Distopias científicas

A alguns anos eu tive uma matéria na faculdade que foi deveras interessante. Eu estudei a literatura de ficção científica. Confesso que relutei pra burro, pois a professora que havia ministrado essa disciplina anteriormente se concentrara no romance inglês dos séculos XVIII e XIX. Eu, pernóstico e metido a besta que só, preferia esperar que estudar esse treco subcultural que é a ficção científica. Mas na falta de opções, encarei o trem.

Entre os diversos romances que li no decorrer do semestre, como o ótimo Dispossessed (Os Despossuídos) de Ursula K. Le Guin, The Man in the High Castle (O Homem no Castelo Alto) de Phillip K. Dick e uma divertidíssima história que chegou a lembrar O Efeito Borboleta, só que com muito mais inventividade e conteúdo chamado The Lathe of Heaven (não conheço tradução pro português) também da Ursula Le Guin, o melhor de todos foi o calhamaço Red Mars (Marte Vermelho) de Kim Stanley Robinson.

Red_mars

 

E Red Mars, literariamente falando, é uma delícia. Embora seja um catatau de 600 páginas, é ao mesmo tempo cativante e sofisticado. A multiplicidade de personagens, o ponto de vista que flutua de um observador privilegiado ao outro, o tratamento não-linear dado ao tempo, tudo indica uma composição bastante cuidadosa e elaborada.

E os temas são tratados nessa alegoria política que confronta os modelos conservadores, liberais e capitalistas estadunidenses com alternativas socialistas e anarquistas, bem ao estilo do autor, de maneira a não suscitar maniqueísmos ou simplificações excessivas.

Bastante simplificadamente, o livro trata do projeto terráqueo de colonização do planeta vermelho, desde a primeira expedição científica para preparar o terreno (a terraformação do planeta) para receber seus habitantes, passando pelos conflitos que essa empreitada produz, culminando em uma guerra entre “terráqueos”, ligados às megacorporações que financiam e exploram economicamente os recursos de Marte, e “marcianos”, os primeiros colonos que se instalaram no planeta visando o progresso científico e o bem-estar da humanidade.

O fim (na verdade um interregno, pois o livro faz parte de uma trilogia que cobre um período de cerca de 200 anos) pode ser visto como uma representação da impossibilidade de solução desse conflito, assim como vemos na nossa história terrestre. Onde a solução escapista, mística e messiânica acaba seduzindo um grande número de pessoas.

Porém, diferentemente do que Fukuyama previu, não chegamos ao fim da história, nem aqui e nem em Marte, pois ainda há os dois volumes finais da saga, Blue Mars e Green Mars.

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Uma resposta para “Distopias científicas

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