Arquivo do mês: julho 2010

Os já não tão jovens deuses

O ano de 1989 foi talvez o melhor ano da música pop pós década de 60. Se não dá pra competir com 1967 e os lançamentos de “Velvet Underground and Nico“, “Pet Sounds”, “Sgt.Pepper“, “Beggar’s Banquet“, “The Doors“, e “Piper at the Gates of Dawn“, discos como “Life’s Too Good“, “Freedom“, “Songs for Drella” e muitos outros fazem com que o já distante ano faça parte da história da música pop.

Um desses álbuns fundamentais é L’Eau Rouge, segundo disco da banda suíça The Young Gods. O combo suíço apresentou a ouvidos brasileiros o verdadeiro significado de “rock industrial”, numa época em que industrial muitas vezes era confundido com EBM (electronic body music – dos também históricos belgas do Front 242) ou New Beat (do também belga Tragic Error).

Samples, colagens, mixagens de guitarras barulhentas, música clássica, polca em uma música ao mesmo tempo lírica e furiosa. Mas o que na época fez dos suíços únicos foi o fato de cantarem em francês.

Long Route

Rue des Tempetes

L’Eau Rouge

La Fille de la Mort

L’Amourir

Posteriormente eles começaram a cantar em inglês, visando a entrada no mercado norte-americano. Com isso parte do charme e da originalidade da banda se perdeu, o que não impediu que eles ainda gravassem músicas poderosas.

Gasoline Man

Kissing the Sun

Salomon Song (Kurt Weil)

Seu último lançamento é o álbum acústico (????) Knock on the Wood, onde os suíços fazem versões com violões e outros instrumentos para suas canções anteriormente forjadas em computadores, sintetizadores e samplers.

The Young Gods in Venice (Knock on the Wood)

I’m the Drug (acústica)

Long Route (acústica)

Não estão mais tão jovens. Mas o The Young Gods ainda está anos-luz à frente da música atual, como estavam em 1989.

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Um poema às quartas

Teresa

A primeira vez que vi Teresa
Achei que ela tinha pernas estúpidas
Achei também qua a cara parecia uma perna

Quando vi Teresa de novo
Achei que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo
(Os olhos nasceram e ficaram dez anos esperando que o resto do corpo nascesse)

Da terceira vez não vi mais nada
Os céus se misturaram com a terra
E o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

A piedade como protesto

Depois do romantismo paródico de Puchkin, o autor que definiu a cara da literatura russa na primeira metade do século XIX foi Nikolai Gogol. O que eu conhecia sobre Gogol se resumia em uma versão da peça “O Inspetor Geral“, encenada a mais de dez (talvez quinze) anos dirigida por Antonio Abujanra e a peça “The Overcoat“, baseada no conto O Capote, pelo grupo britânico Gecko.

Ambas peças tratam do mundo do funcionalismo público russo na época do império. Corrupção, tráfico de influência, abuso de autoridade, tudo o que faz de ambas as montagens algo estranhamente contemporâneo e familiar, a despeito das diferenças temporais e geográficas que separam o Brasil do século XXI da Rússia do século XIX.

Mas na leitura de “O Capote” e de outra de suas novelas, “Diário de um Louco” essa semelhança atinge sua aproximação máxima.

Diferentemente da caracterização estilizada, romântica e exagerada dos personagens em Puchkin, os personagens de Gogol não fazem parte do universo da nobreza, da corte e do exército (os extratos elevados da sociedade – normalmente sujeitos à representação literária). São os funcionários mais baixos dentro do departamento de estado. Os escrivões. Que vagam pelas ruas sem ter dinheiro para coche, que não tem dinheiro para aquecimento na gélida São Petersburgo, que não tem perspectiva.

Mas diferentemente do que se imaginaria, não há a representação realista-naturalista. E isso faz do maravilhoso, sobrenatural (realismo fantástico, quase) presente nos contos de Gógol cada vez menos estranho à realidade.

Além do elemento sobrenatural, o que permite que o público leitor de então (uma parcela ínfima de qualquer sociedade – ainda mais na Rússia) aceite ler relatos sobre a classe baixa é o sentimento de piedade que o leitor passa a ter pelos protagonistas. Akaki Akakiévich é parvo ao extremo. Sua incapacidade de se expressar, seu sonho de aceitação graças ao seu novo capote, a humilhação que recebe de seus colegas, das autoridades policiais, tudo recebido de maneira estóica, com sofreguidão e resignação, cativam a simpatia do leitor para a pobre criatura.

Poprishchin, em “Diário de um Louco”, por outro lado, cativa pelo cômico. A progressiva escalada em direção à loucura, percorrida por este outro funcionário público, também fascinado pela insersão social, nos proporciona um dos mais interessantes relatos sobre a esquizofrenia na literatura. O fim de ambos, previsivelmente, é trágico, ainda que cômico ou sentimental.

