Literatura ruim é melhor que literatura nenhuma?

Cada vez que surge um novo fenômeno de vendas no campo literário surge a velha discussão: vale a pena? Uns argumentam que sim. Dizem que a literatura infanto-juvenil ruim serve como uma “introdução” a jovens que nunca leriam nada com mais de quinze páginas e cujas páginas não contivessem mais de 3/4 de seu espaço tomado por figuras. Outros discordam. Dizem que quem lê Harry Potter não lê outra coisa. Não passa a ser consumidor de literatura. Passa a ser consumidor do próximo fenômeno de marketing, seja ele literário ou não.

A minha opinião é… eu não tenho opinião alguma formada sobre isso. Ainda. O próprio fato de ter usado termos como “consumidor” e não “leitor” já dá mostras da complexidade do problema. E aí até a velha distinção entre “alta literatura” e “subliteratura” fica superada, pois atualmente a cultura passou a ser vista como entretenimento e como um setor da economia. É o velho slogan do “leia o livro, assista o filme, ouça o disco”, rótulo que pode ser aplicado tanto ao “sério” e “culto” Ian McEwan para o “superficial” e “infantil” Harry Potter.

Tudo isso pra dizer que neste fim de semana assisti a “Crepúsculo“, filme baseado no romance de Stephanie Meyer.  Assisti não seria bem o termo. Eu acompanhei o filme, enquanto comia pizza e conversava com minha esposa e cunhado, a partir do terço inicial para o seu final. O que dizer de um filme/livro que conta a história de um triângulo amoroso entre uma mocinha, um vampiro e um lobisomem? E que o vampiro bonzinho faz parte de uma família de vampiros bonzinhos e “vegetarianos” (eles só sugam o sangue de animais, não de gente)? E que o romance dos dois é puro e virginal como um romance entre uma mocinha branca do sul dos Estados Unidos com um carinha que usa o anel de castidade dos Jonas Brothers (afinal de contas, Stephanie Meyer é mórmom praticante e sua saga serve também para embrulhar bem bonitinho o conceito de moralidade proto-cristã da Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias)? Não há muito o que falar sobre o filme, mais do que haveria para falar de Bob Esponja, Padrinhos Mágicos ou Hannah Montana.

Que a sociedade americana, e por conseguinte a sociedade ocidental, está em franco e rápido processo de infantilização, cuja proliferação de “desenhos adultos” (não estou falando de paródias pornôs, mas de Simpsons, Family Guy e similares), transformação de baile de debutantes em bailinhos Disney (quando outrora eram o rito de passagem para a vida adulta – casamento, sexo e saída da casa dos pais inclusos) e a proliferação de especialistas para todas as áreas da vida privada, nós já sabemos. Que isto significa que, especilmente na indústria do entretenimento americana, a complexidade dos temas e a qualidade dos produtos ficma seriamente comprometidas em favor de uma “palatabilidade” mais geral possível, também.

Porém se o terreno da “coerência ideológica” está perdido, visto que a recente adaptação cinematográfica de Atonement (no Brasil recebeu o quase idiótico título de “Desejo e Reparação” – o que mostra a necessidade quase patológica de que tudo seja explicadinho e digerido nos mínimos detalhes para o deleite da massa) equipara em termos de “mercadoria” tanto a alta cultura quanto a subliteratura, ao menos no quesito “qualidade” há ainda alguma reserva. Resta saber por quanto tempo.

P.S. Sobre a questão da infantilização da sociedade, há este interessante artigo. Sobre o uso da ficção e da mitologica como meio de transmissão de valores morais, já escrevi aqui.

P.P.S. Para não dizer que o filme não presta para absolutamente nada, dá para dizer que Kristen Stewart é uma atriz boazinha, como seu papel de adolescente louquinha pra dar em “Na Natureza Selvagem” havia mostrado. Mas o grande achado do filme é a beleza (ainda que com pouco talento) de Ashley Greene.

P.P.P.S. Com um enfoque um pouco diferente (e muito mais bem escrito), o jornalista Maurício Stycer escreveu em seu blog um artigo que foi tuitado como “um tiozinho tentando entender Crepúsculo e Lua Nova”: aqui. Tiozinho. Pois é… foi assim que me senti.

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13 Respostas para “Literatura ruim é melhor que literatura nenhuma?

