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Termina lá, começa aqui

A temporada está terminando na Europa. A Inglaterra já conhece seu campeão, o Chelsea, em uma temporada surpreendentemente emocionante. Emocionante não pelo fato de ter sido decidida na última rodada entre Chelsea e Manchester United, afinal esses dois times ganharam os últimos seis campeonatos. Mas pelo fato de ter sido finalmente quebrado o chatíssimo clube do Big Four. Tottenham e Manchester City disputaram até a penúltima rodada a vaga na próxima UEFA Champions League, e até o Aston Villa aspirou tal feito. A entrada do Tottenham no Top 4 é auspiciosa por dois motivos: primeiro, porque o time ganhará cacife financeiro para continuar evoluíndo e até quem sabe galgar mais um degrauzinho na tábua de classificação. Segundo porque inevitavelmente o City fará parte desse clubinho em uma ou duas temporadas, já que os árabes não pouparão petrodólares para turbinar seu brinquedo. Portanto, isso garante pelo menos seis clubes brigando, não apenas quatro.

Na Alemanha também terminou. O Bayern Munique levou na última rodada e o Shalke 04 terminou como vice (grande novidade). A UCL verá além dos dois rivais o Werder Bremen, que bateu um Bayer Leverkusen que foi do céu ao inferno em dois meses, passando de líder para quarto colocado em uma sequência incrível de maus resultados.

Itália e Espanha conhecem seus campeões neste fim de semana, com Inter e Barcelona favoritos, enquanto Roma e Real Madrid correm por fora. França também já tem o Olympique Marseille como novo campeão (algo que não ocorria a 18 anos). A primeira edição da Europa League conheceu seu primeiro campeão, o Atletico de Madri que batera o Fulham. Agora algumas copas nacionais serão definidas, além da grande final da UCL no Santiago Bernabeu.

Pois bem. Enquanto a temporada da Europa termina em clímax, com finais, campeões, coroações e todos os torcedores de futebol se preparando para a Copa do Mundo que iniciará em apenas 27 dias, no Brasil começou o Brasileirão.

Brasileirão que começa auspicioso. As duas partidas que assisti, Flamengo 1 x 1 São Paulo e Botafogo 3 x 3 Santos foram excelentes. Além disso outros times mostraram boa capacidade de fazerem boas campanhas, como o Atlético Mineiro e o Corinthians. Palmeiras venceu, mas mostrou muitas falhas e certamente lutará pelas posições intermediárias. Ou como disse o comentarista Paulo Vinícius Coelho, o time espera apenas o ano terminar. Isso no início da temporada.

Mais anticlimático, impossível. Enquanto lá a temporada termina no auge apenas aguardando a cereja no bolo futebolístico, lá na África do Sul, aqui o nosso estúpido calendário conseguiu a proeza de quebrar a Copa Libertadores e a Copa do Brasil, que terão a semifinal antes da Copa do Mundo e a final depois. Separadas por incríveis quarenta dias. O pior não é isso. O pior é ver o campeonato brasileiro interrompido após sete rodadas. Depois, quarenta dias para desmontar os elencos, saír às compras atrás dos refugos da Europa, trocar de técnico, treinar (coisa que nossa imbecil pré-temporada de doze dias não permite) e começar tudo do zero.

O compasso de espera é tamanho que os dois últimos campeões brasileiros entraram em campo com times mistos, um dos maiores clássicos do Brasil formado por duas fortes equipes que disputam a Libertadores também teve uma profusão de reservas (Inter x Cruzeiro) e até times que teoricamente jogam para não cair, ou no máximo para ficar em situação intermediária, como o Atlético GO ou o Vitória pouparam jogadores. O Grêmio enfrentou o Atlético GO também com time misto e empatou em zero a zero.

Após um primeiro semestre extremamente congestionado de datas, com estaduais hiperinchados, Copa Libertadores, Copa do Brasil e sete rodadas do brasileirão, haverá uma maratona de jogos após a copa, com dez rodadas em 32 dias, e aí começa a Sul Americana, para prejudicar a temporada de alguns times, que abandonarão a disputa do continental ora porque lutam por vaga no G4, ora porque não querem cair para a segunda divisão.

Calendário racional com uma confederação formada por bandidos e desonestos, com uma televisão que consegue dobrar até a prefeitura e a câmara de vereadores de São Paulo para impor o horário das partidas para que elas não prejudiquem suas novelas, com clubes covardes e subservientes e cartolas vendidos e corruptos, infelizmente nunca veremos.

