Arquivo do mês: novembro 2009

Emo

Copiada daqui.

Mais sutil mas tão ácida quanto o Mommy’s boy do Alan Sieber, mas, aí eu pergunto, qual a graça de sacanear com um bando de pré-adolescentes?

 

O discreto charme da burguesia

Ah… nossa burguesia. Cazuza dizia que ela fede, mas o filósofo Falcão diz que ela ao menos tem dinheiro para comprar perfume.

Deixando a piada (velha e fraca) de lado, é verdade que vivemos num país onde a direita se envergonha de ser chamada de direita, e também é verdade que há no Brasil uma sensibilidade de esquerda que impede que embarquemos em viagens direitistas explícitas como certas manifestações xenófobas que vez ou outra despontam na Europa (Lega Nord, Frente Nacional ou BNP) ou mesmo em proposições anti-científicas da direita cristã norte-americana.

Porém não deixa de ser  preocupante que a direita conservadora brasileira perca cada vez mais a vergonha de se apresentar como tal, ainda que sem chegar a essa explicitação consciente de seu conservadorismo diletante. E o que é mais alarmante. Não tem vergonha em militar ativamente em favor de uma ideologia (no sentido de falsa consiciência – não no sentido de ideário político) hedonista e consumista, mesmo em tempos de combate explícito à pobreza, consumo consciente e mudanças climáticas causadas pelo homem.

As frentes de batalha já foram escolhidas: a defesa da manutenção dos privilégios educacionais (o ensino superior público e gratuito para os bem-afortunados e a não aprovação das ações afirmativas para afro-descendentes), a desqualificação sistemática do Lula (não uma crítica ao governo ou à política do Partido dos Trabalhadores, mas um ataque fortemente preconceituoso em relação a sua origem nordestina, pobre e a sua falta de escolaridade, inclusive com o ostensivo uso de sua deficiência física como iconografia anti-lulista) e a desqualificação das lutas das minorias sob a justificativa de que o “politicamente correto” e sua neutralidade linguística configuram-se como hipocrisia falaciosa.

Se por um lado alguns membros da classe média lançam ataques auto-críticos (ainda que inconscientes, segundo Alex Castro do LLL) através de veículos como Revista Piauí, blog Classe Média Way of Life, Revista Caros Amigos e outras, a reação deixa de ser tímida como era outrora e passa a ser furibunda e aberta, como o blog Socialismo e Classe Média ou o post “A classe média é o novo preto” do blog da Lady Rasta. Claro, claro… enquanto os negros foram sequestrados, escravizados, espancados e abandonados sem nenhuma garantia de emprego ou de compensação (e o pouco que poucos conseguiram, como as comunidades quilombolas, estão tendo seus direitos questionados e atacados por poderosos veículos como a Rede Globo, o Estado de São Paulo e outros veículos da elite direitista brasileira) os europeus (italianos, alemães, espanhóis, portugueses, poloneses e outros que formam a maioria do superestrato branco que compõe a classe média e alta da sociedade brasileira) vieram para o Brasil através de programas de imigração patrocinados pelo governo imperial brasileiro com garantias de terras, emprego nas fazendas, posse de terrenos como meeiros e outros benefícios negados aos negros, que já estavam em território brasileiro. Ao invés de incentivo e benefício, os negros foram empurrados para os subúrbios das cidades brasileiras enchendo as primeiras favelas.

Diante de tamanha disposição para continuar lutando por seus privilégios uma notícia como esta não pode jamais vir a ser lida com espanto:

Mulheres protestam em Porto Alegre contra proibição do bronzeamento artificial no País

23/11 – 15:57 – Lecticia Maggi, iG São Paulo

PORTO ALEGRE – Dezenas de mulheres se reuniram, nesta segunda-feira, no centro de Porto Alegre, para protestar contra a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proíbe a venda e uso de equipamentos para bronzeamento artificial no País.

Com sugestivos cartazes em que dizem amar o bronzeamento artificial ou então questionam quantas pessoas morrem por ano pelo bronzeamento, as mulheres pediram a liberação do procedimento.
AE

“Sou dona do meu corpo”, estava escrito em diversos cartazes das manifestantes

A decisão da Anvisa foi anunciada no dia 11 de novembro, três meses depois de a Agência Internacional de Pesquisas em Câncer (Iarc, na sigla em inglês) alertar que os raios ultravioleta das câmaras poderiam causar câncer.

