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Thank God it’s Friday – Alt-Bamberg Dunkel

Às vezes, ao olhar despretensiosamente para as gôndolas do supermercado, acha-se alguma novidade da qual sequer havia-se ouvido falar. Entre essas coisas despretensiosas há cervejas bastante interessantes e a um preço muito bom. Outras vezes a cerveja não é lá algo inesquecível e marcante, mas vale a pena pelo preço e pela descoberta de mais uma novidade.

Pois vagando pelo Supermercado Záffari topei com uma série de cervejas que nunca ouvira falar antes: Kaiserdom. Havia pilsens e weizens, que não me chamaram tanto a atenção. Mas havia uma dunkel cujo belo rótulo convidava a prová-la. Era a Kaiserdom Alt-Bamberg Dunkel.

Levei para casa e provei a novidade recém descoberta. Se o preço, por se tratar de uma importada alemã, compensava, a cerveja por si não se destacou. Boa cerveja, sim, mas nada além do que conseguimos no Brasil na mesma faixa de preço. A cerveja é bonita, bem escura e com boa formação de espuma, bege e cremosa. No paladar e no aroma o tostado do malte característico de uma dunkel. A cerveja conta com 4,7º de álcool.

Nada marcante. Boa apenas.

Thank God it’s Friday – Hoegaarden

Existem diversas escolas cervejeiras, cada uma com suas próprias características. A alemã, por exemplo, prima pelo purismo nos meios de produção. Graças à sua Lei de Pureza, de 1516 (a Reinheitsgebot), nenhuma cerveja pode conter qualquer ingrediente que não seja malte de cevada, água e lúpulo. Na época de sua promulgação não se conheciam as leveduras. Muito tempo depois é que passou-se a admitir outros maltes, como o de trigo (típico das weizenbiers) e outros adjuntos a cervejas de alta fermentação (ales). Nas de baixa fermentação (lagers), só aquilo que a lei prevê mesmo. Outras escolas, como a inglesa, admitem um maior uso de adjuntos para uma maior variedade de sabores e aromas. Mas a escola que leva a criatividade, inclusive no uso de ingredientes diferentes, às últimas consequências é a belga.

Pra começar os mosteiros onde se produzem cervejas de abadia e trapistas sequer levam em consideração o conceito de “estilo” de cerveja. O uso de processos e ingredientes leva à criação de cervejas únicas, exclusivas, cheias de personalidade.

Mas dá para se dizer que existe sim estilos de cerveja tipicamente belgas. A witbier é um deles. Witbier, em holandês, significa “cerveja branca”. Weissbier, em alemão, significa também “cerveja branca”. E há similaridades entre ambos os estilos, pois ambos são feitos com malte de trigo.Mas os belgas, bem… eles acrescentaram um toque a mais de inventividade na receita, acrescentando sementes de coentro e raspas de laranja no líquido.

Isto faz da Hoegaarden uma cerveja de personalidade única, pois é altamente refrescante, como as weiss alemãs, mas com um aroma bastante distinto. Desaparece o aroma de banana, característico da weiss e entra o aroma cítrico, de laranja. Mas o aroma não se restringe ao cítrico, pois as leveduras belgas deixam sua marca tanto no aroma quanto no sabor. Sua coloração é amarelo palha, bem claro e o creme branco, abundante e de longa duração coroa o serviço dessa excelente cerveja. E o melhor é que por ser importada em larga escala, tem preço bastante acessível.

Thank God it’s Friday – Biertruppe Vintage nº 1

A última cerveja que eu mostrei aqui, a Tcheca, é uma cria da Biertruppe, cuja história já foi contada, portanto não irei repetí-la.

Mas repetirei a dose do fabricante. Hoje falo da Biertruppe Vintage nº 1. O conceito de cerveja “vintage” é aquela cerveja que passa por um processo de envelhecimento, que lhe acrescenta características e aprofunda a complexidade de sabores e aromas na cerveja. Muitas vezes são cervejas safradas (como vinhos) e em alguns casos as garrafas são numeradas. Uma excelente vintage (uma Old Ale, pois vintage não é estilo) é a Strong Suffolk.

A Biertruppe Vintage nº 1 tem uma história longa. A cerveja, depois de brassada foi armazenada em barris de carvalho por 100 dias (diferente da fraude Bohemia Oaken, que conta com “chips” de carvalho, pedacinhos de madeira colocadas no líquido para passar algumas características amadeiradas para o produto final) e depois foi engarrafada. Teoricamente, estaria pronta para a venda no final de 2009. Mas a burocracia (ou burrocracia) impediu a aprovação do rótulo da cerveja nos órgãos federais. Eles encrencaram com o termo “vintage” (o que atrasou também o lançamento da Colorado Vintage, que foi rebatizada para poder receber a liberação), pois segundo os “especialistas”, não seria um termo aplicável à cerveja (certamente eles não conhecem cerveja e nem a Strong Suffolk Vintage Ale, a Fuller’s Vintage Ale e dezenas de outras cervejas “vintage”).

