estado levam menos pagantes ao estádio que poderiam. Se o Morumbi é o maior exemplo de estádio subaproveitado, o que dizer do Palestra Itália que neste campeonato só lotou em jogos de Libertadores e no campeonato tem média de pouco menos de 15.000 espectadores, ou do Pacaembu, que mesmo contando com 33.000 lugares, tem como média de ocupação pouco menos de 19.000 pagantes?

O pior não é apenas a constatação do fato de que o maior estado do Brasil, com os clubes detentores da maior parte dos títulos nacionais, tendo o atual campeão da Copa do Brasil e o atual tri-campeão brasileiro, e com a maior renda per capita do país não consegue levar público. É perceber que clubes, federação, empresas e autoridades não tem a menor idéia do que pode, deve ou precisa ser feito. A coisa está feia. Estamos no meio da escuridão e ninguém sabe acender o fogo.

Os clubes são inábeis no trato do torcedor. Ainda não se conscientizaram sobre a necessidade de se tratar o frequentador de estádio como o consumidor de um produto que está longe de ser barato. Afinal de contas, se o torcedor for ao estádio quatro vezes por mês, terá deixado na bilheteria do estádio algo em torno de R$ 100,00. Portanto, não há fidelização do consumidor, benefício àquele consumidor contumaz dos serviços dos clubes, estratégia de marketing e novos produtos para serem oferecidos a outras faixas etárias e classes sociais e, consequentemente, nenhum crescimento em um mercado potencialmente enorme.

A falta de oferta é flagrante, mas quando ela acontece, nem sempre há a participação que se imaginaria, quer por incompetência na hora de anunciar o novo produto, quer na falta de percepção de um público mais qualificado no real benefício desse produto, quer na não exploração do produto de forma eficaz, como no Setor Visa do Palestra Italia ou do Estádio do Morumbi.

Se os clubes tem sua imensa parcela de culpa no péssimo número de pagantes que comparecem aos estádios de futebol, as autoridades policiais e judiciárias tem outra parcela igualmente importante. Os conflitos entre torcedores organizados, que espantam um grande número de pessoas das arquibancadas de futebol, são eventos não apenas previsíveis como perfeitamente evitáveis, caso houvesse o mínimo de vontade e competência. A revista Veja São Paulo, por ocasião do conflito entre torcedores do Vasco da Gama e Corinthians, elaborou uma matéria onde procuram explicar os motivos dos conflitos como também sugerem medidas que  diminuiriam a violência nos estádios e no seu entorno (veja aqui).

Entre medidas acertadas, como a punição dos responsáveis por brigas de torcidas com prisão e banimento dos estádios pela vida toda, o monitoramento efetivo dos estádios de futebol e a criação de polícias específicas para lidar com esse tipo de evento (a Polícia Militar é altamente incompetente para lidar com esse tipo de conflito, como a recente confusão no último jogo da Ponte Preta atesta), há a proposta de medidas totalmente ineficazes e inócuas, como a proibição do consumo de bebida alcoólica no entono do estádio, jogos de torcida única e o cadastramento do torcedor no Ministério Público.

Mas percebe-se que Ministério Público, Polícia, Federação, clubes, autoridades de trânsito e outros simplesmente não fazem a menor idéia de como combater o problema da violência e da falta de público. Estão dando tiros aleatórios no escuro, sem ter a menor noção de quais os alvos a serem atingidos.

Enquanto não houver um desastre de grandes proporções nos estádios de São Paulo, ou enquanto o futebol brasileiro não se apequenar de forma inimaginável no cenário internacional (só não aconteceu por causa da imensa capacidade de revelação de jogadores que o Brasil possui, aliado ao sucateamente do futebol de nossos vizinhos), nenhuma medida será tomada. E o pior é que o estudo para tais medidas poderia ser feito, nos moldes do Relatório Taylor, que poderia servir de pontapé e auxiliar um estudo apropriado à realidade brasileira.

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Enquanto isso, lá vem o Brasil, descendo a ladeira…

P.S. O jornalista Mauro Cézar Pereira, em seu blog, publica a lista da média de público de times brasileiros disputando as séries A, B, C e D. O clube que ocupa a segunda posição no ranking é o Santa Cruz, com a média de 38.245 pagantes por partida. Isso disputando a série D, da qual acaba de ser desclassificado. Somados os públicos dos três times de Recife (Sport, Santa Cruz e Náutico), temos a presença de 68.559 torcedores por rodada em casa. Somados os públicos dos quatro clubes de São Paulo (Palmeiras, Corinthians, São Paulo e Portuguesa de Desportos) temos a presença de 53.867. Vergonhoso, não? Matéria completa aqui.