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Um poema às quartas

Holy Sonnet – XIV
Batter my heart, three person’d God; for, you
As yet but knocke, breathe, shine, and seeke to mend,
That I may rise, and stand, o’erthrow mee, and bend
Your force, to breake, blowe, burn and make me new.
I, like an usurpt towne, to another due,
Labour to admit you, but Oh, to no end,
Reason your viceroy in mee, mee should defend,
But is captiv’d , and proves weake or untrue.
Yet dearely I love you, and would be loved faine,
But am betroth’d unto your enemie:
Divorce mee, untie, or breake that knot againe,
Take mee to you, imprison mee, for I
Except you enthrall mee, never shall be free,
Nor ever chast, except you ravish mee.

Soneto Sacro XIV

Força meu peito, Deus trino; não é bastante
Que apenas batas, infles, brilhes e o remendes;
Pra erguer-me, me destrua e Tua força empreende
E quebra, sopra, queima; renova-me neste instante.
Qual cidade usurpada de outro governante,
Me esforço em receber-Te, mas, oh!, é em vão;
Seria salvo por teu vice-rei, a razão,
Mas, cativa, se prova infiel ou titubeante.
Inda te amo e seria amado avidamente,
Mas estou prometido pro teu inimigo;
Separa-me, desata ou rompa novamente
Aquele nó; me prenda ou leva-me contigo,
Pois não serei livre, a não ser escravizado,
Nem casto, se não for por ti violentado.

(Tradução: Marcus de Martini)

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Um poema às quartas

john-donne

TO HIS MISTRESS GOING TO BED.

COME, madam, come, all rest my powers defy ;
Until I labour, I in labour lie.
The foe ofttimes, having the foe in sight,
Is tired with standing, though he never fight.
Off with that girdle, like heaven’s zone glittering,
But a far fairer world encompassing.
Unpin that spangled breast-plate, which you wear,
That th’ eyes of busy fools may be stopp’d there.
Unlace yourself, for that harmonious chime
Tells me from you that now it is bed-time.
Off with that happy busk, which I envy,
That still can be, and still can stand so nigh.
Your gown going off such beauteous state reveals,
As when from flowery meads th’ hill’s shadow steals.
Off with your wiry coronet, and show
The hairy diadems which on you do grow.
Off with your hose and shoes ; then softly tread
In this love’s hallow’d temple, this soft bed.
In such white robes heaven’s angels used to be
Revealed to men ; thou, angel, bring’st with thee
A heaven-like Mahomet’s paradise ; and though
Ill spirits walk in white, we easily know
By this these angels from an evil sprite ;
Those set our hairs, but these our flesh upright.

Licence my roving hands, and let them go
Before, behind, between, above, below.
O, my America, my Newfoundland,
My kingdom, safest when with one man mann’d,
My mine of precious stones, my empery ;
How am I blest in thus discovering thee !
To enter in these bonds, is to be free ;
Then, where my hand is set, my soul shall be.

Full nakedness ! All joys are due to thee ;
As souls unbodied, bodies unclothed must be
To taste whole joys. Gems which you women use
Are like Atlanta’s ball cast in men’s views ;
That, when a fool’s eye lighteth on a gem,
His earthly soul might court that, not them.
Like pictures, or like books’ gay coverings made
For laymen, are all women thus array’d.
Themselves are only mystic books, which we
—Whom their imputed grace will dignify—
Must see reveal’d. Then, since that I may know,
As liberally as to thy midwife show
Thyself ; cast all, yea, this white linen hence ;
There is no penance due to innocence :
To teach thee, I am naked first ; why then,
What needst thou have more covering than a man?

Elegia – Indo para o leito

Vem, Dama, vem que eu desafio a paz;
Até que eu lute, em luta o corpo jaz.
Como o inimigo diante do inimigo,
Canso-me de esperar se nunca brigo.
Solta esse cinto sideral que vela,
Céu cintilante, uma área ainda mais bela.
Desata esse corpete constelado,
Feito para deter o olhar ousado.
Entrega-te ao torpor que se derrama
De ti a mim, dizendo: hora da cama.
Tira o espartilho, quero descoberto
O que ele guarda quieto, tão de perto.
O corpo que de tuas saias sai
É um campo em flor quando a sombra se esvai.
Arranca essa grinalda armada e deixa
Que cresça o diadema da madeixa.
Tira os sapatos e entra sem receio
Nesse templo de amor que é o nosso leito.
Os anjos mostram-se num branco véu
Aos homens. Tu, meu anjo, és como o Céu
De Maomé. E se no branco têm contigo
Semelhança os espíritos, distingo:
O que o meu Anjo branco põe não é
O cabelo mas sim a carne em pé.