E a tragicidade, o sentimentalismo e o sobrenatural são as armas que permitem que tais relatos contundentes sobre a situação social na Rússia penetrem, subrepticiamente, nos palacetes e salas de leitura da nobreza e burguesia russas. O deleite com a própria miséria é também algo que nos é bastante caro. Como Machado de Assis e suas crônicas da cidade do Rio de Janeiro, ao mesmo tempo escravagista e iluminista, nos mostra.

O casamento entre homossexuais

Texto tirado do Blog do Alon, com negritos meus.

O casamento entre homossexuais (20/07)

Em resumo, trata-se apenas de lançar o tema da escolha sexual no rol dos assuntos com que o Estado nada tem a ver

Falta nesta eleição alguém viável e que reúna coragem para dizer simplesmente o seguinte: “Vou fazer como a presidente da Argentina, vou trabalhar para aprovar no Congresso Nacional a liberação plena do casamento entre pessoas do mesmo sexo”.

É casamento mesmo, e não subformas de contornar a encrenca. O debate entre os argentinos foi esclarecedor. Trata-se apenas de garantir um direito fundamental: o da igualdade. Se heterossexuais podem casar-se, por que não estender a prerrogativa aos homossexuais?

Assuntos como a religião e a orientação sexual são da esfera privada. E o Estado? Cabe a ele oferecer as condições para o pleno exercício do direito de escolha. Só. Se determinada igreja condena certas preferências sexuais, que selecione os fiéis como bem entender. Mas é assunto dela, não nosso (se a ela não pertencemos).

Complicado é a Igreja Católica tratar com suavidade os casos de pedofilia homossexual em suas fileiras e, ao mesmo tempo, pressionar os poderes constituídos para manter como cidadãos de segunda categoria os homossexuais que desejam levar uma vida transparente, digna e cidadã.

Idem para as demais igrejas, incluídas as evangélicas. Se estão insatisfeitas com a influência do catolicismo na esfera pública, não é razoável que também queiram ditar normas para quem não segue sua cartilha.

É hora de enfrentar o preconceito, nas diversas variações. Uma delas: a resistência a permitir que casais homossexuais adotem crianças.

Vamos acabar com isso. Dezenas de milhares de pequenos órfãos ou relegados esperam uma oportunidade de futuro. Orientação sexual não define a qualidade do pai, ou da mãe, para criar o filho, ou a filha.

Em resumo, trata-se apenas de lançar o tema da escolha sexual no rol dos assuntos com que o Estado nada tem a ver.

Eis um ponto. Mas infelizmente é baixa a probabilidade de ele e outros relevantes serem debatidos com franqueza e objetividade. O script dos candidatos viáveis é sabido. Eles percorrem o país não para saber o que devem fazer, mas principalmente para recolher os vetos provenientes dos diversos grupos de pressão.

Assim, pouco a pouco, os candidatos vão se transformando em portadores do nada. Ou do quase nada. A consequência natural é serem incapazes de mobilizar a sociedade. Daí que estejamos diante da campanha eleitoral talvez mais passiva desde a redemocratização.

Do jeito que vai, ela só galvanizará mesmo os portadores e beneficiários de espaços estatais (ou paraestatais) e os candidatos a um. Cada qual no seu papel. Já a sociedade acompanhará à distância, reservando-se o direito de decidir na hora da urna.

Nos países desenvolvidos costuma ser assim, quando a eleição não coincide com nenhuma grande crise. O problema é que nós não somos ainda um país desenvolvido. Temos impasses gigantescos a superar. Impasses cuja solução exige imensa energia social.

O “casamento gay” é um exemplo. Deve haver outros. Mas em fase de bonança econômica nem o governismo quer marola nem a oposição tem coragem de ousar.

Uma pena.

Um poema às quartas

Pneumotórax

Febre, hemoptise, dispnéia e suores noturnos.
A vida inteira que podia ter sido e que não foi.
Tosse, tosse, tosse.

Mandou chamar o médico:
– Diga trinta e três.
– Trinta e três… trinta e três… trinta e três…
– Respire.

– O senhor tem uma escavação no pulmão esquerdo e o pulmão direito infiltrado.
– Então, doutor, não é possível tentar o pneumotórax?
– Não. A única coisa a fazer é tocar um tango argentino.

Thank God it’s Friday – Biertruppe Vintage nº 1

A última cerveja que eu mostrei aqui, a Tcheca, é uma cria da Biertruppe, cuja história já foi contada, portanto não irei repetí-la.

Mas repetirei a dose do fabricante. Hoje falo da Biertruppe Vintage nº 1. O conceito de cerveja “vintage” é aquela cerveja que passa por um processo de envelhecimento, que lhe acrescenta características e aprofunda a complexidade de sabores e aromas na cerveja. Muitas vezes são cervejas safradas (como vinhos) e em alguns casos as garrafas são numeradas. Uma excelente vintage (uma Old Ale, pois vintage não é estilo) é a Strong Suffolk.

