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Despírito Desportivo

Desde a decadência do Calcio como principal campeonato de futebol do mundo, Inglaterra e Espanha brigam cabeça a cabeça pelo posto de principal centro futebolístico atual. Depois de grande predominância inglesa, a Espanha contra-ataca e reúne os principais atletas do mundo em suas equipes.

E enquanto acompanhava os jogos do fim de semana, me surpreendi com dois resultados especificamente: Liverpool 6 x 1 Hull City e Tottenham Hotspur 5 x 0 Burnley. Espantei-me, mas não deveria, pois o campeonato já tivera  outros resultados elásticos como Arsenal 4 x 0 Wigan, Liverpool 4 x 0 Burnley, Sunderland 4 x 1 Hull City, Arsenal 4 x 1 Portsmouth, Wigan 0 x 5 Manchester United, Liverpool 4 x 0 Stoke, Hull 1 x 5 Tottenham, Everton 1 x 6 Arsenal e ainda veria o Sunderland enfiar 5 x 2 no Wolverhampton.

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Enquanto isso na Espanha, Barcelona e Real Madrid dividem a ponta com 100% de aproveitamento e profusas goleadas. Ah, no começo do texto disse que neste ano a Espanha levara os melhores atletas para seus clubes. Corrigindo, levara para o Real Madrid (Benzema, Ronaldo, Kaká, Xabi Alonso, Arbeloa) e para o Barcelona (Ibrahimovich, Maxwell – além da manutenção da base que ganhara a tríplice coroa). O Ubiratan Leal, nesta semana, escreveu uma interessantíssima coluna falando sobre a concentração de renda e o desequilíbrio financeiro no futebol espanhol nesta temporada.

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Eis o fato. Não se produzem goleadas com tanta facilidade no Brasil como na Inglaterra e na Espanha. E não dá apenas para dizer que isso é o resultado de um nivelamento por baixo do campeonato nacional por causa do êxodo de atletas. Não é apenas isso.

No ranking de faturamento dos clubes brasileiros, o quinto clube com maior faturamento em 2008, o Corinthians, teve uma receita de R$ 117,5 mi, enquanto o clube com maior faturamento, o São Paulo, arrecadou R$ 160,5 mi, 36,6% a mais. Enquanto isso na Inglaterra, o quinto maior faturamento fora do Tottenham Hotspur, de 145 mi de Euros, contra 325 mi de Euros do primeiro, o Manchester United. Uma diferença de 124%. Na Espanha a diferença é ainda mais gritante.

A FIFA e a UEFA tentam brecar a influência cada vez maior do dinheiro nos resultados esportivos, ora tentando brecar transferências de menores aliciados pelos clubes maiores, ora tentando impor de alguma forma uma espécie de fair play financeiro. Até agora não tem sido possível, pois o sucesso comercial do próprio futebol acaba por alimentar o desnível, com cotas de patrocínio e premiações cada vez maiores pagas aos participantes da UEFA Champions League em relação aos demais clubes, criando um abismo entre eles, uma casta de “superclubes”, intocáveis, inatingíveis.

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Enquanto no passado era possível um clube pequeno ser campeão com a revelação de uma geração de atletas brilhantes (vide os títulos europeus de Celtic, Aston Villa, Nottingham Forest, Steua Bucareste e Estrela Vermelha), tal fato se torna cada vez mais difícil nos dias de hoje por causa do abismo financeiro. Para os torcedores e atuais dirigentes destes superclubes, tudo ótimo, pois o que importa são os resultados e a rivalidade. Mais ainda, tal fato pode solapar a atratividade do futebol como um todo, pois quem se interessará por um campeonato onde as quatro (ou duas, dependendo do país) primeiras posições já são conhecidas de antemão, inclusive por quais clubes e em qual ordem?

Download do Deloitte Football Club Money League aqui.

Futebol Finance – Receita dos clubes brasileiros.

Futebol Finance – Deloitte Football Money League.

P.S. O título é quase uma homenagem à banda Super-Simetria, já contemplada neste blog aqui.

