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Os clubes mais ricos do mundo

Saiu a última edição do Deloitte Football Money League.

O relatório que aponta quais são os clubes mais ricos da Europa mostrou algumas modificações no ranking em relação ao ano anterior. Barcelona utrapassa o Manchester United e os dois espanhóis fazem a dobradinha na ponta. Na equipe inglesa o Arsenal ultrapassa o Chelsea, ocupando a quinta posição. E o clube fica mais restrito, só com participantes ingleses, espanhóis, italianos, alemães e franceses, já que o Fenerbaçe, único time de fora desse Top 5, não está mais na relação.

(gráfico retirado do site Olhar Crônico Esportivo – especializado em gestão e finanças do futebol)

Breves comentários:

  • O Manchester United teve aumento do faturamento, mas perdeu sua posição graças à desvalorização da Libra Esterlina frente ao Euro.
  • Há sete clubes ingleses no ranking, contra cinco alemães, quatro italianos, dois franceses e dois espanhóis.

Para efeito de comparação, aqui está o ranking do faturamento dos clubes brasileiros no ano de 2008 (os resultados de 2009 ainda não saíram).

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Despírito Desportivo

Desde a decadência do Calcio como principal campeonato de futebol do mundo, Inglaterra e Espanha brigam cabeça a cabeça pelo posto de principal centro futebolístico atual. Depois de grande predominância inglesa, a Espanha contra-ataca e reúne os principais atletas do mundo em suas equipes.

E enquanto acompanhava os jogos do fim de semana, me surpreendi com dois resultados especificamente: Liverpool 6 x 1 Hull City e Tottenham Hotspur 5 x 0 Burnley. Espantei-me, mas não deveria, pois o campeonato já tivera  outros resultados elásticos como Arsenal 4 x 0 Wigan, Liverpool 4 x 0 Burnley, Sunderland 4 x 1 Hull City, Arsenal 4 x 1 Portsmouth, Wigan 0 x 5 Manchester United, Liverpool 4 x 0 Stoke, Hull 1 x 5 Tottenham, Everton 1 x 6 Arsenal e ainda veria o Sunderland enfiar 5 x 2 no Wolverhampton.

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Enquanto isso na Espanha, Barcelona e Real Madrid dividem a ponta com 100% de aproveitamento e profusas goleadas. Ah, no começo do texto disse que neste ano a Espanha levara os melhores atletas para seus clubes. Corrigindo, levara para o Real Madrid (Benzema, Ronaldo, Kaká, Xabi Alonso, Arbeloa) e para o Barcelona (Ibrahimovich, Maxwell – além da manutenção da base que ganhara a tríplice coroa). O Ubiratan Leal, nesta semana, escreveu uma interessantíssima coluna falando sobre a concentração de renda e o desequilíbrio financeiro no futebol espanhol nesta temporada.

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Eis o fato. Não se produzem goleadas com tanta facilidade no Brasil como na Inglaterra e na Espanha. E não dá apenas para dizer que isso é o resultado de um nivelamento por baixo do campeonato nacional por causa do êxodo de atletas. Não é apenas isso.

No ranking de faturamento dos clubes brasileiros, o quinto clube com maior faturamento em 2008, o Corinthians, teve uma receita de R$ 117,5 mi, enquanto o clube com maior faturamento, o São Paulo, arrecadou R$ 160,5 mi, 36,6% a mais. Enquanto isso na Inglaterra, o quinto maior faturamento fora do Tottenham Hotspur, de 145 mi de Euros, contra 325 mi de Euros do primeiro, o Manchester United. Uma diferença de 124%. Na Espanha a diferença é ainda mais gritante.

A FIFA e a UEFA tentam brecar a influência cada vez maior do dinheiro nos resultados esportivos, ora tentando brecar transferências de menores aliciados pelos clubes maiores, ora tentando impor de alguma forma uma espécie de fair play financeiro. Até agora não tem sido possível, pois o sucesso comercial do próprio futebol acaba por alimentar o desnível, com cotas de patrocínio e premiações cada vez maiores pagas aos participantes da UEFA Champions League em relação aos demais clubes, criando um abismo entre eles, uma casta de “superclubes”, intocáveis, inatingíveis.

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Enquanto no passado era possível um clube pequeno ser campeão com a revelação de uma geração de atletas brilhantes (vide os títulos europeus de Celtic, Aston Villa, Nottingham Forest, Steua Bucareste e Estrela Vermelha), tal fato se torna cada vez mais difícil nos dias de hoje por causa do abismo financeiro. Para os torcedores e atuais dirigentes destes superclubes, tudo ótimo, pois o que importa são os resultados e a rivalidade. Mais ainda, tal fato pode solapar a atratividade do futebol como um todo, pois quem se interessará por um campeonato onde as quatro (ou duas, dependendo do país) primeiras posições já são conhecidas de antemão, inclusive por quais clubes e em qual ordem?