Se antes eu julgava não necessário a adequação do calendário brasileiro ao europeu, hoje eu penso diferente. Acho necessário essa harmonização por vários motivos. Primeiro, porque permiria que os clubes brasileiros participassem do rico mercado de torneios e amistosos de pré-temporada na Europa, Ásia, América do Norte e África. Este expediente permite que Manchester United, Chelsea, Barcelona e Milan ampliem cada vez mais sua base de torcedores/consumidores e eles faturam cada vez mais alto com venda de produtos. Segundo porque permitiria a harmonização do calendário de clubes com o de seleções. Nós não mais teríamos nossos campeonatos prejudicados por Copa América, Copa das Confederações, Copa do Mundo. Também os melhores clubes não seriam mais penalizados por terem seus jogadores convocados pela seleção, coisa que acontecerá agora, com Flamengo perdendo o Kleberson e o Fierro, o Santos perdendo o Robinho e outros.

Infelizmente, nós torcedores de futebol somos obrigados a termos um produto meia-boca graças à incompetência gerencial, pois potencial há para ser um dos três ou quatro melhores e mais rentáveis futebol do mundo, junto de Inglaterra, Itália, Alemanha e Espanha. Mas os medíocres matam a galinha dos ovos de ouro (sempre) por pura ganância.

P.S. Aqui há uma série de textos escritos sobre o tema do calendário brasileiro de futebol.

P.P.S. Aqui há uma proposta fictícia de calendário, criada por mim em uma tarde. Isso mostra que se gente séria fizesse isso, haveria grande possibilidade de termos um calendário decente. Mas não há gente séria administrando o futebol brasileiro.

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Os clubes mais ricos do mundo

Saiu a última edição do Deloitte Football Money League.

O relatório que aponta quais são os clubes mais ricos da Europa mostrou algumas modificações no ranking em relação ao ano anterior. Barcelona utrapassa o Manchester United e os dois espanhóis fazem a dobradinha na ponta. Na equipe inglesa o Arsenal ultrapassa o Chelsea, ocupando a quinta posição. E o clube fica mais restrito, só com participantes ingleses, espanhóis, italianos, alemães e franceses, já que o Fenerbaçe, único time de fora desse Top 5, não está mais na relação.

(gráfico retirado do site Olhar Crônico Esportivo – especializado em gestão e finanças do futebol)

Breves comentários:

  • O Manchester United teve aumento do faturamento, mas perdeu sua posição graças à desvalorização da Libra Esterlina frente ao Euro.
  • Há sete clubes ingleses no ranking, contra cinco alemães, quatro italianos, dois franceses e dois espanhóis.

Para efeito de comparação, aqui está o ranking do faturamento dos clubes brasileiros no ano de 2008 (os resultados de 2009 ainda não saíram).

Despírito Desportivo

Desde a decadência do Calcio como principal campeonato de futebol do mundo, Inglaterra e Espanha brigam cabeça a cabeça pelo posto de principal centro futebolístico atual. Depois de grande predominância inglesa, a Espanha contra-ataca e reúne os principais atletas do mundo em suas equipes.

E enquanto acompanhava os jogos do fim de semana, me surpreendi com dois resultados especificamente: Liverpool 6 x 1 Hull City e Tottenham Hotspur 5 x 0 Burnley. Espantei-me, mas não deveria, pois o campeonato já tivera  outros resultados elásticos como Arsenal 4 x 0 Wigan, Liverpool 4 x 0 Burnley, Sunderland 4 x 1 Hull City, Arsenal 4 x 1 Portsmouth, Wigan 0 x 5 Manchester United, Liverpool 4 x 0 Stoke, Hull 1 x 5 Tottenham, Everton 1 x 6 Arsenal e ainda veria o Sunderland enfiar 5 x 2 no Wolverhampton.

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Enquanto isso na Espanha, Barcelona e Real Madrid dividem a ponta com 100% de aproveitamento e profusas goleadas. Ah, no começo do texto disse que neste ano a Espanha levara os melhores atletas para seus clubes. Corrigindo, levara para o Real Madrid (Benzema, Ronaldo, Kaká, Xabi Alonso, Arbeloa) e para o Barcelona (Ibrahimovich, Maxwell – além da manutenção da base que ganhara a tríplice coroa). O Ubiratan Leal, nesta semana, escreveu uma interessantíssima coluna falando sobre a concentração de renda e o desequilíbrio financeiro no futebol espanhol nesta temporada.

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Eis o fato. Não se produzem goleadas com tanta facilidade no Brasil como na Inglaterra e na Espanha. E não dá apenas para dizer que isso é o resultado de um nivelamento por baixo do campeonato nacional por causa do êxodo de atletas. Não é apenas isso.

No ranking de faturamento dos clubes brasileiros, o quinto clube com maior faturamento em 2008, o Corinthians, teve uma receita de R$ 117,5 mi, enquanto o clube com maior faturamento, o São Paulo, arrecadou R$ 160,5 mi, 36,6% a mais. Enquanto isso na Inglaterra, o quinto maior faturamento fora do Tottenham Hotspur, de 145 mi de Euros, contra 325 mi de Euros do primeiro, o Manchester United. Uma diferença de 124%. Na Espanha a diferença é ainda mais gritante.