  1. Ótimo texto, Fabio.
    Esse assunto já foi tema de conversas com uma amiga que é formada em Letras e para mim, é muito melhor que esses jovens leiam esse tipo de livro do que ficarem sem ler nada, só navegando na net ou grudados na TV.
    Além disso, para alguns, essa leitura servirá de porta de entrada para a literatura mais complexa e profunda. Obviamente, isso não se dará com todos, mas será algo positivo para aqueles que estiverem dispostos a “evoluir”.
    No mais, tbém já tentei assistir ao primeiro filme da série Crepúsculo por duas vezes, mas o sono me venceu em ambas…

    Abraço e tenha um ótimo domingo.

    • Fabio Martelozzo Mendes

      É isso mesmo. Por outro lado, não há mais como ter uma postura lamentacionista ou passadista dizendo: “ah… naquele tempo é que era melhor”, pois a situação está aí para ficar.

      Abraços.

  2. Interessante que neste sábado, ao invés de fazer um bem qualquer para a humanidade, fui assistir o tal “Lua Nova”. O que não se faz pelos amigos?

    A conclusão a que chego é: Quando eu vejo crespúsculo e o Harry Potter, mas eu gosto de Tolkien.

    Uma possível resposta a sua pergunta seria – do modo mais idiota possível – uma outra:

    Evangelho ruim é melhor que Evangelho nenhum?

  3. Fabio Martelozzo Mendes

    Bem, tenho de admitir que eu ainda preciso engolir um caminhão de lixo pra começar a ver valor no Tolken. Quer dizer, claro que um cara que cria uma mitologia daquela tem seu valor. Mas para mim está no mesmo nível de “Nárnia”, “Harry Potter” e “Crepúsculo”. Sagazinha pra fedelho.

    Agora, sobre sua pergunta, nada idiota, diga-se, eu confesso viver a mesma dúvida que me aflingiu em relação à literatura. Eu não sei.

    Mas isso leva a uma outra constatação, que estou tendo a oportunidade de vivenciar na prática em aulas de Literatura Comparada na facu, que é o como o discurso literário, quer crítico quer de produção ficcional, se aproxima da teologia. E mesmo filosofias críticas como o marxismo tem um componente messiânico e escatológico que o mais empedernido e ateu dos marxistas se horrorizaria em admitir.

  4. Se um marmanjo (ou uma marmanja) se delicia com Potter ou Crepúsculo e espera ansioso pelo próximo exemplar do tipo, aí é um caso perdido.

    Um adolescente ao apreciar essas histórias estará não só acompanhando a moda literária para a sua faixa de idade, mas também se formando como leitor.

    Antes de apreciações quanto à qualidade literária é preciso transformar em prazer o ato de desvendar uma história através da palavra escrita. É preciso gostar de ler livros.

    Sou otimista quanto a isso (claro, sem minimizar o fator moda literária). Acho que pode-se começar com sub-literatura e ampliar os temas e assuntos de interesse. O aperfeiçoamento como leitor caminhará junto.

    Permitam-me observações de cunho pessoal. Minha filha, na primeira adolescência, não gosta de Harry Potter, prefere uma escritora americana chamada Meg Cabot (a da Princesa isso, Princesa aquilo). Passei os olhos – é intragável, mas fazer o quê? Mostrar, sugerir outras coisas. Parece que tá dando certo, pelo menos no quesito “ampliação dos assuntos”, pois semana passada me pediu para comprar “Falcão, os Meninos do Tráfico”.

    Outra: quando morava no interior da Bahia, eu e meus amigos devorávamos aqueles bolsilivros policiais e de espionagem (a pulp-fiction brasileira) escritos por um nipo-descendente com milhões de pseudônimos.

    Parece que deu certo comigo também. Apesar de não ter passado, ainda, da metade de “Ulysses”, tenho lido coisas bastante legais, como “As Cidades Invisíveis”, de Calvino, que eu não me canso de “ler um conto daquele livro extraordinário”.

    Quanto a filmes de vampiro, uma dica: assistam a “Deixa Ela Entrar”.

  5. Fabio Martelozzo Mendes

    Ouvi falar desse “Deixa ela Entrar”. E bem, diga-se (apesar de ser de…ugh! vampiro!).

