Arquivo do mês: julho 2009

Marie e Eu

No último dia 12/07 assisti ao badalado Marley e Eu. É o tipo de filme que eu não assistiria de livre e espontânea vontade jamais. Na verdade assisti em uma sessão com os alunos da escola de inglês onde eu leciono em um projeto muito legal chamado Escola No Cinema onde pudemos levar nossos alunos a uma sessão no Espaço Unibanco na Augusta, em São Paulo.

marley_e_eu

Voltando ao filme. É o típico filme que eu, do alto do meu pedantismo pseudo-crítico literário, diria ser piegas, forçado, manipulativo e ideológico (marxistamente falando). E, de fato, é. O filme, principalmente a partir do momento do sacrifício do cãozinho até seu sepultamento, é um festival de lágrimas artificialmente criadas através da trilha sonora, do prolongamento das cenas sentimentais e do uso exaustivo das técnicas do melodrama. Uma pieguice sem tamanho.

Isso se eu não tivesse adotado um cão a poucos meses.

P1000908

Na verdade minha esposa pegou a Marie, então um filhote de menos de dois meses, na rua, onde havia sido jogada juntamente com dois irmãozinhos, dentro de um saco embaixo do pneu de um carro estacionado. O carro saiu e esmagou os outros dois cachorros. A Marisa pegou o filhote sobrevivente, levou pra veterinária e ao chegar em casa me deparei com o cachorro. Como havíamos conversado na noite anterior sobre adotarmos um (ela comentara sobre um daqueles horrendos pugs, credo) pensei que ela se antecipara a mim e conseguido o cachorro.

E desde então temos a Marie conosco. Agora é uma cachorra de quase oito meses. Ao assistir o (chatíssimo) filme, não pude evitar rir das cenas que quem não tem um cão não consegue entender. Tanto nas cenas onde o labrador ganhou a alcunha de “pior cão do mundo”, como nas onde explicita-se a formação da relação sentimental que se forma entre o cão e o dono.  Além da enorme semelhança nas destruições, há a constatação de que a Marie só não é a pior cachorra do mundo primeiramente por não ser grande e forte como um labrador e também por não ficar dentro de casa o tempo todo. Assim não há como comer o estofado da sala de estar.

SDC10188

Falando em labrador, minha primeira tentativa de adotar um cão foi a alguns anos, quando adotamos Vênus, uma cadela labrador preta. O nome foi em homenagem à tenista Venus Williams, como nossa labrador, negra, linda e forte. Na época foi impossível permanecer com ela e a doamos para uma família, que a levaria para uma casa de campo após ter permanecido conosco por aproximadamente um mês.

Mas hoje ficamos com nossa cadela SRD (sem raça definida: eufemismo para vira-latas), que em sua corrida para tirar do falecido Marley a posição de “pior cão do mundo” dependurou-se pelos dentes no fio da máquina de lavar, arrancando-o da tomada totalmente destroçado. Ela terá muitos anos pela frente para conseguir este título.

Anúncios

Feminismo: Liberalidade ou resistência?

Cáspita… pela terceira semana consecutiva o que vi de interessante na blogsofera gira no tema do feminismo! Desta vez pincei um texto do Gravataí Merengue, que é um blog que costumo ler mas que não faz necessariamente minha cabeça. Acho um pouco reaça demais pro meu gosto, embora tenha seus bons momentos. Este é um deles.

“FEMINISMO: LIBERALIDADE OU RESISTÊNCIA?

Hoje em dia, o feminismo é mais ou menos como aqueles jogos de RPG: há um sem-número de teses e dogmas e, para falar a respeito, é preciso invocar uma “linha”, da qual sairão doutrinas variadas e assim por diante. Obviamente, não sigo linha alguma e vou adiante, dividindo-o em duas categorias: a liberalidade e a resistência.

Se quisesse propor um debate sacana, falaria em “liberdade” e “castração”, usando a semântica em meu favor (sim, sou partidário da liberalidade). Mas não seria honesto. Parece-me adequado dividir dessa forma: de um lado, estão as feministas que apostam na liberalidade como forma de desafio à opressão e de outro, aquelas defensoras da resistência.”

Continua aqui.

Um poema às quartas

Pound-Ezra_Erker-Verlag_St-Gallen

In a station of the metro

The apparition of these faces in the crowd;
petals on a wet, black bough.

