A “mourinização” do futebol

Há quem diga que a tragédia do Sarriá, a derrota do Brasil frente a uma Itália que jogava fortemente postada na defesa e apostando nos contragolpes, foi a principal responsável pela predominância do futebol-força, que valoriza a preparação física, a solidez defensiva e a disciplina tática, em relação ao chamado “futebol-arte”, que valoriza a posse de bola, o drible, o improviso e o talento individual.

Claro que um único evento não pode ser considerado o único causador, mas serve como momento-chave de uma mudança de paradigmas históricos.

Pois bem. Após dois anos de valorização de futebol bonito, ofensivo, de posse de bola e que visa o gol, simbolizados pelas conquistas de Manchester United de Rooney, Tevez e Ronaldo frente ao pragmático e sólido Chelsea de Avran Grant, e no ano seguinte a vitória do avassalador Barcelona que jogava no ultra-ofensivo 4-3-3 com um volante, dois meias e três atacantes (Messi, Eto’o e Henry) sobre o mesmo Manchester United, eis que o vitorioso desta edição da Liga dos Campeões da UEFA praticava extamente o oposto dessa filosofia.

A Internazionale ensinou o caminho das pedras. Travou o Barcelona, que nesta temporada continuava tão insinuante, ofensivo e avassalador quanto na anterior. Ao anular as principais peças ofensivas de seu adversário, Mourinho armou a arapuca que derrubou os catalães e executada à perfeição, também vitimou os bávaros na final.

Pois bem. A lição foi ensinada. E, parece, aprendida. A primeira rodada da Copa do Mundo de 2010 foi a rodada com a menor média de gols de toda história. Equipes com razoável técnica, mas com excessiva disciplina tática, vigor físico e dedicação conseguiram fazer frente a equipes bem mais técnicas e habilidosas.

Enquanto França e Uruguai se anulavam, oferecendo praticamente nenhuma oportunidade ao adversário para marcar, o que se viu em partidas como Camarões x Japão e Sérvia x Gana foi a lição de Mourinho dando certo outras vezes. Segundo o comentarista Paulo Vinícius Coelho, o Japão foi o time que jogou mais agrupado até então na Copa. E Gana, com muita força física e disposição, derrotou uma Sérvia que se viu sem alternativa alguma naquela partida.

A Costa do Marfim, time que conta com razoáveis recursos técnicos, jogou esperando Portugal a partida toda, sem se lançar ao ataque antes de meados da segunda etapa. Ronaldo simplesmente não apareceu.

Mas o melhor (ou pior) ainda estava por vir.

A Espanha começou contra a Suíca avassaladora como o Barcelona. A troca de passes, veloz e precisa, a posse de bola que batia nos 65% e a movimentação faziam parecer que os ibéricos confirmariam seu favoritismo e que o gol seria questão de tempo. Mas ao passar do tempo ficou claro que havia incrível dificuldade dos espanhóis converterem em chances de gol sua melhor técnica e posse de bola. Um contra-golpe acabou com a invencibilidade da Espanha.

O Eduardo Cecconi, do blog Preleção, analisa detalhadamente a partida que ruiu as esperanças daqueles que torciam pelo futebol fluido, veloz e envolvente nesta Copa. Acabaram as esperanças? Não necessariamente, muito embora a Sérvia tenha batido outro prego no caixão do futebol ofensivo ao bater a Alemanha hoje pela manhã. Afinal, Argentina e Holanda continuam a jogar ofensivamente. Resta saber até quando resistirão.

Se este título da UCL e esta copa representarão uma mudança de paradigma tático, ou então, um esgotamento das fórmulas táticas atuais, com a percepção de que há ferramentas existentes que permitem a anulação de qualquer força ofensiva, como também demonstrou a frágil Coréia do Norte frente a um pouco inspirado Brasil, ainda não sabemos. Mas certamente o ano de 2010 no futebol pertence a Mourinho.

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3 Respostas para “A “mourinização” do futebol

  1. Olá Fábio,

    Há uma tese de que a Copa do Mundo define os parâmetros a serem seguidos e talvez seja assim até hoje no Brasil. Depois de 94, o 4-2-2-2 se popularizou por aqui. Depois de 2002, o 3-5-2 se tornou quase uma praga. Mas, na Europa, vejo as coisas de maneira invertida, com o Mundial refletindo as tendências (sobretudo táticas) de origem europeia.
    No entanto, não daria tanto peso assim à conquista isolada da Inter de Mourinho. O que vemos hoje na África é muito mais a confirmação de uma tendência que vem se consolidando há alguns anos. Mesmo se o Barça tivesse vencido, não acredito numa Copa diferente do que estamos vendo.

    Abraços.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Eu já via o 4-2-2-2 como formação “default” desde meados da década de 80, quando muitos clubes passaram a deixar de jogar no 4-3-3 para terem um “quadrado” no meio campo (dois volantes, dois meias). A copa de 90 introduziu um 3-5-2 só que sem sucesso, então não pegou.

    Sobre a Zoropa, sim. Tem razão. Tanto que eu disse no início desse post que não acredito em um evento único como causador de uma mudança de paradigmas. Mas esse momento, que é o triunfo do Mourinho sobre equipes mais ofensivas que a dele, serve como catalizador, como símbolo, de uma mudança de mentalidade.

    Os magos da ofensividade precisarão de muita criatividade para desatarem o nó górdio atado pelo Mourinho.

  3. Só um complemento:
    Quando falo no 4-2-2-2 e no 3-5-2 não falo da utilização desses esquemas no Brasil e sim na popularização dos mesmos após conquistas brasileiras em Copas.
    No caso do 3-5-2 chegou a irritar. Times que até então vinham com linha de quatro na defesa mudaram do dia pra noite. Infelizmente, isso só evidenciou o baixo nível dos treinadores locais.

    Abraço.

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