Download do Deloitte Football Club Money League aqui.

Futebol Finance – Receita dos clubes brasileiros.

Futebol Finance – Deloitte Football Money League.

P.S. O título é quase uma homenagem à banda Super-Simetria, já contemplada neste blog aqui.

Eu tenho, você não tem

De acordo com alguns economistas, uma das características da globalização é a tendência de concentração de riquezas ainda maior. O mundo globalizado terá cada vez menos e maiores empresas. Veja o nome dos mega-laboratórios farmaceuticos. As corporações são formadas pela fusão de várias e várias empresas de diversos países, buscando aumentar seu cacife para competir no mercado global. A agora ABInBev, ultra-hiper-mega cervejaria formada por Anheuser Bush (Budweiser), Interbrew (maior cervejaria da Bélgica) e AmBev (essa já uma megaempresa formada pela fusão de Antárctica, Brahma e Skol) domina uma fatia enorme do mercado cervejeiro do mundo e conta com um portfólio de mais de cem marcas diferentes atuando no mundo todo.

No mundo do futebol a tendência não poderia ser diferente. Porém, ao contrário do mundo empresaria, no futebol não existem fusões ou conquista de consumidores de marcas concorrentes. Afinal de contas, dificilmente um torcedor do Atlético MG se tornaria cruzeirense apenas pelo fato da raposa estar oferecendo um produto melhor (ou seja, obtendo melhores resultados). Por outro lado, além da conquista de “novos mercados” em países “periféricos” na geopolítica da bola (Ásia, África, Austrália, América do Norte), do qual nossos clubes brasileiros se encontram alijados (como expliquei aqui) existe outra imensa fonte de renda que está se concentrando nas mãos de cada vez menos clubes: os patrocínios e premiações por competições.

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De acordo com notícia publicada no site da revista Trivela, a premiação a ser distribuída aos participantes da Uefa Champions League nesta temporada será 33% maior que na temporada anterior. É um valor monstruoso, que tem causado uma distorção esportiva séria nos campos da Europa.

Por exemplo, na França, o Lyon dominou completamente o campeonato por oito temporadas, turbinado pela grana faturada na UCL. É um círculo vicioso. O clube participa da UCL, enche os cofres, fortalece ainda mais seu elenco, com isso consolida sua hegemonia nacional e contiunua a participar da UCL. Daí enche os cofres, fortalece ainda mais seu elenco…

De acordo com o Deloitte Football Money League, publicado no site português Futebol Finance, o clube inglês que mais fatura, o Manchester United, arrecada mais que o dobro que o quinto clube inglês, o Tottenham Hotspur (325 mi de Euros contra 145), enquanto no Brasil, de acordo com a Casual Auditores, também publicado no Futebol Finance, a diferença entre o clube que mais fatura e o quinto neste ranking é de 27% (R$ 160,5 mi pra São Paulo contra R$ 117,9 mi pra Corinthians). E o abismo é ainda maior na Espanha, onde há uma oligarquia formada por Real Madrid e Barcelona e mais nenhum clube tem condições de postular ao título.

Platini e a FIFA tentam quebrar essa dominância, quer através de regras barrando a transferência indiscriminada de jogadores estrangeiros (o famigerado 6+5), ou tentando flexibilizar o clubinho fechado da UCL. Porém enquanto não diminuir drasticamente a diferença paga por UCL e Liga Europa (reformulada para tentar quebrar o estereótipo de “competição de segunda classe), os clubes que formavam o antigo G-14 continuarão a fazer parte de uma casta separada. No futebol europeu há os haves e os have nots.

Futebol globalizado? Aqui não.

Uma rápida olhada pelo calendário da pré-temporada européia mostra uma profusão de torneios e partidas amistosas ocorrendo entre os meses de julho e agosto. Em Londres serão disputados os torneios Emirates Cup e Wembley Cup, com participação de Rangers, Paris St.German, Arsenal e Atletico de Madrid no primeiro e Barcelona, Celtic, Tottenham Hotspur e Al Ahly (Egito) no segundo. Haverá os tradicionalíssimos Teresa Herrera e Ramon de Carranza. Na Alemanha está confirmado o Audi Cup , com Milan, Boca Juniors, Bayern Munique e Manchester United. Também haverá o Amsterdan Tournament, com Ajax, Atletico de Madrid, Sunderland e Benfica. Saindo de território europeu, haverá o Torneo Azteca, com participações de Deportivo La Coruña, Tigres, America (ambos mexicanos) e Villareal. Até o Atlante (Mex) e a LDU (Peru) disputarão o Peace Cup na Espanha, acompanhados de times do calibre de Real Madrid, Sevilla, Juventus, Aston Villa e Porto.

