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Os Deuses no Exílio

O poeta no exílio, Heinrich Heine, produziu uma interessantíssima obra em prosa, cuja classificação é tão difícil quanto é saborosa sua leitura.

Tem pretensão ensaística, sabor romanesco, humor e ironia. Basicamente, trata da expulsão dos deuses olímpicos da Europa com o triunfo do cristianismo. O substrato sério do  texto (que foi publicado em duas versões, uma em francês, onde vivia o poeta, e outra em alemão, cuja publicação demorou por causa da severa censura que Heine recebia em sua terra por causa de suas posições políticas) conta como os deuses foram incorporados no folclore europeu, transmutados em fantasmas, gênios e demônios, opostos à religião cristã. Mas a forma como é narrada a passagem da religião pagã até sua incorporação pelo cristianismo é maravilhosa.

Na versão francesa, mais longa, o autor narra o episódio do acadêmico que busca escrever as “Magnificências do Cristianismo”, uma obra apologética que saiu da pena diretamente para a fogueira por força de um autor que de tão zeloso por rebater qualquer argumento contra suas palavras estuda tão a fundo o lado oposto da arena intelectual que passa a se convencer de sua correção e, por conseguinte, rejeita sua portentosa obra.

As lendas sobre Baco, Mercúrio, Júpiter e Apolo, emolduradas por episódios referentes às fontes que contaram ao autor as lendas, aparecem em ambas as versões. Uma versão da lenda de Venus e Tannhauser está apenas na versão francesa.

O livrinho, com as duas versões, mais o poema “Os Deuses da Grécia” e mais um ensaio crítico para cada uma das versões, é uma delícia de ser lido. Cada texto de Heine termina-se em uma sentada. O que espanta o leitor não é a obra. É o preço. Um livrequinho custa trinta e oito paus. O pessoal da Iluminuras perdeu o senso de realidade.

A piedade como protesto

Depois do romantismo paródico de Puchkin, o autor que definiu a cara da literatura russa na primeira metade do século XIX foi Nikolai Gogol. O que eu conhecia sobre Gogol se resumia em uma versão da peça “O Inspetor Geral“, encenada a mais de dez (talvez quinze) anos dirigida por Antonio Abujanra e a peça “The Overcoat“, baseada no conto O Capote, pelo grupo britânico Gecko.

Ambas peças tratam do mundo do funcionalismo público russo na época do império. Corrupção, tráfico de influência, abuso de autoridade, tudo o que faz de ambas as montagens algo estranhamente contemporâneo e familiar, a despeito das diferenças temporais e geográficas que separam o Brasil do século XXI da Rússia do século XIX.

Mas na leitura de “O Capote” e de outra de suas novelas, “Diário de um Louco” essa semelhança atinge sua aproximação máxima.

Diferentemente da caracterização estilizada, romântica e exagerada dos personagens em Puchkin, os personagens de Gogol não fazem parte do universo da nobreza, da corte e do exército (os extratos elevados da sociedade – normalmente sujeitos à representação literária). São os funcionários mais baixos dentro do departamento de estado. Os escrivões. Que vagam pelas ruas sem ter dinheiro para coche, que não tem dinheiro para aquecimento na gélida São Petersburgo, que não tem perspectiva.

Mas diferentemente do que se imaginaria, não há a representação realista-naturalista. E isso faz do maravilhoso, sobrenatural (realismo fantástico, quase) presente nos contos de Gógol cada vez menos estranho à realidade.

Além do elemento sobrenatural, o que permite que o público leitor de então (uma parcela ínfima de qualquer sociedade – ainda mais na Rússia) aceite ler relatos sobre a classe baixa é o sentimento de piedade que o leitor passa a ter pelos protagonistas. Akaki Akakiévich é parvo ao extremo. Sua incapacidade de se expressar, seu sonho de aceitação graças ao seu novo capote, a humilhação que recebe de seus colegas, das autoridades policiais, tudo recebido de maneira estóica, com sofreguidão e resignação, cativam a simpatia do leitor para a pobre criatura.

Poprishchin, em “Diário de um Louco”, por outro lado, cativa pelo cômico. A progressiva escalada em direção à loucura, percorrida por este outro funcionário público, também fascinado pela insersão social, nos proporciona um dos mais interessantes relatos sobre a esquizofrenia na literatura. O fim de ambos, previsivelmente, é trágico, ainda que cômico ou sentimental.

