A vida é chata, mas a morte, um tédio

Will Self é um dos escritores mais celebrados da nova safra inglesa. Midiático, foi uma espécie de sex symbol cult do início dos anos 90. Talentoso com as palavras, também fez carreira como jornalista, embora seu episódio mais famoso na área tenha sido ter sido demitido do jornal “The Observer” porque, enquanto cobria a eleição para primeiro ministro em 1997, cheirou heroína no jato de campanha de John Major.

Mas Self tem talento com as palavras. E um certo pendor para a sátira grotesca, tanto que em seu primeiro romance, Cock and Bull, um homem e uma mulher desenvolvem órgãos sexuais opostos, em Great Apes (Grandes Símios) um artista acorda em um mundo onde os chimpanzés são racionais e os humanos não (hum… já vi isso antes) e neste How the Dead Live (Como vivem os mortos) a personagem principal, Lily Bloom, vive (quer dizer, morre) em um subúrbio de Londres após sucumbir ao câncer com um feto abortado e calcificado, seu filho de nove anos morto décadas atrás e três criaturas nojentas feitas de sua própria gordura, enquanto observa a não muito diferente vida dos vivos.

Se a imagética do livro é riquíssima, cheia de alusões literárias e culturais, metáforas criativas, o enredo e a construção dos personagens carece de cuidados.

Após morrer, Lily Bloom (Bloom, sacou? Maneiro, esse Self) passa a flanar pelas ruas de Londres, principalmente em seu subúrbio Dulston (Dulston, mistura de dull com Dalston), de onde a velha morta tece seus ácidos comentários anti-semitas (ela é judia americana, como a mãe de Self), criticando a peruíce emergente de sua filha Charlotte, a auto-destruição junkie de sua filha mais nova Natasha, o insuportável peso do ser classe média consumista e vazio nessa virada de século, enfim.

Mas se o mote é excelente, a realização, principalmente da personagem, poderia ter recebido melhor tratamento. A acidez, a falta de envolvimento emocional, a distância em relação às próprias filhas e os comentários em relação à vida sexual (ou falta de) dela e das próprias filhas parecem deslocados na boca da velha judia sexagenária.

De qualquer forma é uma leitura engraçadíssima e tem suas qualidades. Principalmente o retrato da atual vida londrina, perdida entre a falta de significado e o consumismo (e auto-consumismo) desbragado.

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2 Respostas para “A vida é chata, mas a morte, um tédio

  1. Bem lembrado, Fábio M, Planeta dos Macacos! Bem lembrado!

    mas, sobre o post, ou melhor, quase isso: levei maior susto! hehehe
    pensei que tratava-se de alguém que tinha morrido… quer dizer, no fundo é, e não é, bem.. no final é uma dica literária. rsrs

    valeu cara!

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    E uma boa dica literária! O livro vale a pena. É engraçado, bem feitinho… Espero ler Grandes Símios para pescar outras semelhanças com “Planeta dos Macacos”.

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