 Numa estação do metrô

A aparição desses rostos na multidão:
pétalas num galho molhado, preto.
(tradução de Antonio Cícero) 

Gemma Bovery

Em 1991 “Sandman“, uma história em quadrinhos escrita por Neil Gaiman, ganhou o prêmio “World Fantasy Award” como melhor conto. Em 1992 a graphic novel “Maus“, escrita por Art Spielgelman, venceu o Pulitzer. A revista Time escolheu “Watchmen“, graphic novel em série escrita por Alan Moore (mesmo autor de “V de Vingança“) como um dos cem melhores romances do século XX. Em 2006 “American Born Chinese” foi indicado ao prêmio “National Book Award” de melhor romance. A questão se as histórias em quadrinhos são arte ou literatura levou Tony Long, editor da revista Wired, a escrever o artigo “The Era of Mediocrity” (A era da mediocridade), onde o autor dizia que embora algumas graphic novels fossem boas, jamais deveriam ser consideradas romances ou contos de verdade. As respostas foram inúmeras, criticando-o inclusive por ser um “obcecado pela forma (do romance tradicional)”. E de acordo com Mark Sigel, editor da empresa que lançou “American Born Chinese”, passara da hora de esquecer-se dos aspectos “formais” das graphic novels para concentrar-se nos aspectos “de conteúdo”, como narrativa, personagens, enredo, ponto de vista, etc.

Desta forma eu iniciei um “paper” que escrevi a vários anos para obter os créditos na disciplina de Estudos Culturais, onde eu comparei Madame Bovary, romance fundamental de Gustave Flaubert e Gemma Bovery, graphic novel inspirada no romance de Flaubert, escrito por Posy Simmonds.

001

Claro que meu objetivo não será fazer uma crítica literária, muito menos de literatura comparada num blog metido a pedante. Mas sim comentar e recomendar essa obra aos que se dispuserem a fugir da mediocridade em matéria de histórias em quadrinhos.

Primeiramente chama a atenção a forma da história. A Posy Simmonds mescla de maneira muito interessante a prosa com os quadrinhos, compondo uma forma “híbrida” de difícil classificação.

032

E se a obra original de Flaubert destilava sua acidez contra a burguesia provinciana francesa, contra o clero, contra o casamento, narrando com realismo até então inaudito tabus como o adultério, Posy Simmonds de maneira semelhante transpõe essa acidez contra os yuppies e a juventude urbana de classe média londrinos.

009

Ainda não tive a oportunidade de ler “Tamara Drewe“, obra subsequente da autora onde ela dialoga com outro clássico do romance do século XIX: “Far from the Madding Crowd“, de Thomas Hardy, que como Gemma Bovery foi inicialmente publicado como folhetim, encartado na edição impressa do jornal inglês “The Guardian“. Outra referência aos romances do século XIX ao reproduzir a forma como muitas obras chegaram aos públicos: em fascículos.

P.S. No mesmo dia da publicação do meu post, mas um pouquinho mais tarde (o meu entrou às 8:00 hs e este entrou às 18:11 hs) o Paulo Ramos, do Blog dos Quadrinhos publicou um post sobre outras obras que misturam prosa e quadrinhos (aqui).

Revoada e descompasso

Em meu post anterior sobre futebol, chamado “Futebol globalizado? Aqui não“, eu comentei, com a ajuda de outros blogs, sobre o dano que o calendário brasileiro mal feito e descompassado traz aos próprios clubes pelo fato de impedi-los de disputarem os amistosos e torneios de pré-temporada que acontecem na Europa, América do Norte, Ásia, África e Austrália. Esse dano é financeiro e mercadológico.

5_41-REVOADA+NO+PANTANAL

Agora vamos falar do dano esportivo que esse descompasso traz ao nosso campeonato. O já citado nesse blog Emerson Gonçalves faz uma interessante análise da tabela do campeonato brasileiro (aqui) e conclui que existem quatro períodos distintos no campeonato brasileiro: “1º turno: 9 de maio a 8 de julho  – Fase “das Copas-”; “2º turno: 1º de julho a 31 de agosto – Fase “Janela de Verão”; “3º turno: 11 de julho a 23 de agosto – Fase “Jogos Sem Descanso”; “4º turno: 29 de agosto a 6 de dezembro – Fase “Reta Final”.

