Os políticos anos 80

Ah… anos 80 estão na moda. Em São Paulo existe uma impagável festa em homenagem a esse período, a Trash 80’s. Nunca me atrevi e tão pouco o farei, afinal, ouvir Sylvinho Blau Blau, Sérgio Mallandro e Sidney Magal é demais para meu estômago. A moda new wave também reaparece em coleções de grifes por aí. E até a música dá seu ar, com bandas como Stokes, Libertines, Franz Ferdinand e outras com um guitar rock que muito lembra o rock inglês da década de 80.

Porém existe uma diferença fundamental entre essa onda de revival e seu original. E entre os anos 80 e a década que os seguiram. A militância política cultural, principalmente no campo musical.

Os principais expoentes musicais dos anos 80, embora surgidos no caldo do punk, pós-punk e new wave do final dos anos 70, não só tinham posições políticas bastante claras como nunca se furtaram em expô-las e militar em sua defesa.

A mais clássica banda da década, The Smiths, embora seja atualmente conhecida por ser patriarca dos emos com sua choradeira pseudo-emotiva, sempre se caracterizou por suas posições, principalmente pela militância vegetariana e republicana de Morrisey. Seu segundo álbum, Meat is Murder trata do primeiro tema. The Queen is Dead, do segundo. Aliás, a letra de Bigmouth Strikes Again é uma hilária reação à celeuma causada por uma entrevista de Morrisey, onde ele lamentou o fato de Mrs.Tatcher ter escapado viva de um atentado.


(The Smiths – Bigmouth Strikes Again)

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Alguém ainda acha que a letra de “Panic” realmente fala sobre o cenário musical inglês?

Além de Smiths, Gang of Four tinha influências da Escola de Frankfurt e os setentistas do The Clash lançavam seu álbum Sandinista! representavam posição à esquerda do espectro político britânico.


(Gang of Four – To Hell with Poverty)

O Simple Minds, grupo que começou punk, passou pela new wave, new romanticism até chegar no rock de arena, no final da década abraçou causas políticas influenciados por Peter Gabriel (este um conhecido militante, principalmente na letra de “Biko”) realizou excursões com artistas que defendiam causas sociais promovendo a Anistia Internacional, além de lançar sua famosa canção “Mandela Day“.


(Simple Minds – Mandela Day)

Mesmo o Iron Maiden, principal expoente do heavy metal inglês (gênero muito pouco associado a causas sociais e conscientização política), cuja temática lírica girava em torno do ocultismo, literatura gótica, fantasia e medievalismo, teve seus arroubos de protesto político. Senão em suas letras, ao menos na arte de dois dos seus singles do início da década de 80: Women in Uniform e Sanctuary. A capa de Women in Uniform mostra Eddie, o mascote da banda, abraçado com duas mulheres enquanto uma Margareth Tatcher uniformizada e armada com um fuzil os espreita na esquina. E Sanctuary representa Eddie esfaqueando a então primeiro-ministra do Reino Unido enquanto ela rasgava cartazes de divulgação da banda.

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Exemplos de bandas com histórico de militância política nos anos 80 existem à profusão, passando pelos católicos messiânicos do U2, Bob Geldof e o Live Aid, inclusive com iniciativas como USA for Africa e Artists United Against Apartheid, formado por diversos artistas pop cuja trajetória dificilmente seria associada com ativismo.


(Artists United Against Apartheid – Sun City)

De qualquer forma essa efervescência simplesmente minguou com o início dos anos 90, onde uma atitude mais desengajada, hedonista ou mesmo consumista passou a ser a norma. Jesus Jones, EMF, Faith No More e Oasis representam essa mudança de atitude no rock a partir de 1990.

Quer tenha se dado pela saturação do discurso político, solapado inclusive pelas crises dos partidos de esquerda europeus e pelo fim das utopias socialistas com a queda do muro de Berlim, quer pela cooptação do rock pelo capitalismo consumista, onde as bandas passam a representar ideais de consumos e marcas a serem compradas por uma juventude mais e mais centrada na auto-satisfação, fato é que o rock atualmente está longe de representar uma forma de questionamento. Ao contrário, é apenas mais um dos produtos da indústria do entretenimento, como os video-games, os filmes de Holywood e os reality shows.

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2 Respostas para “Os políticos anos 80

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