    Quanto ao nipodescendente, se minha memória não me trai (e ela costuma fazer isso com frequência, safada!), ele é o recordista mundial em títulos publicados. Uma verdadeira máquina de escrever pulp fictions! Há de ter seu valor, Tarantino que o diga!

    Mas eis a razão de meu ceticismo, Anrafel. Casos como o de tua filha, pelo que me constam, são exceções (raríssimas), pois em geral não há formação de leitores, mas formação de consumidores (de produtos não literários). A existência da exceção deve ser a razão pela tolerância à subliteratura? Parece que sim.

    Eu, pelo menos, tenho muita cautela antes de crucificar os leitores-mirins de Meg Cabot, Stephanie Meyer, Rowling e outros.

    Agora, os leitores-marmanjos de tais produtos devem ser encarados como os fãs-marmanjos de Bob Esponja e Meninas Superpoderosas: com piedade.
    http://www.meachando.com.br/blog/2009/01/eu-amo-a-lola-bunny/

  6. A observação sobre a formação de consumidores e não de leitores é certeira. Faz parte da mercantilização, que caminha rente com a infantilização da vida.

    A formação de leitores seria tarefa principalmente (mas não apenas dela) da escola. Sabemos, porém, que o caráter intimidatório da indicação escolar desse ou daquele livro pode afastar futuros leitores ou estigmatizar alguns autores, tipo, para exemplificar sem entrar no mérito da qualidade da obra, José de Alencar.

    Me parece que essa discussão está umbilicalmente ligada à outra.

  7. Fabio Martelozzo Mendes

    “Me parece que essa discussão está umbilicalmente ligada à outra.”

    Certamente. Mas não sei como desatar o nó górdio. Aliás, seria muita pretensão de minha parte dizer que sei…

  8. Só para constar: sou marmanjo e sou leitor ‘de tais produtos’. Mas não precisam ter piedade de mim, eu é que tenho de vocês. O mundo de vocês com certeza é muito mais cinzento e sem graça que o meu.

    Só uma pergunta: vocês ao menos leram os livros pra comentar? Que comentar a história vendo o filme já é, como vocês mesmos disseram, caso perdido.

  9. Fabio Martelozzo Mendes

    Mion. Não sinto piedade de ti, afinal você não é caso de piedade. E nem sinta de mim, pois eu também tenho minha cota de consumo de entretenimento (c0mo já tratei no blog-caso de Star Wars e Marley e Eu).

    Mas na verdade não é necessário que eu tivesse lido os livros para escrever o que escrevi. Pois não tratei da história dos livros ou dos filmes. Peguei o caso como gancho para fazer um rascunho de reflexão sobre formação de leitores e/ou consumidores.

    O caminho inverso, de um leitor pegar Harry Potter, Crepúsculo ou Senhor dos Anéis é possível. Eu mesmo o faço, não com esses livros mas com quadrinhos. O que eu questionei é sobre a possibilidade do caminho inverso. Será que dá para sair de Crepúsculo, Harry Potter e Senhor dos Anéis e chegar naquilo que chamam “alta literatura”?

    Eis a minha dúvida (dúvida de verdade, não como pergunta retórica) e meu questionamento.

  10. Pingback: Infância pra quê? O importante é consumir « Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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  12. olá, Fabio Mendes e Anrafel, creio que sim, com certeza pode ser feito o caminho inverso, e nós adolescentes(digo nós pois sou um, desses adolescentes, que leem e gostam, desses contos) podemos , ler outras coisas e continuar gostando de contos como estes comentados por vocês.
    Concordo com vocês quando dizem que tais tipos de leituras são apenas iniciação, mas creio que há nos contos de Stephanie Meyer, Rowling, ou outros, muito mais do que vocês podem ver. Esses ” tipos de literatura”, assim como dizem, nos ajudam crer em um mundo melhor e na possibilidade de haver coisas novas, eles são, na minha opinião a mesma coisa que vocês gostam de ler, só que em uma linguagem melhor compreendida por minha faixa etária, pois nem todos os jovens, assim como eu ,são capazes e ler e entender literatura de mais alto escalão.
    Acho que vocês deveriam tentar ser um pouco menos rígidos com isso, e buscar compreender um pouco melhor o que os escritores destes contos modernos, querem passar

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