Pois bem. O calendário trôpego prejudica no início do campeonato justamente os times mais qualificados, pois junta reta final de Copa Libertadores e Copa do Brasil com o início do Brasileirão. Depois, com a janela de verão européia, há a saída de jogadores de inúmeros times, ao mesmo tempo em que ocorre a intensificação das partidas, com rodadas duas vezes por semana

Ou seja: bem no momento quando os times terão seus elencos mais exigidos, com maior incidência de contusões, suspensões e maior cansaço, os clubes tem seus elencos reduzidos com as vendas para o exterior. Claro que alguns clubes aproveitam essa janela para poderem reforçar seus elencos. Mas em geral a “balança comercial da bola” é superavitária para o mercado brasileiro. Resumidamente, exportamos mais que importamos.

Os grandes times já começam a se movimentar: O Atlético MG repatriou Rentería. o Flamengo o David (zagueiro ex-Palmeiras), o Cruzeiro o Gilberto (Tottenham) e o Corinthians o Edu. Mas as saídas de André Santos e Cristian tiram bastante força do Corinthians (que ainda pode perder o Douglas e o Felipe – quatro titulares em um mês) e o Inter perde grande parte de seu já combalido ataque com a saída do Nilmar. O Cruzeiro contratou o Guerrón, mas perdeu Ramires. Enquanto isso o Flamengo perde para o futebol russo seu principal articulador, Ibson.

deivid_camisa2009

Após o período de janela de transferências, os times voltam a ter um calendário menos apertado, quando o campeonato entra em seu terço final, coincidindo também com o início da Copa Sulamericana. E muitos times que disputam a Copa estão lutando ou contra o rebaixamento, ou por uma classificação na Libertadores, consequentemente entrando na competição internacional com times reservas e sem prioridade.

E mais uma vez times brasileiros perdem a chance de se internacionalizarem, de lutar por um título, de aumentarem seu faturamento graças a um calendário esdrúxulo e mal-formatado.

Porém não há a menor previsão de que a Copa do Brasil, Copa Libertadores e Copa Sulamericana venham a ser disputadas simultaneamente em um prazo mais estendido. Para os clubes brasileiros seria altamente positivo, pois os clubes que disputam  a Libertadores poderiam disputar a Copa do Brasil também e os clubes que disputam a Sulamericana poderiam dar maior prioridade a ela. Mas a AFA e a Fox Sport se oporiam, pois o atual calendário permite que Boca Junior e River Plate possam disputar dois campeonatos internacionais por ano (aliás, justamente a interferência da Fox Sport e do Banco Santander fizeram que os times mexicanos “voltassem atrás” em sua decisão de abandonarem os torneios da Conmebol). E o futebol brasileiro vai se mediocrizando, perdendo jogadores por preços irrisórios (leia aqui um outro artigo do Emerson Gonçalves falando sobre o valor dos jogadores brasileiros no mercado europeu).

A movimentação do mercado aparentemente beneficia Palmeiras e Atlético MG, enquanto enfraquece Flamengo, Corinthians e Inter. O Palmeiras receberá o lateral Figueroa e promete trazer mais um atacante, isso sem perder Pierre e Diego Souza, sua espinha dorsal. O Atlético reforça seu ataque o que poderá dar-lhe um pouco mais de força, pois seu elenco é acanhado. O Inter já começa a ter seu desempenho prejudicado e o Corinthians, embora já tenha garantido seus títulos  e a vaga na Libertadores, deve ter menos profundidade no elenco para chegar junto no campeonato (embora eu não seja louco de desconsiderar Ronaldo).

Como exigir dos técnicos um planejamento de partidas, de elenco, que possa fazer com que seu time dispute com chances reais todos os torneios e campeonatos utilizando ao máximo seu elenco? Apenas para exemplificar: na temporada 2008/2009 o Manchester United disputou 64 partidas, conquistando 3 títulos (Mundial, Inglês e a Carling Cup) e perdendo dois (a final da UCL e a FA Cup na semi-final). O Cruzeiro disputará em 2009 69 partidas, mas teria disputado apenas três torneios: mineiro, Libertadores e brasileiro. Se o São Paulo ou Palmeiras tivessem chegado à final da Libertadores, disputariam 75 partidas no ano pelos mesmos três campeonatos. Isso mostra como os clubes brasileiros disputam mais partidas e menos torneios, ainda sem a oportunidade de terem uma pré-temporada rentável financeiramente e positiva esportivamente.