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Tráfico de crianças

A globalização econômica transformou definitivamente o futebol. De representante de uma cidade ou comunidade, um clube de futebol passou a ser uma empresa que briga no mercado global por mais consumidores (torcedores), num processo de internacionalização que tem nas TVs, amistosos e torneios de pré-temporada e na venda de produtos suas pontas mais visíveis.

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Todavia, a briga nos mercados internacionais motiva os clubes a se digladiarem não apenas por consumidores, mas por matéria-prima, os jogadores também.

E os órgãos reguladores do futebol como a FIFA e a UEFA, baseados ainda nos antigos conceitos de nacionalidade, lutam para tentar manter o futebol dentro desses mesmos conceitos antigos. Tentam fazer com que um time inglês não apenas represente o torcedor inglês (coisa que não mais acontece, como vimos aqui) mas seja representado por ingleses em suas equipes. Uma briga perdida de antemão, pois a legislação européia proíbe a discriminação de cidadãos europeus no mercado de trabalho (portanto, leis como a proposta 6 + 5 estão fadadas ao fracasso, a não ser por um acordo de cavalheiros entre os clubes – muito pouco cavalherescos, diga-se) e os clubes aprenderam rapidamente a burlar essas leis com naturalizações.

Outro aspecto que tem chamado a atenção recentemente são as transações que envolvem atletas cada vez mais jovens, tema que voltou à berlinda após a recente condenação do Chelsea em um caso de aliciamento de menor envolvendo o jovem Gael Kakuta junto ao Lens da França. Logo em seguida o Manchester United foi denunciado pela Fiorentina e pelo Le Havre, visto que a legislação da França e da Itália proíbem menores de 16 anos de assinarem contratos profissionais (o que facilita o aliciamento) e o Manchester City sofrer investigação semelhante.

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Portanto, não foi com pouca  empolgação e, porque não dizer, espanto que a notícia de que a Premier League limitaria o número de atletas não-revelados nas categorias de base do país para a próxima edição da liga. O mecanismo é semelhante ao que a UEFA utiliza na UCL: cada time poderá inscrever apenas 25 atletas. Destes, 8 devem ser “revelados no país”, ou seja, devem ter frequentado por pelo menos três anos as categorias de base dos clubes ingleses ou galeses. A princípio a medida parecia bastante acertada, pois incentivaria os clubes a investirem em suas categorias de base ao invés de investirem no mercado de transferências e limitaria o número de atletas nos elencos. O Liverpool, por exemplo, conta com 55 atletas inscritos em sua equipe principal (sem contar a reserva e as categorias de base), sendo a maioria absoluta formada por estrangeiros.

Ótimo para o futebol do mundo inteiro, não, já que os jogadores ingleses não mais perderiam oportunidades para estrangeiros de custo mais baixo, e os clubes outros países não mais correriam o risco de perderem seus jogadores de graça.

Mas a prática pode se mostrar outra.

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O jornalista Oliver Kay, do The Times, explicou o porque em seu artigo na versão online do jornal. Afinal de contas, como nacionalidade não está em questão, os ingleses partiriam para cima dos jovens de outros países com ainda mais intensidade, em idades ainda mais jovens (e menos protegidas por legislações trabalhistas). Segundo o critério adotado pela Premier League, Macheda e Fábregas são tão ingleses quanto Walcott e Rooney. Continuaria sendo mais barato “roubar” atletas das categorias de base de outros países a formar seus próprios atletas, o que tornaria a vida dos atletas ingleses ainda mais competitiva, pois mais e mais adolescentes e crianças tomar-lhe-iam os lugares nas categorias de base dos clubes.

Nesta semana o jornalista Tim Vickery publicou em seu blog os danos que o futebol sul americano poderia sofrer. Os clubes ingleses começarão a levar os atletas do continente muito antes deles fazerem suas estréias profissionais, aumentando o vácuo de talentos no continente. Os clubes sul americanos mais bem sucedidos costumam desenvolver os jovens talentos e, depois de certo nome, vendem-nos e com isso sustentam-se financeiramente. O Boca Junior e o São Paulo são os melhores exemplos dessa filosofia. Com o assédio diretamente às categorias de base, os clubes seriam muito menos remunerados pelos jogadores perdidos, se remunerados forem. Afinal, casos como o dos irmãos Rafael e Fabio da Silva, saídos de graça da categoria de base do Fluminense para o Manchester United seriam cada vez mais comuns.