Pois bem. No final das contas, não houve liberação. A cerveja passou a ser degustada apenas por poucos afortunados. Sorte minha que fui um deles.

Lembro que a alguns meses o Edu Passarelli disse no Twitter que a Biertruppe Vintage é a melhor cerveja já produzida no Brasil. Pois é. Parece coisa de quem quer puxar a brasa para a sua sardinha. Mas não.

A cerveja é realmente única. Especial. É uma Barley Wine de 9% de teor alcoólico que por ter passado 100 dias em barril de carvalho assumiu características muitíssimo particulares. A cerveja foi feita com cepas de fermento e lúpulo ingleses e tem um paladar bastante refinado. Pouca carbonatação e uma espuma média, bege. O aroma é intenso e muito complexo. Eu percebi a madeira, frutas (frutas secas), adocicado (baunilha?) e um pouco de álcool. Como os barris que receberam a nº 1 antes haviam acondicionado vinho e brandy, algumas características dessas bebidas passaram pra cerveja. O sabor acompanha a cerveja, com frutado, sabor de álcool (calor) moderado e muito integrado no conjunto. O corpo é denso. O líquido parece ser mais “grosso” que as cervejas normais. Não é para ser bebido aos golões. Mas para ser sorvida, degustada com atenção, respeito e reverência.

Pois, afinal de contas, realmente se trata da melhor cerveja já produzida no Brasil. Pena que, a exemplo das outras criações da Biertruppe, uma vez que acabar, não será produzida de novo. Deixará saudades.

Thank God it’s Friday – Tcheca

O estilo de cerveja número um do Brasil é a pilsen. Todas as principais e mais vendidas cervejas no Brasil são pilsens, da Antarctica à Brahma, Skol, Schin, todas. Bem… pelo menos no rótulo. Isso porque o que o estilo pilsen (seja o bohemian pilsen, da república tcheca, mais amargo ou o german pilsen, alemão, um pouco mais suave) pede é uma cerveja refrescante, de coloração amarela intensa e com aroma herbal de lúpulo e alto amargor.

Definitivamente, nesse mundo de cervejas aguadas, sem amargor, sem nenhum corpo, com levíssimo, quase desaparecido traço de malte e sem aroma nenhum, o que tomamos nos nossos bares e restaurantes passa longe de ser uma pilsen. Basta comparar a Heineken, uma pilsen industrial de larga escala (cerveja de trabalho), mas que no Brasil virou “premium” com outras cervejas.

Nesse mundo de lagers medíocres, sem sabor, sem amargor, sem aroma, algumas cervejarias mais preocupadas com a qualidade de seus produtos lançaram boas opções no mercado. A Bamberg tem sua excelente pilsen. Bem como a Eisenbahn, a Colorado (uma levíssima cerveja, com baixo amargor, mas com muito mais qualidade que o ‘xixi de cavalo’ engarrafado que se vende por aí), a Baden Baden e outras.

Mas a grande pilsen do Brasil não é fruto de uma indústria, mas esforço de uma turma de amigos dedicados à cerveja, a Biertruppe.  Formada por Edu Passarelli, dono do Melograno e um dos primeiros no Brasil a escrever sobre cervejas especiais, Leonardo Botto, cervejeiro caseiro do RJ e responsável por algumas das melhores receitas produzidas no Brasil, André Clemente, artista gráfico e criador dos rótulos, e Alexandre Bazzo, dono da cervejaria Bamberg, uma das mais premiadas cervejarias do Brasil. Esses quatro teimosos produziram a Tcheca pela primeira vez em 2008. Depois veio a blond ale belga Saint Nicholas, para homenagear o natal. A última cria da turma é a barley wine Vintage nº1, ainda não disponível no mercado. E em comemoração à Copa do Mundo, a turma relançou sua primeira cria: a Tcheca.

Antes de ser engarrafada ela estava disponível em versão chopp no Melograno. Nesta versão ela era servida sem a filtragem, portanto sua cor era mais turva, com amargor mais pronunciado. Agora ela estará disponível para venda em garrafa em versão filtrada, mais clara, menos amarga e mais herbal.

É disparada a melhor pilsen produzida no Brasil. É refrescante como convém a nosso clima tropical. Mas é amarga. Mais amarga que as suas concorrentes premium (Bamberg, Colorado, Eisenbahn, Baden Baden) e com um aroma muito agradável de lúpulo herbal.

O teor alcoólico está dentro do padrão do estilo (5º) que permite que ela seja bebida em quantidade razoável sem pesar no estômago e nem deixar a pessoa meio aérea, de forma que ela não perceba as qualidades da cerveja.

Se não dá para celebrar a Copa com essa grande cerveja, visto nossa precoce eliminação frente à seleção da Heineken, digo, da Holanda, dá para passarmos alguns meses saboreando uma das melhores crias da cervejaria nacional. Mas tem de correr, pois é uma edição limitada e quando acabar, acabou.