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Além dos torneios, há as excursões, como a do Chelsea pela América do Norte, onde jogará contra Milan, Internazionale e America (México), do Manchester United pela China, Indonésia, Coréia e Malásia, do Liverpool por Singapura e Tailândia, Inter pelos EUA e os diversos outros times europeus, argentinos e mexicanos que passearão pelo mundo espalhando suas marcas e conquistando novos consumidores/torcedores.

Ora, nós brasileiros sabemos o quanto esses torneios caça-níqueis são prejudiciais ao bom andamento de uma temporada esportiva (especialmente nós palmeirenses – após o fracasso na Libertadores de 94 onde o time disputou um confronto de vida ou morte com o SPFC extenuado após uma excursão pela Rússia) não? Mais ou menos.

O Emerson Gonçalves, do excelente  blog “Olhar Crônico Esportivo” fez um excelente e curto post chamado “Global Players x Provincial Players”, onde ele mostra o quanto nossos clubes estão alijados do mercado mundial. E daí? O que significa isso? Só porque perdemos algum faturamento com esses torneiozinhos de meia-pataca?

Não só. Não só isso. Vejam nesse outro post, do também excelente blog “Jogo de Negócios”, do jornalista e publicitário Fabio Kadow, sobre a torcida brasileira do Manchester United. O lançamento do novo uniforme do Manchester United será um evento global bancado pela Nike, inclusive com ações no Brasil. É. Além de faturamento esporádico, no início da temporada, nossos clubes apequenam suas marcas e deixam de vender seus produtos nos mercados emergentes, inclusive nos EUA, na Ásia, na África (por que não?), na Austrália e onde houver um fã de futebol com dinheiro no bolso e ávido para gastá-lo com camisas, flâmulas, cachecóis, pôsteres e outros. Eles gastam com times europeus, com times argentinos e até com times mexicanos. Mas com brasileiros não.

Ah… mas isso é muito pouco. O Brasil é um país continental, nossos times são seguidos por dezenas de milhões de torcedores aqui. Podemos vender nossas camisas só aqui e ainda sermos potências financeiras, certo? Quase.

Afinal de contas, embora tendo o objeto de desejo mais cobiçado pelos fãs de futebol (o jogador brasileiro, o que mais seria), nossos campeonatos são pouquíssimo divulgados e pouquíssimo televisionados ao redor do mundo. Vejam, até o campeonato russo passará em nossas tvs, que também transmitem Campeonato Francês, Campeonato Holandês, Copa da França, Campeonato Argentino, Campeonato Português, Campeonato Russo, Major Leage Soccer e Women’s League Soccer (cá pra nós… nenhum desses tem um milésimo de apelo pra um fã de futebol no sudeste asiático comparado com o futebol brasileiro), além do Inglês, do Alemão, do Italiano e do Espanhol. E em geral quem assiste o campeonato brasileiro fora do Brasil são os assinantes de Globo Internacional e semelhantes – brazucas no exílio.

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Ao vermos as cifras movimentadas pelos principais clubes do mundo com venda de produtos licenciados, com direitos de transmissão, com patrocínios (sendo que os  valores com vendas e patrocínios cresceriam proporcionalmente com o crescimento do mercado televisivo – mais telespectadores = mais consumidores atingidos pela marca) percebemos que continuamos deitados eternamente em berço, que cada vez se torna menos esplêndido. A perda de faturamento dos clubes brasileiros é monumental. E nos contentamos em ser meramente exportadores de mão de obra especializada a preço de banana.

E o primeiro aspecto a ser mudado terá de ser o insano, indecente calendário sul americano. Volto a falar sobre calendário em breve. Aliás, por falar em excursões de pré-temporada, torneios amistosos e calendário, o Leonardo Bertozzi da Revista Trivela já falou de leve sobre esse assunto neste post do blog da Trivela. Pois é… o filho-da-mãe furou meu texto com uma semana de antecedência, quando eu já havia começado a redigí-lo. Enfim… na próxima pelada eu me vingarei contra suas canelas. Prepare-se Bertozzi. 🙂

P.S. Em tempo. Acabou de sair no jornal inglês The Independent uma matéria dizendo que o Chelsea faturará £ 2.500.000,00 em sua turnê americana. E Hull City, West Ham e Tottenham receberão £ 700.000,00 por duas partidas na China no Premier League Asia Trouphy (reportagem aqui).

P.P.S. O Fábio Kadow, do blog Jogo de Negócios, postou hoje (20/07) mais uma matéria que mostra os ganhos dos clubes que exploram o mercado asiático. No caso, o Manchester United (aqui).