Um poema às quartas

O CACTO

Aquele cacto lembrava os gestos desesperados da estatuária:
Laocoonte constrangido pelas serpentes,
Ugolino e os filhos esfaimados.
Evocava também o seco Nordeste, carnaubais, caatingas…
Era enorme, mesmo para esta terra de feracidades excepcionais.

Um dia um tufão furibundo abateu-os pela raiz.
O cacto tombou atravessado na rua,
Quebrou os beirais do casario fronteiro,
Impediu o trânsito de bondes, automóveis, carroças,
Arrebentou os cabos elétricos e durante vinte e quatro horas
[privou a cidade de iluminação e energia:

– Era belo, áspero, intratável.

Petrópolis, 1925

P.S.  Na verdade quem merece um post é o cartum do Laerte. Fantástico. Mas aproveito a oportunidade para lembrar de um clássico do Bandeira.

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2 Respostas para “Um poema às quartas

  1. Maravilha. Outra maravilha de Bandeira. E Laerte sempre ótimo.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Laerte sempre ótimo. Mas ele em sua fase menos humorística e mais filosófica (com um humor mais sutil, diga-se) está muito melhor. Disparado o melhor cartunista e quadrinhista do Brasil.

    Tanto que a idéia pra esse poema me veio ao ver o quadrinho e lembrar da tragédia de Laocoonte. Só que me confundi. Pensei que essa citação estivesse num poema de Murilo Mendes. De tanto fuçar, topei com o Cacto. Agora preciso achar o Murilo Mendes que estou na cabeça. A referência mitológica nele não é Laocoonte. É sobre a casa dos Átridas.

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