Uma verdade universalmente conhecida

Jane Austen é ao mesmo tempo uma queridinha literária e uma injustiçada. É uma campeã de audiência, tendo praticamente todos os seus livros já transformados em filmes, minisséries da BBC, séries de TV e tudo o mais do subproduto da indústria cultural. E uma injustiçada porque muita gente, inclusive para a famosíssima (ainda mais agora em época de “Crepúsculo“) e respeitável Emily Brontë, consideram a inglesa apenas uma escritora de comedinhas românticas. E também para os estudantes de inglês no curso de letras da USP, para quem os livros dela são um horroroso fardo a ser carregado por um semestre no curso de Leituras do Cânone.

jane-austen

Grande injustiça. Alguns críticos defendem que os romances da autora deve ser lidos alegoricamente, como uma representação da união entre burguesia e aristocracia na Inglaterra do século XVIII que interrompeu o ciclo revolucionário e impediu o acesso do proletariado à nova ordem politico-econômica que se desenhou a partir daquele período. Sob esse ponto de vista seus romances passam a ser interessantíssimos. Mas não apenas por isso.

“É uma verdade universalmente conhecida que um homem solteiro, possuidor de uma boa fortuna, deve estar necessitado de esposa.”

É assim que inicia a obra (pelo menos na literal tradução da Lúcia Cardoso), um dos inícios de romance mais inesquecíveis. Não chega aos pés do início de Ana Karenina de Tolstoi – “Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira” – ou mesmo de Metamorfose de Kafka – “Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.” –  mas mereceria ao menos estar na seleção de melhores inícios do blog Todoprosa.

jane A tradução de Paulo Mendes Campos é mais literária e menos literal que a da Lúcia Cardoso e inicia assim: Um homem solteiro, possuidor de razoável fortuna, deve estar à procura de esposa. Uma solução quase boa, porque ignora a chave da frase. Uma verdade universalmente conhecida. “It is a truth universally acknowledged, that a single man in possession of a good fortune must be in want of a wife”.

A frase é o máximo. O máximo do racionalismo antropocentrista burguês da idade moderna! Hoje em dia quem poderia falar em “verdades universalmente conhecidas” sem parecer anacrônico, ridículo ou então fundamentalista religioso? Ou então, quem pode dizer “penso, logo existo” como dissera Descartes e ignorar todo o conhecimento de psicanálise trazido por Freud ou Jung, o conhecimento de consciência de classe de Marx, a “vontade de poder” de Nietszche? Hoje não dá. Mas na época dava. Foi o suprassumo da arrogância burguesa, do projeto burguês.

Mas não é apenas por isso que Orgulho e Preconceito é delicioso. Primeiramente porque a afirmação que abre o volume, feita pela sra.Bennett é implacavelmente desconstruída pela própria, numa saborosa ironia que dura o livro todo. E, a propósito, o romance é engraçadíssimo. Me peguei rindo sozinho em sala de espera, à noite na cama enquanto minha esposa não entendia nada. Realmente, Jane Austen está muito, muito distante de ser uma precursora das horrendas comedinhas românticas que salvam a conta bancára das Meg Ryans da vida.

Não assisti o filme. Assisti “Razão e Sensibilidade“, que não reproduz um décimo do mordente irônico da autora e por esse tipo de adaptação facilmente se conclui. Jane Austen continua sendo uma injustiçada.

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5 Respostas para “Uma verdade universalmente conhecida

  1. Fábio,
    normalmente são as esposas que lêem e riem!

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    É vero Raquel.

    O legal da boa literatura é que ela serve tanto para o entretenimento (o aspecto engraçado da Jane Austen) como para reflexão social, política e filosófica.

    Só o primeiro aspecto é superficial. Só o segundo, não é literatura: é sociologia, filosofia, o nome que se quiser dar. E é meio árido.

    A Jane Austen combina os dois aspectos brilhantemente.

    Obrigado pela visita e parabéns pelo seu blog especializado em Jane Austen.

  3. Dez vezes a tradução de Lúcia Cardoso. Esse tipo de ironia cínica deve ser preservado em toda a sua crueza ou crueldade. A literatura releva.

  4. Fabio Martelozzo Mendes

    Sem a ironia a frase perde todo impacto.

  5. Pingback: Retrospectiva 2009 – Livros « Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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