Arquivo do dia: 28/11/2009

O discreto charme da burguesia

Ah… nossa burguesia. Cazuza dizia que ela fede, mas o filósofo Falcão diz que ela ao menos tem dinheiro para comprar perfume.

Deixando a piada (velha e fraca) de lado, é verdade que vivemos num país onde a direita se envergonha de ser chamada de direita, e também é verdade que há no Brasil uma sensibilidade de esquerda que impede que embarquemos em viagens direitistas explícitas como certas manifestações xenófobas que vez ou outra despontam na Europa (Lega Nord, Frente Nacional ou BNP) ou mesmo em proposições anti-científicas da direita cristã norte-americana.

Porém não deixa de ser  preocupante que a direita conservadora brasileira perca cada vez mais a vergonha de se apresentar como tal, ainda que sem chegar a essa explicitação consciente de seu conservadorismo diletante. E o que é mais alarmante. Não tem vergonha em militar ativamente em favor de uma ideologia (no sentido de falsa consiciência – não no sentido de ideário político) hedonista e consumista, mesmo em tempos de combate explícito à pobreza, consumo consciente e mudanças climáticas causadas pelo homem.

As frentes de batalha já foram escolhidas: a defesa da manutenção dos privilégios educacionais (o ensino superior público e gratuito para os bem-afortunados e a não aprovação das ações afirmativas para afro-descendentes), a desqualificação sistemática do Lula (não uma crítica ao governo ou à política do Partido dos Trabalhadores, mas um ataque fortemente preconceituoso em relação a sua origem nordestina, pobre e a sua falta de escolaridade, inclusive com o ostensivo uso de sua deficiência física como iconografia anti-lulista) e a desqualificação das lutas das minorias sob a justificativa de que o “politicamente correto” e sua neutralidade linguística configuram-se como hipocrisia falaciosa.

Se por um lado alguns membros da classe média lançam ataques auto-críticos (ainda que inconscientes, segundo Alex Castro do LLL) através de veículos como Revista Piauí, blog Classe Média Way of Life, Revista Caros Amigos e outras, a reação deixa de ser tímida como era outrora e passa a ser furibunda e aberta, como o blog Socialismo e Classe Média ou o post “A classe média é o novo preto” do blog da Lady Rasta. Claro, claro… enquanto os negros foram sequestrados, escravizados, espancados e abandonados sem nenhuma garantia de emprego ou de compensação (e o pouco que poucos conseguiram, como as comunidades quilombolas, estão tendo seus direitos questionados e atacados por poderosos veículos como a Rede Globo, o Estado de São Paulo e outros veículos da elite direitista brasileira) os europeus (italianos, alemães, espanhóis, portugueses, poloneses e outros que formam a maioria do superestrato branco que compõe a classe média e alta da sociedade brasileira) vieram para o Brasil através de programas de imigração patrocinados pelo governo imperial brasileiro com garantias de terras, emprego nas fazendas, posse de terrenos como meeiros e outros benefícios negados aos negros, que já estavam em território brasileiro. Ao invés de incentivo e benefício, os negros foram empurrados para os subúrbios das cidades brasileiras enchendo as primeiras favelas.

Diante de tamanha disposição para continuar lutando por seus privilégios uma notícia como esta não pode jamais vir a ser lida com espanto:

Mulheres protestam em Porto Alegre contra proibição do bronzeamento artificial no País

23/11 – 15:57 – Lecticia Maggi, iG São Paulo

PORTO ALEGRE – Dezenas de mulheres se reuniram, nesta segunda-feira, no centro de Porto Alegre, para protestar contra a decisão da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) que proíbe a venda e uso de equipamentos para bronzeamento artificial no País.

Com sugestivos cartazes em que dizem amar o bronzeamento artificial ou então questionam quantas pessoas morrem por ano pelo bronzeamento, as mulheres pediram a liberação do procedimento.
AE

“Sou dona do meu corpo”, estava escrito em diversos cartazes das manifestantes

A decisão da Anvisa foi anunciada no dia 11 de novembro, três meses depois de a Agência Internacional de Pesquisas em Câncer (Iarc, na sigla em inglês) alertar que os raios ultravioleta das câmaras poderiam causar câncer.

Continua aqui.

É a verdadeira daslulização da sociedade brasileira. O triunfo gersoniano. A mariantonietização da luta política da classe média.

Ainda há os que defendem a caducidade de termos como esquerda, direita, conservador, liberal, ou, pior, aqueles que defendem que o Brasil é um país que acolhe a diversidade e permite a livre-iniciativa e a auto-gestão dos homens. Neste ponto precisamos aprender muito com nossos professores norte-americanos, inclusive no que diz respeito a desnudar nossa hipocrisia e assumirmos nossa defesa intransigente dos privilégios a poucos e bons.