Neste mesmo sentido o excelente site português Futebol Finance publicou uma análise onde eles também expressam suas preocupações sobre a ineficácia da medida para aumentar o número de jogadores ingleses e estimular as categorias de base.

Outros posts sobre futebol, mercado e globalização aqui.

A tabela do Brasileirão já faz suas vítimas

Faltam quatro rodadas para terminar o primeiro turno do Brasileirão, segundo a CBF. Mas de acordo com o Emerson Gonçalves, ainda estamos no meio do segundo turno (Janela de Verão) e ao mesmo tempo num restinho do terceiro turno (Jogos sem Descanso). E essa sobreposição de fatores de complicação faz suas vítimas.

A primeira e mais óbvia é o Corinthians. Perder em uma semana Cristian, André Santos e Douglas é um golpe forte na espinha dorsal do time. E não adianta a diretoria lançar factóides como a possível contratação de Riquelme ou trazer possíveis peças de reposição como Paulo André que o estrago já está feito. Ainda mais com as perdas de Otacílio Neto, Wellington Saci e Fabinho. Se num primeiro momento pareciam sensatas o empréstimo desses atletas, já que diminuiriam os jogos que o Corinthians faria no segundo semestre (alguns times disputariam a Copa Sul Americana, enquanto o Corinthians havia acabado de se sagrar campeão da Copa do Brasil) e aliviaria a folha de pagamento do clube, por outro a perda de dois meio-campistas e um lateral titular mostrou que tais empréstimos não foram tão bem planejados assim. E a perda de pegada do meio-campo corinthiano e a falta de alternativa pela esquerda ficou mais que evidente na partida contra o Palmeiras.

Outro time vitimado pela tabela, mas por outra razão, é o Atlético Mineiro. O Galo tem um bom time. Mas não um bom elenco. Se o time titular faz frente a qualquer clube brasileiro no momento, o cansaço do elenco e a falta de alternativas para que Celso Roth altere o andamento da partida, a configuração tática ou mesmo um atleta contundido enfraquece consideravelmente o Galo. A falta de alternativas táticas impediu que o Atlético furasse a forte retranca do Goiás. Seus jogadores rápidos são talhados para o jogo de transição, de velocidade e de verticalidade. Mas não para o jogo de paciência, cerebral e de troca de passes. Por mais que o Júnior esteja desempenhando bem o papel de meia, ele o faz como um meia-externo (winger), que atua verticalmente conduzindo a bola rumo à área adversária, não como um meia-armador que inverte jogadas, que distribui o jogo e cadencia a partida. E a virada sofrida contra o Flamengo explicita ainda mais a falta de alternativas que o Celso Roth tem.

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Isto posto, cai no colo do Palmeiras  a chance histórica de ser campeão brasileiro sem grandes adversários. Se Corinthians e Atlético Mineiro perdem fôlego graças à janela de transferências ou ao acúmulo de jogos, Internacional, Cruzeiro, Grêmio e São Paulo não decolaram no campeonato, seja por contarem com um elenco rachado, pela ressaca da eliminação de uma competição importante ou por estarem implantando uma nova filosofia de trabalho. Basta o Palmeiras não rifar esse bilhete premiado vendendo seus maiores responsáveis pela boa fase: Pierre, Cleiton Xavier e (principalmente) Diego Souza.

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O pânico dos torcedores em relação à saída de seus principais atletas durará até 31 de agosto, quando termina a janela de transferências internacionais. A Traffic já emitiu uma nota dizendo não vender Cleiton Xavier e Pierre neste ano, o que deixou a torcida do Palmeiras ouriçada, já que Diego Souza continua sendo assediado e não tendo seu futuro garantido pela dona de seu passe (sim… isso existe – nem que seja de fato mas não de direito). O Corinthians pode (deve) perder o Felipe, grande responsável pelo empate contra o Santo André e certamente alguns clubes brasileiros serão vítimas de mutilação.

A vir, daqui a quinze dias, a nova temporada européia que realmente promete. E antes dela começar vamos tentar brincar com os amistosos e torneios de pré-temporada…