Continua aqui.

É a verdadeira daslulização da sociedade brasileira. O triunfo gersoniano. A mariantonietização da luta política da classe média.

Ainda há os que defendem a caducidade de termos como esquerda, direita, conservador, liberal, ou, pior, aqueles que defendem que o Brasil é um país que acolhe a diversidade e permite a livre-iniciativa e a auto-gestão dos homens. Neste ponto precisamos aprender muito com nossos professores norte-americanos, inclusive no que diz respeito a desnudar nossa hipocrisia e assumirmos nossa defesa intransigente dos privilégios a poucos e bons.

Thank God it’s Friday – Amsterdan Navigator e Oettinger Super Forte

Para muitas pessoas o ato de beber cerveja (ou qualquer outra bebida alcólica) tem uma única finalidade: deixá-lo chapado. Quando o único critério de avaliação de qualidade de uma bebida é a sua capacidade em deixá-lo bêbado, não há muita condição de diálogo para dizer que “cerveja A é melhor que cerveja B”. Afinal, cerveja boa é a que te deixa xarope. Com esta linha de raciocínio, vale mais a pena comprar uma Nova Schin de R$ 0,90 que uma Skol de R$ 1,10. Quanto mais falar em cervejas de R$ 2,00, R$ 3,00 ou mais a garrafa!

Seus problemas acabaram! Se  a  finalidade da cerveja é embebedá-lo, eis a solução: Oettinger Super Forte, com 8,9º e Amsterdan Navigator, com 8,4º de álcool (contra 4,5º de uma pilsen industrial). Elas são lagers, mas sua classificação mais apropriada seria Malt Liquor (aguardente de malte).

O sabor não é lá essas coisas. Adocicada, pois há adição de açúcar na fórmula (para ser fermentada pelas leveduras e gerar mais álcool), sabor de álcool bastante forte e sem integrar com o restante do conjunto. Parece cerveja batizada. Então, qual  a vantagem? Ora, ficar bêbado com quantidade bem menor! Uma maravilha, não?

Não necessariamente. Afinal, por serem importadas essas cervejas são bem carinhas, então o  nosso amigo bebum preferirá gastar seu dinheiro com as baratinhas Nova Schin…

Um poema às quartas

O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925

P.S.  Na verdade quem merece um post é o cartum do Laerte. Fantástico. Mas aproveito a oportunidade para lembrar de um clássico do Bandeira.

XI Festa do Livro da USP

Quem puder não perder, não perca. No prédio da História/Geografia.

Literatura ruim é melhor que literatura nenhuma?

Cada vez que surge um novo fenômeno de vendas no campo literário surge a velha discussão: vale a pena? Uns argumentam que sim. Dizem que a literatura infanto-juvenil ruim serve como uma “introdução” a jovens que nunca leriam nada com mais de quinze páginas e cujas páginas não contivessem mais de 3/4 de seu espaço tomado por figuras. Outros discordam. Dizem que quem lê Harry Potter não lê outra coisa. Não passa a ser consumidor de literatura. Passa a ser consumidor do próximo fenômeno de marketing, seja ele literário ou não.

A minha opinião é… eu não tenho opinião alguma formada sobre isso. Ainda. O próprio fato de ter usado termos como “consumidor” e não “leitor” já dá mostras da complexidade do problema. E aí até a velha distinção entre “alta literatura” e “subliteratura” fica superada, pois atualmente a cultura passou a ser vista como entretenimento e como um setor da economia. É o velho slogan do “leia o livro, assista o filme, ouça o disco”, rótulo que pode ser aplicado tanto ao “sério” e “culto” Ian McEwan para o “superficial” e “infantil” Harry Potter.

Tudo isso pra dizer que neste fim de semana assisti a “Crepúsculo“, filme baseado no romance de Stephanie Meyer.  Assisti não seria bem o termo. Eu acompanhei o filme, enquanto comia pizza e conversava com minha esposa e cunhado, a partir do terço inicial para o seu final. O que dizer de um filme/livro que conta a história de um triângulo amoroso entre uma mocinha, um vampiro e um lobisomem? E que o vampiro bonzinho faz parte de uma família de vampiros bonzinhos e “vegetarianos” (eles só sugam o sangue de animais, não de gente)? E que o romance dos dois é puro e virginal como um romance entre uma mocinha branca do sul dos Estados Unidos com um carinha que usa o anel de castidade dos Jonas Brothers (afinal de contas, Stephanie Meyer é mórmom praticante e sua saga serve também para embrulhar bem bonitinho o conceito de moralidade proto-cristã da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)? Não há muito o que falar sobre o filme, mais do que haveria para falar de Bob Esponja, Padrinhos Mágicos ou Hannah Montana.