E a tragicidade, o sentimentalismo e o sobrenatural são as armas que permitem que tais relatos contundentes sobre a situação social na Rússia penetrem, subrepticiamente, nos palacetes e salas de leitura da nobreza e burguesia russas. O deleite com a própria miséria é também algo que nos é bastante caro. Como Machado de Assis e suas crônicas da cidade do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo escravagista e iluminista, nos mostra.

66

Outro folhetim do Laerte.

O primeiro, Muchacha, tratava da década de 50. Este, da década de 60. A diferença é que eu postei Muchacha com ele já acabado.  66 está só no começo. E pode ser que demore pra engrenar. Mas, como sempre, vale a pena seguir.

Clique na imagem para ser redirecionado para o folhetim.

P.S. Há outros assuntos no prelo, mas a falta de tempo atrasou um pouco os textos.

Profanar, uma arte

Ler filosofia marxista pode, muitas vezes, ser um exercício árido, por mais que os conceitos sejam importantes . Quem deu uma passadinha por “História e Consciência de Classe“, de Georg Lukács, sabe.

Por isso é sempre necessário se louvar um livro como “Profanações“, de Giorgio Agamben.  Agamben é um típico pensador pós-moderno, que transita entre a crítica literária, crítica cultural, política, direito, teologia, filosofia, sem nunca deixar-se definir. Bem à maneira daquele a quem muitos dizem ser o predecessor de Agamben, Michael Foucault, que de acordo com Fredric Jameson em seu ensaio sobre a pós-modernidade representava o típico pensador pós-moderno, que transita entre as mais diversas áreas do conhecimento, todavia sem se definir por nenhuma delas.

Pois o livrinho (96 páginas) de Agamben é justamente isso. Transita entre a crítica literária (como no ensaio “Paródia”), crítica cultural (“O Dia do Juízo”), teoria política (“Elogio da Profanação”), passando por momentos onde os gêneros de nã0-ficção e ficção se misturam de maneira quase inseparável (“Os Seis Minutos Mais Belos da História do Cinema”) de uma maneira esteticamente admirável.

O ensaio  que dá título ao volume é um admirável esforço conceitual, ao mesmo tempo em que é uma realização estética considerável. Além de apresentar seu conceito de “profanação”, que na teologia significa devolver um objeto ao seu uso original secular (diferentemente de seu uso “sagrado”, que é restrito ao templo, o uso “profano” envolve toda a esfera humana). Nele o filósofo resume aquilo que ele considera a tarefa política das gerações futuras: profanar o improfanável. A religião-capitalismo, que retira do uso corrente as coisas para alçá-las à esfera da contemplação sagrada, fetichista: o consumo.

Muchacha

De Los Tres Amigos (em voga principalmente após a morte de Glauco), o que sempre foi mais bem dotado tecnicamente era o Laerte. Não era tão escrachado quanto Glauco. Nem tão incisivo quanto Angeli. Mas construia personagens profundos, desenhava com perfeição e calcava muitas vezes sua obra em sutilezas pouco exploradas por seus colegas de geração.

E assim como seus colegas, Laerte envelheceu. Cansou de escrever sobre personagens e entrou numa fase mais “filosófica”.

Nessa nova fase, escreveu uma “graphic novel” em folhetim internético. A Muchacha. É uma história passada nos anos 50, época de TV feita ao vivo, de cantoras do rádio e marcathismo (mesmo no Brasil getulista). Deve sair em livro, em versão revista, expandida, corrigida e adaptada. Mas, que tal curtir a obra direto da fonte?