A Biertruppe Vintage nº 1 tem uma história longa. A cerveja, depois de brassada foi armazenada em barris de carvalho por 100 dias (diferente da fraude Bohemia Oaken, que conta com “chips” de carvalho, pedacinhos de madeira colocadas no líquido para passar algumas características amadeiradas para o produto final) e depois foi engarrafada. Teoricamente, estaria pronta para a venda no final de 2009. Mas a burocracia (ou burrocracia) impediu a aprovação do rótulo da cerveja nos órgãos federais. Eles encrencaram com o termo “vintage” (o que atrasou também o lançamento da Colorado Vintage, que foi rebatizada para poder receber a liberação), pois segundo os “especialistas”, não seria um termo aplicável à cerveja (certamente eles não conhecem cerveja e nem a Strong Suffolk Vintage Ale, a Fuller’s Vintage Ale e dezenas de outras cervejas “vintage”).

Pois bem. No final das contas, não houve liberação. A cerveja passou a ser degustada apenas por poucos afortunados. Sorte minha que fui um deles.

Lembro que a alguns meses o Edu Passarelli disse no Twitter que a Biertruppe Vintage é a melhor cerveja já produzida no Brasil. Pois é. Parece coisa de quem quer puxar a brasa para a sua sardinha. Mas não.

A cerveja é realmente única. Especial. É uma Barley Wine de 9% de teor alcoólico que por ter passado 100 dias em barril de carvalho assumiu características muitíssimo particulares. A cerveja foi feita com cepas de fermento e lúpulo ingleses e tem um paladar bastante refinado. Pouca carbonatação e uma espuma média, bege. O aroma é intenso e muito complexo. Eu percebi a madeira, frutas (frutas secas), adocicado (baunilha?) e um pouco de álcool. Como os barris que receberam a nº 1 antes haviam acondicionado vinho e brandy, algumas características dessas bebidas passaram pra cerveja. O sabor acompanha a cerveja, com frutado, sabor de álcool (calor) moderado e muito integrado no conjunto. O corpo é denso. O líquido parece ser mais “grosso” que as cervejas normais. Não é para ser bebido aos golões. Mas para ser sorvida, degustada com atenção, respeito e reverência.

Pois, afinal de contas, realmente se trata da melhor cerveja já produzida no Brasil. Pena que, a exemplo das outras criações da Biertruppe, uma vez que acabar, não será produzida de novo. Deixará saudades.

Um poema às quartas

Human Family

I note the obvious differences
in the human family.
Some of us are serious,
some thrive on comedy.

Some declare their lives are lived
as true profundity,
and others claim they really live
the real reality.

The variety of our skin tones
can confuse, bemuse, delight,
brown and pink and beige and purple,
tan and blue and white.

I’ve sailed upon the seven seas
and stopped in every land.
I’ve seen the wonders of the world,
not yet one common man.

I know ten thousand women
called Jane and Mary Jane,
but I’ve not seen any two
who really were the same.

Mirror twins are different
although their features jibe,
and lovers think quite different thoughts
while lying side by side.

We love and lose in China,
we weep on England’s moors,
and laugh and moan in Guinea,
and thrive on Spanish shores.

We seek success in Finland,
are born and die in Maine.
In minor ways we differ,
in major we’re the same.

I note the obvious differences
between each sort and type,
but we are more alike, my friends
than we are unalike.

We are more alike, my friends,
than we are unalike.

We are more alike, my friends,
than we are unalike.

Família Humana

Eu noto óbvias diferenças
na humana família.
Alguns somos sérios,
outros atraídos pela alegria.

Alguns declaram que suas vidas são vividas,
como verdadeira profundidade,
e outros clamam que realmente viveram
a verdadeira realidade.

A variedade de nossos tons de pele
deixa confundido, admirado, aturdido,
marrom e rosa e bege e púrpura
moreno e azul e lívido

Naveguei pelos sete mares
e parei em todo lugar,
vi as maravilhas do mundo
e ainda nem um homem vulgar.

Conheço dez mil mulheres
que Maria e Mariana são chamadas,
mas não vi quaisquer duas
que fossem realmente igualadas

Espelhos duplos são diferentes
apesar de seus traços motejados,
e amantes pensamentos bem diferentes pensam
enquanto deitados lado a lado.

Amamos e perdemos na China,
sobre as amarras da Inglaterra choramos,
e rimos e lamentamos em Guiné,
e na costa de Espanha prosperamos.

Buscamos sucesso na Finlândia
em Maine nascemos e morremos.
em coisas menores diferimos,
nas maiores nos parecemos.

Eu noto óbvias diferenças
entre cada forma e tipo,
mas somos mais iguais, meus amigos,
que desiguais.

Somos mais iguais, meus amigos,
que desiguais.

Somos mais iguais, meus amigos,
que desiguais.

(Traduzido por por Sam)