Thank God it’s Friday – Young’s Double Chocolate Stout

Uma grata combinação no mundo da cerveja é cerveja com chocolate. Chocolate? Sim, claro! Por que não? Uma cerveja escura (boa, não lagers coloridas com corante caramelo, como as malzbiers, as muniques industriais e – infelizmente – a decadente Xingu, que já foi boa) tem sabores que lembram o caramelado (às vezes) e o torrado (costumeiramente), o que dá uma boa liga com chocolates amargos.

O Edu Passarelli, do Melograno, em seu blog já recomendou algumas harmonizações usando a La Brunette com torta de chocolate e La Brunette e chocolate amargo com laranja. Uma delícia. Mas cervejeiros ousados dão um passo além. Ano passado no Melograno houve distribuição da sensacional Dado Bier Double Chocolate Stout, uma sweet stout feita pela cervejaria gaúcha Dado Bier que leva chocolate em sua composição. Chocolate, não essência ou aromatizante (como a brochante Backer Brown Ale). É super complicado fazer cerveja com chocolate in natura, pois a gordura do chocolate corta a formação da espuma. No Melograno o chopp era servido com três tipos de chocolate (ao leite, meio-amargo e amargo), que ao serem comidos juntamente com a cerveja potencializavam o adjunto em um sabor maravilhoso.

Infelizmente a Dado Bier ainda não colocou sua preciosa cria no mercado. Mas tudo bem. Há uma opção. A Young’s Double Chocolate Stout.

É uma excelente cerveja, uma sweet stout (mais doce e menos amarga que a dry stout – Guinness, por exemplo) que leva chocolate em essência e in natura em sua composição. Com 5,2º de álcool, tem bom amargor, mas não excessivo, aroma torrado (café?) e (óbvio) chocolate, doce no nariz, com sabor também com ênfase no chocolate. Tem coloração completamente preta, com espuma bege e persistente. Bom corpo, muita personalidade.

É uma grande cerveja que vale muito ser experimentada!

Thank God it’s Friday – Baden Baden Red Ale

Já tomou “vinho de cevada”? Não. Não estou falando daquela aberração que se vende por aí chamada “chopp de vinho”. Eu gosto de chopp. Gosto de vinho. Mas não tomo chopp de vinho. Pois eu gosto de sorvete. Também gosto de picanha, mas não me arriscaria a tomar um “sorvete de picanha”.

Na verdade falo da cerveja “barley wine“, que é uma ale chamada deste modo por sua graduação alcoólica, digamos, exagerada. A Baden Baden Red Ale conta com 9,2º, enquanto uma pilsen padrão tem 4,3 a 4,5º. E sua intensidade não reside apenas no álcool.

O álcool é sentido no conjunto, mas de maneira bem integrada. O conjunto é potente, com sabor intenso, bastante encorpada, com muitos aromas e sabores. A alta complexidade se dá pela boa presença de lúpulos, que conferem aromas e sabores herbais característicos e também de frutas vermelhas. O sabor contém um amargor pronunciado mas bem agradável e o creme é persistente e abundante e a cerveja é bem carbonatada.

É uma das melhores cervejas nacionais. Combina bem com pratos picantes, condimentados. Vale muito a pena.

Thank God it’s Friday – Eisenbahn Dunkel

Como já devem ter percebido, eu tenho uma grande preferência por cervejas escuras. As duas últimas cervejas mencionadas neste blog (a Murphy’s e esta) são cervejas pretas. Além da Guinness, outra de minhas favoritas.

Mas o que difere ambas stouts irlandesas desta schwarzbier é que as stouts são cervejas tipo ale (alta fermentação), enquanto a Eisenbahn Dunkel é lager (baixa fermentação). Há uma série de diferenças técnicas e em sabor em relação a essas duas famílias de cervejas, cada uma com suas qualidades e particularidades. E a Eisenbahn Dunkel é praticamente uma referência em seu estilo.

Primeiramente, esta é a cerveja brasileira mais premiada no exterior: Beers of the World Editor’s Choice, Medalha de Bronze em 2007 no European Beer Star Award, Medalha de Prata no Australian International Beer Award de 2008, Medalha de Bronze no World Beer Cup e Medalha de Bronze em 2008 no European Beer Star Award. Não é pouca coisa.

E pela participação nesses concursos, a Dunkel é caso único de cerveja “reclassificada” pela fabricante. Ela havia sido inscrita como Dunkel, que em alemã significa “escura” (muitas cervejas se opõe entre “helles” – clara e “dunkel” – escura), podendo ser marrom, avermelhada, enquanto a schwarzbier é obrigatoriamente preta, com características mais fortes de torrefação e amargor. Os juízes do concurso perceberam que a Eisenbahn Dunkel se encaixaria melhor no estilo Schwarzbier. Assim seja.

É uma cerveja espetacular. Com aroma de torrado e café, sabor amargo, torrado, com boa presença do álcool, formando um harmonioso e saboroso conjunto. Tem espuma boa e bege. Agrada à vista, ao nariz e ao paladar. É das melhores cervejas a se encontrar no Brasil. E seu custo benefício então, é sensacional.