Enfim. Mais um post para falar de bastidores de futebol, não de bola rolando. Mas os jogos do brasileirão não me animaram nesta semana e na Europa os amistosos não significam grande coisa para prever a temporada.

P.S. O jornalista Erich Beting, do blog Negócios do Esporte e do site e revista Máquina do Esporte escreveu um post que fala sobre os prejuízos financeiros causados pelo descompasso entre os calendários brasileiro e europeu. O texto se chama “O calendário invertido e a receita perdida no futebol” e pode ser lido aqui.

P.P.S. No blog do Juca Kfouri tomei ciência da existência do seguinte livro: Futebol Brasileiro: Um Projeto de Calendário. O livro “tem como objetivo mostrar que o calendário do futebol brasileiro – principal problema de nosso futebol – continua sendo extremamente irracional, apesar das melhorias pontuias que aconteceram nos últimos anos. O autor acredita que a melhoria do calendário de nosso futebol é condição imprescindível para a melhoria da gestão dos clubes e, por decorrência, da gestão do próprio futebol brasileiro e, neste sentido, propõe uma metodologia de organização do calendário considerada eficaz.” Ver mais aqui.

Thank God it’s Friday – Schneider Aventinus

brauerei_spezialitaeten_aventinus_produkt_01

Gosta de uma boa cerveja? Tem certeza disso? Então você simplesmente não pode deixar de experimentar a Schneider Aventinus.

A G. Schneider & Sohn é uma pequena cervejaria alemã que produz grandes e excelentes cervejas. No Brasil as pessoas que não se aventuram muito pelo mundo das cervejas especiais, mas gostam de alguma coisinha diferente, geralmente enveredam pelo mundo das weizenbiers (ou weissbiers): cervejas de trigo alemãs. A primeira a fazer sucesso no Brasil foi a Erdinger. Depois veio uma enxurrada de variações sobre o mesmo tema: Paulaner, Tucher, Franziskaner, Licher, Justus, Oettinger, Weihenstephaner além de suas irmãs nacionais. E é tão grande a oferta de weiss importadas (e nacionais), que o caderno Paladar (do Estadão) fez um teste cego comandado pelo jornalista Bob Fonseca com as marcas encontradas no Brasil. Advinhou quem venceu o teste? Isso mesmo, a Schneider.

Mas não estou falando da Schneider Weiss aqui, mas sim da Schneider Aventinus, que é uma weizenbock. Do alemão, uma “bock de trigo”. A cerveja bock mais conhecida dos botequeiros brasileiros é a Kaiser bock, uma sazonal da Kaiser (muito boa por sinal), mas diferentemente das bocks, a weizenbock é feita com malte de trigo, não de cevada. E a Aventinus não é uma simples bock de trigo. É uma doppelbock (double bock), com dupla carga de malte.

Isso lhe confere um sabor bastante pronunciado de malte tostado, com uma bela cor âmbar, espuma densa e aroma pronunciado de frutas vermelhas (ameixa) e condimentos. Deliciosa. E como as weiss não filtradas, ela é bastante turva e conta com sedimentos de fermentos. Porém, não se empolguem com ela, pois apesar de muito saborosa, conta com 8,2º de álcool, quase o dobro de uma cerveja pilsen comercial (que contam com aproximadamente 4,5º), cuja forte presença também se faz perceptível com um certo calor na boca.

Eis a dica. No inverno, cai muito bem com os pratos mais calóricos da estação.

Um poema às quartas

johndonne

 

Holy Sonnet – X

Death, be not proud, though some have called thee
Mighty and dreadful, for thou art not so ;
For those, whom thou think’st thou dost overthrow,
Die not, poor Death, nor yet canst thou kill me.
From rest and sleep, which but thy picture[s] be,
Much pleasure, then from thee much more must flow,
And soonest our best men with thee do go,
Rest of their bones, and soul’s delivery.
Thou’rt slave to Fate, chance, kings, and desperate men,
And dost with poison, war, and sickness dwell,
And poppy, or charms can make us sleep as well,
And better than thy stroke ;  why swell’st thou then ?
   One short sleep past, we wake eternally,
   And Death shall be no more ;  Death, thou shalt die.

 

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
poderosa e terrível, porque tal não és,
já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.

Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
muito maior prazer se tira em teu revés,
pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
ossos te deita e não seu esprito libertado.

Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
melhor’s do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?

Despertamos no Eterno um breve adormecer,
e a morte não será, que Morte hás-de morrer.

(Tradução de Jorge de Sena)