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Mitologia Georgelucana

Eu fui desafiado pelo Igor Otávio, colega comentarista do blog Trivela, blogueiro e absolutamente xarope, a tecer algumas linhas sobre “O Poderoso Chefão” ou “Star Wars“, dois ícones da cultura pop ocidental das últimas décadas do século XX e início do século XXI.

Pois bem, não é com pouca vergonha que tive de admitir não ter assistido a saga dos Corleones, uma das maiores obras-primas cinematográficas já feitas. Mas não preciso repetir a história sobre quão poucos filmes eu assisto, blá, blá, blá… Pelo menos em matéria de obra-prima já tive meu quinhão de “Cidadão Kane“, esse sim um marco.

Mas “Star Wars” não. Essa hexalogia (is there such word?) já faz parte do meu cabedal de inutilidades nerds, culturalmente irrelevantes e de questionável qualidade. Mas… como é legal!

starwars

Não  vou perder meu (e teu) tempo falando de enredo, de efeitos visuais, de uma série de assuntos que já foram devidamente explorados por muita gente muito mais brilhante (e tecnicamente capacitada) que eu.

Mas aspectos também interessantes mas de certa forma ocultados já foram também brilhantemente explorados. Por exemplo, a construção de uma mitologia durante a saga de “Star Wars”.

Na Superinteressante já foi publicada uma reportagem que desvela as associações entre os personagens de “Star Wars” e os personagens da mitologia clássica. Sim. “Star Wars” é uma deliberada tentativa de se construir uma mitologia, assim como a saga Tolkeniana do “Senhor dos Anéis” o é, como a saga Lewisiana de “Nárnia” o é. Como as complicadíssimas histórias de super-heróis da Marvel e da DC Comics o são. Até aqui, nenhuma novidade.

Para quem quiser conferir, eis parte da matéria:

Guerra nas Estrelas , a maior de todas as sagas
Quais são os símbolos e mitos que compõem as aventuras criadas por George Lucas.
por Leandro Sarmatz / Luiz Iria

Entenda como a série Guerra nas Estrelas transformou-se em objeto de adoração mística de milhões em todo o mundo. Quais são os símbolos e mitos que compõem as aventuras criadas por George Lucas? Com você, os bastidores daquela que pode ser a primeira religião surgida na era do entretenimento

“Se há apenas um Deus, por que há tantas religiões?”, perguntou o menino de apenas 10 anos à mãe. Não se sabe a resposta que a senhora Lucas deu ao curioso filho. A do moleque todos nós sabemos. George Lucas criou sua própria religião.

Desde 1977, quando Guerra nas Estrelas ganhou as telas de cinema do planeta, legiões de fãs de todas as idades e credos são continuamente mesmerizadas a cada novo episódio – o mais recente deles, O Ataque dos Clones, já pode ser conferido em todo o Brasil – pelas aventuras intergalácticas de Luke Skywalker contra o tenebroso Darth Vader. Uma odisséia permeada de elementos caros ao imaginário pop: histórias em quadrinhos, faroestes e ficção científica a granel.

Mas os fãs também arregalam os olhos para um detalhe: mais do que qualquer outro artefato da indústria do entretenimento, a saga do diretor e produtor George Lucas parece recheada com o material de que são feitos os mitos: o eterno embate entre o Bem e o Mal, a iniciação do herói, a busca por um sentido universal. Tudo isso, é claro, hollywoodianamente empacotado com os últimos avanços em efeitos especiais e editado na medida para tirar o fôlego da audiência. Continua aqui.

Também não entrando no mérito da qualidade (seria simplesmente inaceitável cotejar Homero, Sófocles e Aristófanes com esses exemplos de businessmen que são Tolken e Lucas), deve ser considerado um fator que às vezes escapa da compreensão do fã mais voraz de “Star Wars”: a função do mito.

Qual a função de uma mitologia, quer seja ela grega, nórdica, bíblica, tolkeniana ou starwariana? Apenas uma: transmitir e valorizar os aspectos conservadores da sociedade. As crenças e culturas que servem como cimento social, que amainam as possíveis inquietações que suscitariam a insatisfação de classe. A ideologia dominante que naturaliza os aspectos da superestrutura da sociedade. Portanto, no caso de “Senhor dos Anéis”, “Crônicas de Nárnia” e “Star Wars”, as mitologias servem para perpetuar e naturalizar os valores do cristianismo.

