O discreto charme da burguesia

Ah… nossa burguesia. Cazuza dizia que ela fede, mas o filósofo Falcão diz que ela ao menos tem dinheiro para comprar perfume.

Deixando a piada (velha e fraca) de lado, é verdade que vivemos num país onde a direita se envergonha de ser chamada de direita, e também é verdade que há no Brasil uma sensibilidade de esquerda que impede que embarquemos em viagens direitistas explícitas como certas manifestações xenófobas que vez ou outra despontam na Europa (Lega Nord, Frente Nacional ou BNP) ou mesmo em proposições anti-científicas da direita cristã norte-americana.

Porém não deixa de ser  preocupante que a direita conservadora brasileira perca cada vez mais a vergonha de se apresentar como tal, ainda que sem chegar a essa explicitação consciente de seu conservadorismo diletante. E o que é mais alarmante. Não tem vergonha em militar ativamente em favor de uma ideologia (no sentido de falsa consiciência – não no sentido de ideário político) hedonista e consumista, mesmo em tempos de combate explícito à pobreza, consumo consciente e mudanças climáticas causadas pelo homem.

As frentes de batalha já foram escolhidas: a defesa da manutenção dos privilégios educacionais (o ensino superior público e gratuito para os bem-afortunados e a não aprovação das ações afirmativas para afro-descendentes), a desqualificação sistemática do Lula (não uma crítica ao governo ou à política do Partido dos Trabalhadores, mas um ataque fortemente preconceituoso em relação a sua origem nordestina, pobre e a sua falta de escolaridade, inclusive com o ostensivo uso de sua deficiência física como iconografia anti-lulista) e a desqualificação das lutas das minorias sob a justificativa de que o “politicamente correto” e sua neutralidade linguística configuram-se como hipocrisia falaciosa.

Se por um lado alguns membros da classe média lançam ataques auto-críticos (ainda que inconscientes, segundo Alex Castro do LLL) através de veículos como Revista Piauí, blog Classe Média Way of Life, Revista Caros Amigos e outras, a reação deixa de ser tímida como era outrora e passa a ser furibunda e aberta, como o blog Socialismo e Classe Média ou o post “A classe média é o novo preto” do blog da Lady Rasta. Claro, claro… enquanto os negros foram sequestrados, escravizados, espancados e abandonados sem nenhuma garantia de emprego ou de compensação (e o pouco que poucos conseguiram, como as comunidades quilombolas, estão tendo seus direitos questionados e atacados por poderosos veículos como a Rede Globo, o Estado de São Paulo e outros veículos da elite direitista brasileira) os europeus (italianos, alemães, espanhóis, portugueses, poloneses e outros que formam a maioria do superestrato branco que compõe a classe média e alta da sociedade brasileira) vieram para o Brasil através de programas de imigração patrocinados pelo governo imperial brasileiro com garantias de terras, emprego nas fazendas, posse de terrenos como meeiros e outros benefícios negados aos negros, que já estavam em território brasileiro. Ao invés de incentivo e benefício, os negros foram empurrados para os subúrbios das cidades brasileiras enchendo as primeiras favelas.

Diante de tamanha disposição para continuar lutando por seus privilégios uma notícia como esta não pode jamais vir a ser lida com espanto:

Mulheres protestam em Porto Alegre contra proibição do bronzeamento artificial no País

23/11 – 15:57 – Lecticia Maggi, iG São Paulo

PORTO ALEGRE – Dezenas de mulheres se reuniram, nesta segunda-feira, no centro de Porto Alegre, para protestar contra a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proíbe a venda e uso de equipamentos para bronzeamento artificial no País.

Com sugestivos cartazes em que dizem amar o bronzeamento artificial ou então questionam quantas pessoas morrem por ano pelo bronzeamento, as mulheres pediram a liberação do procedimento.
AE

“Sou dona do meu corpo”, estava escrito em diversos cartazes das manifestantes

A decisão da Anvisa foi anunciada no dia 11 de novembro, três meses depois de a Agência Internacional de Pesquisas em Câncer (Iarc, na sigla em inglês) alertar que os raios ultravioleta das câmaras poderiam causar câncer.