Deixa que minha mão errante adentre.
Atrás, na frente, em cima, em baixo, entre.
Minha América! Minha terra à vista,
Reino de paz, se um homem só a conquista,
Minha Mina preciosa, meu império,
Feliz de quem penetre o teu mistério!
Liberto-me ficando teu escravo;
Onde cai minha mão, meu selo gravo.

Nudez total! Todo o prazer provém
De um corpo (como a alma sem corpo) sem
Vestes. As jóias que a mulher ostenta
São como as bolas de ouro de Atlanta:
O olho do tolo que uma gema inflama
Ilude-se com ela e perde a dama.
Como encadernação vistosa, feita
Para iletrados a mulher se enfeita;
Mas ela é um livro místico e somente

A alguns (a que tal graça se consente)
É dado lê-la. Eu sou um que sabe;
Como se diante da parteira, abre-
Te: atira, sim, o linho branco fora,
Nem penitência nem decência agora.

Para ensinar-te eu me desnudo antes:
A coberta de um homem te é bastante.

Um poema às quartas

john-donne

THE FLEA.


MARK but this flea, and mark in this,
How little that which thou deniest me is ;
It suck’d me first, and now sucks thee,
And in this flea our two bloods mingled be.
Thou know’st that this cannot be said
A sin, nor shame, nor loss of maidenhead ;
Yet this enjoys before it woo,
And pamper’d swells with one blood made of two ;
And this, alas ! is more than we would do.

O stay, three lives in one flea spare,
Where we almost, yea, more than married are.
This flea is you and I, and this
Our marriage bed, and marriage temple is.
Though parents grudge, and you, we’re met,
And cloister’d in these living walls of jet.
Though use make you apt to kill me,
Let not to that self-murder added be,
And sacrilege, three sins in killing three.

Cruel and sudden, hast thou since
Purpled thy nail in blood of innocence?
Wherein could this flea guilty be,
Except in that drop which it suck’d from thee?
Yet thou triumph’st, and say’st that thou
Find’st not thyself nor me the weaker now.
‘Tis true ; then learn how false fears be ;
Just so much honour, when thou yield’st to me,
Will waste, as this flea’s death took life from thee.

A PULGA

Nota esta pulga, e nota, através dela,
Que o que me negas é uma bagatela;
Tendo sugado a mim, e a ti depois,
Nela se mescla o sangue de nós dois;
Sabes que isso não pode ser chamado
Defloração, vergonha, nem pecado;
Ela, no entanto, rude e ousada,
De sangue duplo se deforma empanturrada,
E, perto disso, o que desejo, ai! não é nada.

Pára! Três vidas poupa este momento,
Onde houve quase… oh, mais que um casamento.
Somos a pulga, e a nós ela é perfeito
Templo de núpcias e de núpcias leito;
Contra ti e teus pais, a união se deu
Nesse claustro murado em vivo breu.
Matando-me pela honradez,
Praticarás o suicídio a uma só vez,
E o sacrilégio,três pecados pelos três.

De púrpura manchaste, sem demência,
As unhas com o sangue da inocência?
Essa pulga seria tão daninha,
Só por te haver sugado uma gotinha?
Porém, exultas porque após tal morte
Nenhum de nós se mostra menos forte.
Bem, vê como o temor é ruim;
Perderás tanto de honra ao vires para mim.
Quanto de vida porque a pulga teve fim.

Trad. de Jorge de Sena

Um poema às quartas

johndonne

 

Holy Sonnet – X

Death, be not proud, though some have called thee
Mighty and dreadful, for thou art not so ;
For those, whom thou think’st thou dost overthrow,
Die not, poor Death, nor yet canst thou kill me.
From rest and sleep, which but thy picture[s] be,
Much pleasure, then from thee much more must flow,
And soonest our best men with thee do go,
Rest of their bones, and soul’s delivery.
Thou’rt slave to Fate, chance, kings, and desperate men,
And dost with poison, war, and sickness dwell,
And poppy, or charms can make us sleep as well,
And better than thy stroke ;  why swell’st thou then ?
   One short sleep past, we wake eternally,
   And Death shall be no more ;  Death, thou shalt die.

 

Não te orgulhes, ó Morte, embora te hão chamado
poderosa e terrível, porque tal não és,
já que quantos tu julgas ter pisado aos pés,
não morrem, nem de ti eu posso ser tocado.

Do sono e paz que sempre a teu retrato é dado
muito maior prazer se tira em teu revés,
pois que o justo ao deitar-se com tua nudez
ossos te deita e não seu esprito libertado.

Escrava és de suicidas, e de Reis, da Sorte;
Venenos, guerras, doenças são teus companheiros;
magias nos dão sonos bem mais verdadeiros,
melhor’s do que o teu golpe. Porque te inchas, Morte?

Despertamos no Eterno um breve adormecer,
e a morte não será, que Morte hás-de morrer.

(Tradução de Jorge de Sena)