Leituras

Depois de duas experiências na não-ficção, volto-me para um campo que prefiro: o romance.

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E o desta semana foi “O Leitor”, de Bernhard Schlink. Culpa, expiação, reparação e reconciliação são os temas desse romance que tem por ambiente a Alemanha das décadas de 60 e 70. E o mais interessante: por mais que as gerações posteriores ao pós-guerra tenham tentado resolver essa equação, não conseguiram.

Essa fábula política, onde o personagem principal, Michael, representa as gerações alemãs que buscam distanciar-se das gerações anterioras, “culpadas” pelas atrocidades nazistas, e Hanna, a “Alemanha” ingênua, que tragada pelos acontecimentos que culminaram com Auschwitz o fez de maneira involuntária, sem a iluminação e conhecimentos necessários, evolui a ponto de tisnar essa distinção clara.

Como toda obra literária, ela suscita interpretações variadas, que eu classifico sem medo de parecer arrogante como interpretações corretas ou equivocadas. E mesmo sem ter assistido o filme, tinha certeza que se procurasse conseguiria encontrar bobagens monumentais como se o livro/filme se tratasse da “história de amor que rompe barreiras sociais como escolaridade e idade mesmo em tempos de dificuldades”. Assim como na época do lançamento de “Ensaio Sobre a Cegueira” alguns críticos míopes conseguiram transformar a fábula política de Saramago e Fernando Meireles num filme que se trata “da capacidade do ser humano em se rebaixar a níveis quase animais quando expostos a circunstâncias desfavoráveis”. Porra! “Ensaio Sobre a Cegueira” não é “Os Sobreviventes dos Andes“!

E foi o que aconteceu. Neste site existem duas críticas, uma sobre o livro e outra sobre o filme, publicadas na Folha de São Paulo. A jornalista Silvia Colombo cai na armadilha e reduz o roteiro ao “questionamento sobre o quanto a literatura pode fazer com que a vida de alguém seja mais ou menos feliz”. Por outro lado, o crítico literário Márcio Seligmann-Silva consegue em poucas palavras captar a complexidade do romance, que sim, tenta ser reacionário ao atribuir à literatura o papel de “salvadora” da alma humana. Mas cujo final simplesmente solapa qualquer tentativa de simplificação.

Como nem sequer tentei fazer a crítica desse livro, apenas dar meu pitaco, a classificação é: vale a pena. Não vai mudar sua vida, mas é um bom livro.

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6 Respostas para “Leituras

  1. Obrigada pela dica. Estive com esse livro nas mãos umas duas vezes, mas ando tão ocupada com a minha pós, que não posso me dar ao luxo nem de continuar as leituras paralelas. O bom é que tenho férias em agosto. Quero muito ler esse livro. O filme, eu vi no cinema. Kate Winslet esteve soberba. Aliás, eu gosto de filmes que tem a Alemanha nazista como pano de fundo pela complexidade de emoções que eles podem evocar.
    Abraços,

  2. Olá, Fabio.

    Não cheguei a ler o livro de Saramago. Mas tive a oportunidade de ver o filme “Ensaio sobre a Cegueira”. Pelas minha limitações, entendi que apesar de cegos, nós, humanos continuamos um lixo. Mostra que apesar de toda dor e sofrimento, não chegamos a evoluir em nada.
    Como as pessoas são muito individualistas atualmente, acho o filme um bom aviso.
    Minha psicóloga leu o livre e viu o filme. Disse que o livro é melhor. Mas que o filme retrata bem o livro. Enfim, precisamos uns dos outros. Cegos ou não. Vou ficar esperto e com certeza vou gostar deste outro livro/filme indicado.
    Parabéns pelo ótimo blog.

  3. Fabio Martelozzo Mendes

    Olá Cynthia e Philippe.

    Sei o que você passa, Cynthia. Em breve começa o segundo semestre e com eles as leituras obrigatórias da faculdade de letras, que não serão poucas. Estou lendo mais unzinho por lazer, mas daqui a pouco só será possível ler os da facu.

    Philippe. É uma interpretação possível, pois ainda está no campo da metáfora da convivência. Leia o Livro que não irá se decepcionar. E “O Leitor” é um livrinho bem curto, mas se lhe faltar tempo, veja o filme. Como diria Silvio Santos, eu ainda não assisti mas me disseram que é muito bom 🙂

  4. Deve ser muito bom…
    O filme é bacana, gostei bastante do clima. Mas a melhor coisa em The Reader-filme é a atuação de Kate Winslet; que nada tem daquela mocinha de Titanic, nada.

  5. Fabio Martelozzo Mendes

    Obrigado pela visita, Vanessa. Sim, o livro é bom. Agora, para mim a Kate Winslet faz tempo que não é a mocinha do Titanic. Pois é, a mocinha cresceu, virou um mulherão e principalmente, uma baita atriz.

  6. Pingback: Retrospectiva 2009 – Livros « Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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