Arquivo do mês: maio 2010

Canções de Setembro

Bertold Brecht é um dos nomes fundamentais do teatro do século XX. Criador do chamado “teatro épico”. Segundo Brecht, o drama burguês, com sua técnica realista, procura a identificação emocional e o enlevo. Seu objetivo era outro. Ao invés de mostrar, narrar. Ao invés de identificar, estranhar. Através do estranhamento e do distanciamento, o espectador conseguiria analisar e aprender, ao invés de se enlevar e se emocionar. A busca era sempre a da análise crítica.

Uma das principais ferramentas de estranhamento utilizadas por Brecht era a música. Seus principais colaboradores musicais foram Hans Eisler e Kurt Weil.

Só que a obra de Weil foi tão excelente que alçou vôo próprio. O próprio Brecht temia que as canções de suas peças mais belas como “The Rise and Fall of the City of Mahagonny” e “The Three Penny Opera” encantariam tanto o público que eles seriam levador por elas, ao invés de as utilizarem como elemento de estranhamento.

Bem, havia o risco.

Em 1997 uma série de importantes artistas como Lou Reed, Nick Cave, P.J.Harvey e outros lançaram September Songs, uma coletânea com algumas das principais canções de Weil e Brecht.

Alguns tostões:

Nick Cave – Mack the Knife

P.J. Harvey – Ballad of the Soldier’s Wife

David Johansen – Alabama Song

William Burroughs – What Keeps Mankind Alive

Lou Reed – September Song

Lotte Lenya – Jenny the Pirate

Um exemplo de peça teatral e musical em estilo brechtiano foi “A Ópera do Malandro”, com “O Malandro” sendo uma versão de “Mack the Knife” e “Genni e o Zepelin” uma adaptação de “The Pirate Jenny”.

Contextos parecidos.

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Adeus ao velho Palestra

Foi neste sábado a despedida do Velho Palestra. Despedida melancólica, pois de um lado o time está esfacelado em campo, sem identificação com a torcida, sem garra, sem padrão de jogo. De outro, a suicida e mal-intencionada oposição política do clube torpedeia todas as iniciativas, para que a atual gestão não leve os créditos pela modernização do clube.

Justamente por isso houve tão poucas iniciativas da diretoria do Palmeiras para alavancar o marketing, para transformar a partida em um evento único, que marcasse a vida do torcedor e ainda o inspirasse e ajudasse a passar esses próximos dois anos sem sua casa.

Ainda assim a torcida compareceu em um número maior que o esperado. 18.365 palmeirenses acompanharam a partida de despedida do mais antigo estádio de futebol ainda em atividade no Brasil.

O Palestra Italia é o melhor estádio de São Paulo para vivenciar a experiência do futebol. Primeiramente, está muito bem localizado, pois está próximo da Estação Barra Funda, que atende a Linha 3 do Metrô (Barra Funda-Itaquera), a linha Diamante da CPTM (Amador Bueno-Julio Prestes) e a linha Rubi da CPTM (Francisco Morato-Luz). Essas linhas integram com as linhas Esmeralda da CPTM, Verde do Metrô, Amarela d Metrô e ainda com as futuras linhas Laranja e Prata do Metrô. Ou seja, é o estádio de mais fácil acesso via transporte coletivo. Nos arredores do Palestra Italia há dezenas de bares onde a torcida se reúne horas antes da partida para comer, tomar uma cerveja antes da partida e fazer o aquecimento. Outros estádios como o Morumbi e o Pacaembu não dispõe de estabelecimentos ao redor.

Fará falta o velho Palestra.

Mas estive lá. Na despedida do Palestra eu, o meu irmão Caio e o Alessandro “Grilão” estivemos presentes na vitória sobre o Grêmio por 4 a 2.