Continua aqui.

É a verdadeira daslulização da sociedade brasileira. O triunfo gersoniano. A mariantonietização da luta política da classe média.

Ainda há os que defendem a caducidade de termos como esquerda, direita, conservador, liberal, ou, pior, aqueles que defendem que o Brasil é um país que acolhe a diversidade e permite a livre-iniciativa e a auto-gestão dos homens. Neste ponto precisamos aprender muito com nossos professores norte-americanos, inclusive no que diz respeito a desnudar nossa hipocrisia e assumirmos nossa defesa intransigente dos privilégios a poucos e bons.

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5 Respostas para “O discreto charme da burguesia

  1. Essa manifestação foi mesmo ridícula.
    Quanto a caducidade dos termos citados acima, não concordo com universidades que orientam estudantes para determinada posição. Se um dia foi para a direita, hoje é para esquerda e amanhã ninguém sabe.
    Para mim, instituições de ensino superior deveriam preparar para a universalidade, deixando que os alunos escolham seu próprio caminho. E não é isso o que acontece.

    Abs

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Olá Michel.

    Eu, diferentemente de ti, acho que simplesmente não existe “universalidade”. Todas, todas, todas orientam para determinada posição.

    Porque para mim, neutralidade não existe. A não posição já é uma tomada de posição.

    Quem afirma ser “neutro”, que “não tem posição”, na verdade adota a posição majoritára, hegemônica e com ela compactua. É um direito da pessoa.

    Quando as coisas são às claras, o cara ao menos tem a chance de receber aquilo criticamente. Não como “conhecimento puro”, como se isso existisse.

    Nesse blog que eu costumo ler, o Alex Castro escreveu um texto interessante sobre “ideologia ou ausência de ideologia”.
    http://www.interney.net/blogs/lll/2009/11/23/ideologia_quero_uma_pra_viver/

  3. Fabio,

    Acho que eu não me fiz entender. Não acho que a pessoa não deve se posicionar. Acho que deve sim, desde que seja uma postura crítica.
    A questão que eu coloco é outra, uma vez que eu não concordo de maneira alguma que instituições de ensino tentem orientar seus alunos seja para que lado for.
    Não sei se você sabe, mas eu sou administrador e analista educacional. Entendo que a educação brasileira perdeu demais durante anos e anos com um ensino centrado no professor, nos métodos, na rigidez e, claro, no estilo militar que imperava.
    Assim, não posso concordar quando nos percebendo livres da ditadura, ver uma faculdade ou qualquer escola claramente orientando seus alunos para esquerda.
    Concluindo, acho que a pessoa pode e deve se posicionar, a instituição não. Não quero rever esse filme.

    Abraço e parabéns pela escolha desse ótimo tema.

  4. Fabio Martelozzo Mendes

    Entendi sim, Michel.

    É que eu acho que não há como não orientar.

    A questão deveria ser a seguinte: já que não é possível haver uma formação “neutra”, que as universidades possam providenciar uma formação “diversificada”, com pontos de vista de esquerda e de direita. E o aluno, no decorrer de sua vida acadêmica, filtra as posições e se adequa àquela com a qual mais se identifica.

    Porém, devo ter a humildade de admitir que esta é uma área que não é meu forte. E você, como alguém do meio, certamente é mais bem capacitado para tratar do assunto.

    De qualquer forma, ao me lembrar da música do Raul Seixas, onde ele diz preferir ser “uma metamorfose ambulante a ter opinião formada sobre tudo”, eu prefiro a conjunção aditiva à alternativa. Eu sou uma metamorfose ambulante E tenho opinião formada sobre tudo.

    Só que minha opinão muda à medida que sou convencido do contrário do que penso 🙂

    Abraços.

  5. Pingback: Medos privados em lugares públicos | Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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