Romantismo à moda russa

Além de O Capote, de Gógol, outras leituras obrigatórias do meu curso de literatura russa incluem obras de Aleksandr Puchkin, autor seminal da literatura russa e responsável pela introdução e divulgação do romantismo na literatura russa. Romantismo russo? Eu pagaria pra ver…

E paguei. E valeu a pena. Li A Filha do Capitão, em boa tradução do russo por Helena Nazário, cujo volume ainda incluiu um ensaio da tradutora comentando a questão das epígrafes no livro. Não que eu seja capaz de avaliar uma tradução de literatura russa, mas a solução da Nazário em manter certos vocábulos em russo com notas de tradução explicativas me pareceu interessante, primeiro por situar culturalmente a obra, além de evitar aproximações, em caso de objetos tipicamente russos. Afinal, um tulup é um tulup, não é um casaco ou um capote. Enfim…

E o livro em  si é uma delícia. Curto (120 páginas, ou 134 com o capítulo excluído, apresentado como anexo ao final do romance), vivaz e muitíssimo agradável de se ler. Assim como no Brasil, romantismo na Rússia é uma daquelas coisas que Roberto Schwarz chamaria de “idéia fora de lugar”. E Puchkin sabia disso. Tanto que usa todos os clichês do romantismo sempre com um viés subversivo e satírico. Primeiramente o “herói romântico” é um imbecil. Desde o início ele é um gauche, preguiçoso que não consegue enxergar um palmo diante do nariz. Um a um os personagens se apresentam como seres patéticos, ridículos e tontos. Desde o general “alemão” até o capitão do destacamento onde Piotr Andréievich Grinov serve, que dá ordens a um regimento de aleijados e zarolhos vestido de pijama enquanto quem manda na fortaleza é sua esposa. O pai do herói é um militar decadente e esquecido pela hierarquia imperial, sua mãe é nula e seu preceptor, um pateta responsável pelo canil da família.

O ponto de partida da obra é o romance histórico, gênero principal do romance romântico (romance romântico? putz, que  horrível, mas fazer o quê? Em inglês isso viraria “romantic novel”). Mas, enquanto em Waverley, de Walter Scott, expoente máximo do romantismo britânico, o herói é imbuído dos mais nobres sentimentos, dado a versificar e corajoso ao extremo, com suas pretendentes descritas ora como a casta e pura (Rose Bradwardine), ora como a donzela guerreira (Flora Mac-Ivor), a filha do capitão é uma menina tonta, medrosa e dada a chiliques. A nobreza dos guerreiros no romantismo tradicional é substituída pela estupidez das autoridades russas, pelos incompetentes e beberrões militares russos e pela parvoíce generalizada dos personagens.

A ironia, a chacota e a sátira não impedem que Puchkin utilize os clichês românticos a seu favor, quando necessário. E, interessantemente, o único personagem a merecer tratamento trágico e elevado é justamente o vilão, Pugatchóv, responsável por um levante popular no reinado de Catarina II. Pugatchóv é sanguinário, mas não bárbaro. Demonstra compaixão, senso de justiça, gratidão e dignidade. Tratamento jamais dispensado pelo autor aos dirigentes militares ou políticos russos.

A nota engraçada disso tudo é que o professor da disciplina de Introdução à Literatura Russa, ao exigir que os alunos lessem na tradução da Helena Nazário, comentou que a tradução havia sido publicada nos anos 80 e ainda não havia sido esgotada, sem jamais ser reimpressa ou reeditada. “Ninguém compra esse livro”, ele disse, “eles só vendem uns exemplares ou outro na feirinha, e olha que eu indico esse livro todo ano”. Pois bem, encomendei o exemplar e ao recebê-lo em casa, aberta a embalagem subiu um cheiro típico de ácaro (aquele cheiro de livro velho, de sebo). Folheei o exemplar fedido e vi: impresso na falida a décadas “Imprensa Metodista”. Data de edição: 1980.

Realmente. Ninguém compra esse treco. O que é uma pena, pois é uma leitura deliciosa.

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