Fotos históricas do evento:

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Mas nem tudo é nostalgia ou passado. Há de se olhar para o futuro, sempre. Então, para inspirar a espera, o que nos aguarda:

Um poema às quartas

IRON

Guns,
Long, steel guns,
Pointed from the war ships
In the name of the war god.
Straight, shining, polished guns,
Clambered over with jackies in white blouses,
Glory of tan faces, tousled hair, white teeth,
Laughing lithe jackies in white blouses,
Sitting on the guns singing war songs, war chanties.

Shovels,
Broad, iron shovels,
Scooping out oblong vaults,
Loosening turf and leveling sod.

I ask you
To witness —
The shovel is brother to the gun.

FERRO

Canhões,
Longos canhões de aço,
Apontando das belonaves
Em nome do deus da guerra.
Retos, brilhantes, polidos canhões,
Cavalgados por marujos em túnicas brancas,
Rostos bronzeados, cabelos revoltos, dentes brancos,
Sorridentes marujos em túnicas brancas
Sentados nos canhões, entoando hinos e refrões de guerra.

Pás,
Amplas pás de ferro,
Cavando valas oblongas,
Levantando terra e tufos de grama.

Você é
Testemunha —
A pá é irmã do canhão.

(Tradução: Carlos Machado)

Humor negro, humor canino

“Estamos aqui reunidos para a despedida do melhor assistente que um mágico poderia desejar”. Da revista New Yorker, copiado do blog do Maurício Stycer.

Estes, no blog do Laerte.

A maior banda de rock do mundo

Não. Este epíteto nunca foi utilizado para qualificar o The Police. Mas não seria nenhum absurdo se fosse. Primeiro, porque todos eles eram músicos virtuosos. Na época em que a simplicidade do punk e da new wave combatiam os excessos virtuosísticos, operísticos e pseudo-eruditos de um rock progressivo já em estado de decomposição, os três rapazes eram quase que uma exceção á regra, pois sabiam tocar e muito. Em segundo lugar, porque eles venderam milhões e milhões, chegando no ano de 1984 a serem realmente a mais popular banda de rock de então, antes da ascensão do U2 ao posto (assumido em 1987 com Joshua Tree). Por fim porque… ora, porque a música deles era simplesmente sensacional.

Melodias pop extremamente bem executadas. Reggae, rock, ska, um toquezinho de funk aqui e acolá, sofisticado (os três eram músicos com formação jazzística) mas sem soar pretensioso. Dançante. Enfim… Eu tive minha chance na turnê de reunião em 2008. Mas não deu. Assisti pela televisão mesmo. E digo, melhor seria se nem tivesse, pois basta a memória das melhores músicas compostas no final dos anos 70 e início dos 80.

Message in a Bottle

Don’t stand so close to me

Roxane

Walking on the moon

Every breath you take

I can’t stand losing you

De do do do de da da da

Every little thing she does is magic

Thank God it’s Friday – Eisenbahn Dunkel

Como já devem ter percebido, eu tenho uma grande preferência por cervejas escuras. As duas últimas cervejas mencionadas neste blog (a Murphy’s e esta) são cervejas pretas. Além da Guinness, outra de minhas favoritas.

Mas o que difere ambas stouts irlandesas desta schwarzbier é que as stouts são cervejas tipo ale (alta fermentação), enquanto a Eisenbahn Dunkel é lager (baixa fermentação). Há uma série de diferenças técnicas e em sabor em relação a essas duas famílias de cervejas, cada uma com suas qualidades e particularidades. E a Eisenbahn Dunkel é praticamente uma referência em seu estilo.

Primeiramente, esta é a cerveja brasileira mais premiada no exterior: Beers of the World Editor’s Choice, Medalha de Bronze em 2007 no European Beer Star Award, Medalha de Prata no Australian International Beer Award de 2008, Medalha de Bronze no World Beer Cup e Medalha de Bronze em 2008 no European Beer Star Award. Não é pouca coisa.

