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Jesus, lembra-te de mim

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Substância católica e princípio protestante

Como conciliar a espiritualidade contemplativa com a ética protestante? Ou então, como conciliar a substância católica com o princípio protestante? Afinal de contas, neste post anterior eu comentei o quão penosa é a busca por uma vivência espiritual mais meditativa por alguém que sempre foi racional. Todavia, como não ser racional ao ser adepto de uma religião cujo cerne é o racionalismo?

Todo mundo sabe (ou deveria saber) que o protestantismo, ao surgir no século XVI, foi uma das manifestações do humanismo que solapava a ordem da sociedade medieval na época do renascimento. E isso aconteceu tanto na esfera das artes, da economia, da política e também da religião. Ora, com o auge do humanismo e do racionalismo, nada mais natural que essas características também se manifestassem na nova ordem religiosa.

Então, com a ascensão principalmente do calvinismo, com sua religião extremamente lógica, racional e cartesiana, onde o púlpito suplantou a mesa da comunhão como expressão máxima do cristianismo, onde o mistério da eucaristia foi substituído pela explicação do evento, onde o sermão (explicação da Palavra) substitui a Ceia do Senhor (comunicação da graça sacramental) como centro do culto cristão, nada mais natural que a vida devocional, a prática da meditação e a simbologia cristã começassem a perder importância para a ortodoxia, a doutrina e a dogmática.

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E esse movimento ocorreu tanto em âmbito institucional e coletivo como em âmbito privado e individual. Como contraponto, movimentos protestantes que buscam uma nova vivência espiritual, devocional e meditativa que não sucumbisse à frieza dogmática da ortodoxia oficial foram a tônica dos séculox XVII e XVIII, como o pietismo, na tradição luterana, o movimento dos morávios, o metodismo e o movimento de Oxford na tradição anglicana.

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Essa tem sido minha luta espiritual nos últimos tempos. Manter a ética do trabalho protestante ao mesmo tempo em que há a busca pela recuperação de uma vida devocional e meditativa individual. Buscar o simbolismo litúrgico e a comunicação da graça e manter a dimensão coletiva e comunitária do cristianismo.

Ressuscitou, Aleluia!

A espiritualidade ocidental é marcadamente racional, contrastada com a espiritualidade contemplativa e meditativa das religiões orientais (budismo, hinduísmo, entre outras). A espiritualidade protestante, então, mais ainda.

Eu então sempre fui considerado racional demais, pouco sensível, pouco desenvolvido emocionalmente. O detalhe é que ser mais racional e menos emocional está longe de ser uma qualidade, pois não significa que pessoas como eu saibam controlar suas emoções, mas simplesmente não amadureceram suas emoções de forma integral.

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Eis então o paradoxo. Como alguém racional e pouco meditativo pode se interessar por uma espiritualidade baseada na contemplação, na meditação e na oração, em detrimento do ativismo, do racionalismo e da capacidade cognitiva? Aí é que está. A questão não é meramente de preferência. Mas de necessidade.

E esse cd, Ressuscitou Aleluia, gravado pelos Monges do Mosteiro da Ressureição em Ponta Grossa, Paraná, é uma ferramenta que eu tenho utilizado na tentativa de desenvolver uma espiritualidade integral, meditativa e contemplativa, que não contraste com a espiritualidade ética e prática que caracteriza minha formação protestante.

O tema do CD é a liturgia da semana da páscoa, começando com a Vigília Pascal e culminando com a Missa de Páscoa. Todas as letras são baseadas em textos bíblicos, sem nenhuma adição que poderia soar estranha à suscetibilidade evangélica. Com o detalhe de ser cantado em português (em geral cantos gregorianos são em latim).

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Para quem quiser conhecer um pouco mais sobre os caminhos que tenho trilhado, convido a uma visita rápida aos links ao lado, sob a categora “espiritualidade”. Não é proselitismo, mas apenas minha forma de compartilhar aquilo que tem me auxiliado a domar as feras interiores 🙂