Em “Nárnia” e “Senhor dos Anéis” essa intenção é clara e explícita, até pela militância religiosa de Lewis (anglicano) e Tolken (católico romano). Mas “Star Wars”, mesmo sem a expressa e intencional vontade de George Lucas se presta ao mesmo papel. Não apenas por colocar em palco a “eterna batalha entre o bem e o mal” (que chavão mais insuportável), mas por colocar essa batalha em termos éticos, espirituais e transcedentais, não em termos políticos e ideológicos.

A esperança messiânica de “Star Wars” é tão evidente que até a concepção virginal existiu. Embora o messias prometido, no caso Anakin Skywalker, tenha cometido o pecado original (passou pro lado negro da força), a redenção lhe foi possibilitada através do sacrifício do filho (Luke Skywalker). Os lados escuro e claro da força são a representação das forças divinas e satânicas segundo a teologia católica medieval, que colocava Deus e Satanás como forças antagônicas e equivalentes que disputavam a alma dos mortais na terra. Bem diferente da concepção protestante de soberania divina, elaborada por Lutero e desenvolvida por Calvino (essa concepção de forças equivalentes foi retomada no protestantismo através do pentecostalismo – ironicamente mais próximo do catolicismo romano do que os pentecostais gostariam de admitir). E o imperador Palpatine, com sua lábia e sua sedutora oferta de poder, é a mais bem acabada representação de Satanás na cinegrafia recente.

Religião católica para uma sociedade secular. Por mais que nossos jovens livres-pensadores queiram proclamar sua emancipação em relação aos valores morais cristãos, não conseguem.

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Distopias científicas

A alguns anos eu tive uma matéria na faculdade que foi deveras interessante. Eu estudei a literatura de ficção científica. Confesso que relutei pra burro, pois a professora que havia ministrado essa disciplina anteriormente se concentrara no romance inglês dos séculos XVIII e XIX. Eu, pernóstico e metido a besta que só, preferia esperar que estudar esse treco subcultural que é a ficção científica. Mas na falta de opções, encarei o trem.

Entre os diversos romances que li no decorrer do semestre, como o ótimo Dispossessed (Os Despossuídos) de Ursula K. Le Guin, The Man in the High Castle (O Homem no Castelo Alto) de Phillip K. Dick e uma divertidíssima história que chegou a lembrar O Efeito Borboleta, só que com muito mais inventividade e conteúdo chamado The Lathe of Heaven (não conheço tradução pro português) também da Ursula Le Guin, o melhor de todos foi o calhamaço Red Mars (Marte Vermelho) de Kim Stanley Robinson.

Red_mars

 

E Red Mars, literariamente falando, é uma delícia. Embora seja um catatau de 600 páginas, é ao mesmo tempo cativante e sofisticado. A multiplicidade de personagens, o ponto de vista que flutua de um observador privilegiado ao outro, o tratamento não-linear dado ao tempo, tudo indica uma composição bastante cuidadosa e elaborada.

E os temas são tratados nessa alegoria política que confronta os modelos conservadores, liberais e capitalistas estadunidenses com alternativas socialistas e anarquistas, bem ao estilo do autor, de maneira a não suscitar maniqueísmos ou simplificações excessivas.

Bastante simplificadamente, o livro trata do projeto terráqueo de colonização do planeta vermelho, desde a primeira expedição científica para preparar o terreno (a terraformação do planeta) para receber seus habitantes, passando pelos conflitos que essa empreitada produz, culminando em uma guerra entre “terráqueos”, ligados às megacorporações que financiam e exploram economicamente os recursos de Marte, e “marcianos”, os primeiros colonos que se instalaram no planeta visando o progresso científico e o bem-estar da humanidade.

O fim (na verdade um interregno, pois o livro faz parte de uma trilogia que cobre um período de cerca de 200 anos) pode ser visto como uma representação da impossibilidade de solução desse conflito, assim como vemos na nossa história terrestre. Onde a solução escapista, mística e messiânica acaba seduzindo um grande número de pessoas.

Porém, diferentemente do que Fukuyama previu, não chegamos ao fim da história, nem aqui e nem em Marte, pois ainda há os dois volumes finais da saga, Blue Mars e Green Mars.

1984 versus Brave New World

Esse post eu chupei do Blog do Mr.X. Um blog de extrema-direita quase chauvinista. Mas este post é precioso.

“1984” versus “Brave New World”

George Orwell ou Aldous Huxley, quem acertou mais? (clique na figura para ampliar.) Ou, para uma comparação mais elaborada entre as duas obras e seus acertos e erros, leia o artigo do Theo a respeito.