E pela participação nesses concursos, a Dunkel é caso único de cerveja “reclassificada” pela fabricante. Ela havia sido inscrita como Dunkel, que em alemã significa “escura” (muitas cervejas se opõe entre “helles” – clara e “dunkel” – escura), podendo ser marrom, avermelhada, enquanto a schwarzbier é obrigatoriamente preta, com características mais fortes de torrefação e amargor. Os juízes do concurso perceberam que a Eisenbahn Dunkel se encaixaria melhor no estilo Schwarzbier. Assim seja.

É uma cerveja espetacular. Com aroma de torrado e café, sabor amargo, torrado, com boa presença do álcool, formando um harmonioso e saboroso conjunto. Tem espuma boa e bege. Agrada à vista, ao nariz e ao paladar. É das melhores cervejas a se encontrar no Brasil. E seu custo benefício então, é sensacional.

Um poema às quartas

Psicologia da Composição

1.

Saio de meu poema

como quem lava as mãos.

Algumas conchas tornaram-se,

que o sol da atenção

cristalizou; alguma palavra

que desabrochei, como a um pássaro.

Talvez alguma concha

dessas (ou pássaro) lembre,

côncava, o corpo do gesto

extinto que o ar já preencheu;

talvez, como a camisa

vazia, que despi.

2.

Esta folha branca

me proscreve o sonho,

me incita ao verso

nítido e preciso.

Eu me refugio

nesta praia pura

onde nada existe

em que a noite pouse.

Como não há noite

cessa toda fonte;

como não há fonte

cessa toda fuga;

como não há fuga

nada lembra o fluir

de meu tempo, ao vento

que nele sopra o tempo.

3.

Neste papel

pode teu sal

virar cinza;

pode o limão

virar pedra;

o sol da pele,

o trigo do corpo

virar cinza.

(Teme, por isso,

a jovem manhã

sobre as flores

da véspera.)

Neste papel

logo fenecem

as roxas, mornas

flores morais;

todas as fluidas

flores da pressa;

todas as úmidas

flores do sonho.

(Espera, por isso,

que a jovem manhã

te venha revelar

as flores da véspera.)

4.

O poema, com seus cavalos,

quer explodir

teu tempo claro; rompendo

seu branco fio, seu cimento

mudo e fresco.

(O descuido ficara aberto

de par em par;

um sonho passou, deixando

fiapos, logo árvores instantâneas

coagulando a preguiça.)

5.

Vivo com certas palavras,

abelhas domésticas.

Do dia aberto

(branco guarda-sol)

esses lúcidos fusos retiram

o fio de mel

(do dia que abriu

também como flor)

que na noite

(poço onde vai tombar

a aérea flor)

persistirá: louro

sabor, e ácido

contra o açúcar do podre.

6.

Não a forma encontrada

como uma concha, perdida

nos frouxos areais

como cabelos;

não a forma obtida

em lance santo ou raro,

tiro nas lebres de vidro

do invisível;

mas a forma atingida

como a ponta do novelo

que a atenção, lenta,

desenrola,

aranha; como o mais extremo

desse fio frágil, que se rompe

ao peso, sempre, das mãos

enormes.

7.

É mineral o papel

onde escrever

o verso; o verso

que é possível não fazer.

São minerais

as flores e as plantas,

as frutas, os bichos

quando em estado de palavra.

É mineral

a linha do horizonte,

nossos nomes, essas coisas

feitas de palavras.

É mineral, por fim,

qualquer livro:

que é mineral a palavra

escrita, a fria natureza

da palavra escrita.

8.

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas.

(A árvore destila

a terra, gota a gota;

a terra completa

caiu, fruto!

Enquanto na ordem

de outro pomar

a atenção destila

palavras maduras.)

Cultivar o deserto

como um pomar às avessas:

então, nada mais

destila; evapora;

onde foi maçã

resta uma fome;

onde foi palavra

(potros ou touros

contidos) resta a severa

forma do vazio.