Que a sociedade americana, e por conseguinte a sociedade ocidental, está em franco e rápido processo de infantilização, cuja proliferação de “desenhos adultos” (não estou falando de paródias pornôs, mas de Simpsons, Family Guy e similares), transformação de baile de debutantes em bailinhos Disney (quando outrora eram o rito de passagem para a vida adulta – casamento, sexo e saída da casa dos pais inclusos) e a proliferação de especialistas para todas as áreas da vida privada, nós já sabemos. Que isto significa que, especilmente na indústria do entretenimento americana, a complexidade dos temas e a qualidade dos produtos ficma seriamente comprometidas em favor de uma “palatabilidade” mais geral possível, também.

Porém se o terreno da “coerência ideológica” está perdido, visto que a recente adaptação cinematográfica de Atonement (no Brasil recebeu o quase idiótico título de “Desejo e Reparação” – o que mostra a necessidade quase patológica de que tudo seja explicadinho e digerido nos mínimos detalhes para o deleite da massa) equipara em termos de “mercadoria” tanto a alta cultura quanto a subliteratura, ao menos no quesito “qualidade” há ainda alguma reserva. Resta saber por quanto tempo.

P.S. Sobre a questão da infantilização da sociedade, há este interessante artigo. Sobre o uso da ficção e da mitologica como meio de transmissão de valores morais, já escrevi aqui.

P.P.S. Para não dizer que o filme não presta para absolutamente nada, dá para dizer que Kristen Stewart é uma atriz boazinha, como seu papel de adolescente louquinha pra dar em “Na Natureza Selvagem” havia mostrado. Mas o grande achado do filme é a beleza (ainda que com pouco talento) de Ashley Greene.

P.P.P.S. Com um enfoque um pouco diferente (e muito mais bem escrito), o jornalista Maurício Stycer escreveu em seu blog um artigo que foi tuitado como “um tiozinho tentando entender Crepúsculo e Lua Nova”: aqui. Tiozinho. Pois é… foi assim que me senti.

Thank God it’s Friday – Eikbier Red Ale

Embora seja um mercado ainda incipiente e com pouco tempo de existência, já é possível consumir cervejas especiais apenas com as opções produzidas no Brasil. Claro que nosso mercado não se compara em tamanho e em opções a mercados como o dos Estados Unidos, este sim pululando com novos sabores a cada minuto, ou com o da Europa, por ser o local de origem da cerveja. Mas cada vez mais e melhores opções são apresentadas aos consumidores.

Uma dessas novidades é a Eikbier Red Ale, uma amber ale potente, saborosa e aromática. Seu teor alcoólico é de 6º (contra 4,5º das pilsens industriais brasileiras) e o álcool se faz presente no sabor, porém de forma harmoniosa, sem agredir o paladar. A cor é vermelho escura e tem boa formação de espuma. E há uma boa presença de lúpulo, tanto nos aromas frutados quanto no sabor.

Mas o que é talvez a principal qualidade das cervejas artesanais brasileiras também é seu principal problema. A alta qualidade das produções, tanto nas matérias primas (diferentemente das grandes cervejarias, nelas só entram lúpulos de alta qualidade e malte, não arroz, milho, sorgo e outros cereais) quanto na baixa quantidade produzida faz com que o preço seja bastante alto, comparado com cervejas similares no mercado europeu e americano. Isso aliado a uma política tributária estilo “Robin Hood às avessas” (tira dos pobres para dar aos ricos), que beneficia grandes empresas multinacionais que produzem um produto barato e pune pequenas empresas que dão emprego e geram riquezas nas pequenas cidades do país.

Esta cervejaria, no caso, se localiza em Taboão da Serra, Grande São Paulo, e é produzida por dois irmãos. Inclusive, mediante contato, é possível visitar a cervejaria e comprar diretamente da fábrica suas garrafas de Eikbier (que também produz uma porter, uma weiss e uma golden ale). Vale a visita.