Cliquem na imagem e acompanhem. Mas, lembrem-se. É um blog. Que, como um mangá, deve ser lido de trás pra frente 🙂

Romantismo à moda russa

Além de O Capote, de Gógol, outras leituras obrigatórias do meu curso de literatura russa incluem obras de Aleksandr Puchkin, autor seminal da literatura russa e responsável pela introdução e divulgação do romantismo na literatura russa. Romantismo russo? Eu pagaria pra ver…

E paguei. E valeu a pena. Li A Filha do Capitão, em boa tradução do russo por Helena Nazário, cujo volume ainda incluiu um ensaio da tradutora comentando a questão das epígrafes no livro. Não que eu seja capaz de avaliar uma tradução de literatura russa, mas a solução da Nazário em manter certos vocábulos em russo com notas de tradução explicativas me pareceu interessante, primeiro por situar culturalmente a obra, além de evitar aproximações, em caso de objetos tipicamente russos. Afinal, um tulup é um tulup, não é um casaco ou um capote. Enfim…

E o livro em  si é uma delícia. Curto (120 páginas, ou 134 com o capítulo excluído, apresentado como anexo ao final do romance), vivaz e muitíssimo agradável de se ler. Assim como no Brasil, romantismo na Rússia é uma daquelas coisas que Roberto Schwarz chamaria de “idéia fora de lugar”. E Puchkin sabia disso. Tanto que usa todos os clichês do romantismo sempre com um viés subversivo e satírico. Primeiramente o “herói romântico” é um imbecil. Desde o início ele é um gauche, preguiçoso que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Um a um os personagens se apresentam como seres patéticos, ridículos e tontos. Desde o general “alemão” até o capitão do destacamento onde Piotr Andréievich Grinov serve, que dá ordens a um regimento de aleijados e zarolhos vestido de pijama enquanto quem manda na fortaleza é sua esposa. O pai do herói é um militar decadente e esquecido pela hierarquia imperial, sua mãe é nula e seu preceptor, um pateta responsável pelo canil da família.

O ponto de partida da obra é o romance histórico, gênero principal do romance romântico (romance romântico? putz, que  horrível, mas fazer o quê? Em inglês isso viraria “romantic novel”). Mas, enquanto em Waverley, de Walter Scott, expoente máximo do romantismo britânico, o herói é imbuído dos mais nobres sentimentos, dado a versificar e corajoso ao extremo, com suas pretendentes descritas ora como a casta e pura (Rose Bradwardine), ora como a donzela guerreira (Flora Mac-Ivor), a filha do capitão é uma menina tonta, medrosa e dada a chiliques. A nobreza dos guerreiros no romantismo tradicional é substituída pela estupidez das autoridades russas, pelos incompetentes e beberrões militares russos e pela parvoíce generalizada dos personagens.

A ironia, a chacota e a sátira não impedem que Puchkin utilize os clichês românticos a seu favor, quando necessário. E, interessantemente, o único personagem a merecer tratamento trágico e elevado é justamente o vilão, Pugatchóv, responsável por um levante popular no reinado de Catarina II. Pugatchóv é sanguinário, mas não bárbaro. Demonstra compaixão, senso de justiça, gratidão e dignidade. Tratamento jamais dispensado pelo autor aos dirigentes militares ou políticos russos.

A nota engraçada disso tudo é que o professor da disciplina de Introdução à Literatura Russa, ao exigir que os alunos lessem na tradução da Helena Nazário, comentou que a tradução havia sido publicada nos anos 80 e ainda não havia sido esgotada, sem jamais ser reimpressa ou reeditada. “Ninguém compra esse livro”, ele disse, “eles só vendem uns exemplares ou outro na feirinha, e olha que eu indico esse livro todo ano”. Pois bem, encomendei o exemplar e ao recebê-lo em casa, aberta a embalagem subiu um cheiro típico de ácaro (aquele cheiro de livro velho, de sebo). Folheei o exemplar fedido e vi: impresso na falida a décadas “Imprensa Metodista”. Data de edição: 1980.

Realmente. Ninguém compra esse treco. O que é uma pena, pois é uma leitura deliciosa.

Glauco morreu

“O cartunista Glauco Villas Boas, 53, foi morto nesta madrugada em sua casa, em Osasco, após uma tentativa de assalto ou sequestro –a polícia ainda investiga. Raoni, 25, um dos filhos do cartunista, também morreu durante uma discussão com dois homens armados que invadiram a casa.”

Continua aqui.

Pra quem foi adolescente na década de 80 e foi educado com Chiclete com Banana (não a horrenda banda de axé, mas a cultuada revista underground de quadrinhos, plataforma de gente como Angeli, Glauco, Laerte, Luis Gê e toda uma geração de desenhistas e quadrinhistas brasileiros) sabe o tamanho da tragédia. Sem mais palavras.

Geraldão

Dona Marta

Casal Neuras

Doy Jorge