A FIFA e a UEFA tentam brecar a influência cada vez maior do dinheiro nos resultados esportivos, ora tentando brecar transferências de menores aliciados pelos clubes maiores, ora tentando impor de alguma forma uma espécie de fair play financeiro. Até agora não tem sido possível, pois o sucesso comercial do próprio futebol acaba por alimentar o desnível, com cotas de patrocínio e premiações cada vez maiores pagas aos participantes da UEFA Champions League em relação aos demais clubes, criando um abismo entre eles, uma casta de “superclubes”, intocáveis, inatingíveis.

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Enquanto no passado era possível um clube pequeno ser campeão com a revelação de uma geração de atletas brilhantes (vide os títulos europeus de Celtic, Aston Villa, Nottingham Forest, Steua Bucareste e Estrela Vermelha), tal fato se torna cada vez mais difícil nos dias de hoje por causa do abismo financeiro. Para os torcedores e atuais dirigentes destes superclubes, tudo ótimo, pois o que importa são os resultados e a rivalidade. Mais ainda, tal fato pode solapar a atratividade do futebol como um todo, pois quem se interessará por um campeonato onde as quatro (ou duas, dependendo do país) primeiras posições já são conhecidas de antemão, inclusive por quais clubes e em qual ordem?

Download do Deloitte Football Club Money League aqui.

Futebol Finance – Receita dos clubes brasileiros.

Futebol Finance – Deloitte Football Money League.

P.S. O título é quase uma homenagem à banda Super-Simetria, já contemplada neste blog aqui.

Crise, que crise?

Eis que o primeiro mês da janela de transferências de verão se vai e tirando as extravagâncias madridistas o mercado se porta com a mais suspeita das calmarias.

Na Inglaterra quem movimenta as peças é o Manchester City e sua injeção de capital via Dubai. Contrataram Roque Santa Cruz, Gareth Barry, mas aquela ambição de formar uma seleção mundial com Fabregas, Buffon, Cristiano Ronaldo e outros está longe de se concretizar. Ainda devem chegar boas e caras peças, como Tevez, talvez Eto’o. Porém nada que indique que o City brigará pelas primeiras posições na liga.

O detalhe é que até os que devem brigar pelas primeiras posições primam pela discrição. O Manchester United perdeu Ronaldo e Tevez. E não dá pistas de que deva torrar todas as libras esterlinas faturadas com a venda do paneleiro da Madeira em reforços. O tão sonhado Benzema também se bandeou para os lados do Santiago Bernabeu. E a realidade é Antonio Valencia. Um bom meia-externo. Mas nada que faça a torcida suspirar. O Liverpool, que terminou a temporada em alta, engata uma marcha-ré terrível, com a ameaça de perder Xabi Alonso, Javier Mascherano, Alvaro Arbeloa e sem a perspectiva da chegada de peças de reposição à altura. Glen Johnson? Sim. Bom lateral direito. Mas nada que os torne mais candidatos ao título. E o Chelsea, que deve ter a generosa carteira de Abramovich aberta novamente, trouxe apenas o treinador Carlo Ancelotti, ainda uma grande incógnita. Mas seu time envelhecido e desmotivado ainda não viu um único reforço digno de nome.

Parece que a desvalorização da Libra Esterlina frente ao Euro, aliada à generosidade fiscal castelhana,  faz com que a chuvosa ilha deixe de ser um destino desejado pelos futebolistas do mundo.

A Itália vê a decadência, iniciada com a falta de modernização do futebol no final dos anos 90, aprofundada com o Calcciocaos em 2005/2006, dar as caras de vez por lá. Figo, Nedved e Kaká não jogarão mais na próxima temporada. Ibrahimovich, Pato, Pirlo e Maicon demonstram querer buscar novos ares caso seus clubes não garantam a valorização que julgam merecer. E com a exceção de Diego, não há a chegada de nenhum nome de peso à península.

Somente a Espanha agita esse mercado de transferências. Mas o abismo que separa o Real e o Barça dos outros deve se aprofundar ainda mais. O Valencia está fora do mercado. O Sevilla demonstra não ter cacife financeiro para buscar reforços que o capacitem como candidatos ao título. Mesmo o Barça demonstra não mais ter a pujança financeira necessária para buscar reforços caríssimos, querendo inclusive se desfazer de Eto’o. Apenas o Real turbina o mercado com contratações hiperinflacionadas custeadas por transações financeiras pra lá de suspeitas.

E no Brasil o tradicional êxodo de jogadores no verão europeu não começou. E nada indica que ele repetirá a revoada de anos anteriores.

Crise? Impressão sua. Vamos ver como funcionará a xepa do fim da janela, lá pro fim de agosto.