Poeta, cantor, intérprete, cristão

Jorge Camargo é da quase “velha guarda” da música evangélica. Quando começou sua carreira, nos já quarentões Vencedores Por Cristo, foi considerado um virtuose precoce, que cantava, tocava, compunha antes dos vinte anos de idade.

O tempo passou e o talento amadureceu.

Hoje, dado o estado quase comatoso da música evangélica (apesar da aparente pujança mercadológica e da profusão de novos lançamentos), onde de um lado há a indigência musical, de outro, a pobreza absoluta lírica e de outro a deturpação do evangelho, ouvi-lo é praticamente um oásis no meio do deserto da mediocridade.

Mas além de compor e cantar, Jorge tem se dedicado a escrever, a traduzir e a se aprimorar intelectualmente. Ultimamente, além de seus álbuns, livros traduzidos e outros, tem escrito na revista Ultimato, de onde eu retirei a meditação abaixo:

Um sonho de igreja
Jorge Camargo

Em 2001 passei aproximadamente um mês na África, especificamente em Angola, na cidade do Lubango.

Na época o país ainda estava em guerra (que terminou em abril de 2002). A cidade, como o restante da nação, sofria as mais variadas consequências do conflito que se iniciara: primeiro em busca da independência de Portugal, depois descambou num confronto fratricida.

Em meio a tantas dificuldades, observei que havia muitas igrejas de origem protestante na cidade representando várias denominações. Na comunidade onde o grupo que eu liderava trabalhou, muitas eram as atividades desenvolvidas em prol da comunidade como um todo. E em uma cidade sem qualquer tipo de opção de lazer e de cultura, a igreja se tornara um ponto de encontro, um pólo produtor de atividades culturais em suas mais variadas formas: música, dança, teatro, artesanato etc. Um autêntico oásis num deserto de opções e de carências.

No meio daquele caos social, tive um vislumbre do que entendo ser a contribuição da igreja ao mundo. Sonhei uma igreja. O que seria de nós sem a possibilidade de sonhar?

Vamos ao sonho:
Uma igreja cujo templo está localizado no centro da cidade, de fácil acesso e muita visibilidade.

Suas portas estão abertas diariamente (ao contrário de muitos edifícios religiosos que funcionam somente nos dias de culto e que no restante do tempo permanecem trancafiados). Além dos cursos profissionalizantes, do atendimento aos necessitados, das parcerias com a prefeitura, o estado, o governo federal e a iniciativa privada, a igreja também possui um intenso calendário cultural que, diferente de outras que utilizam somente as datas cristãs para promover seus musicais, abre o espaço de seu imenso palco a uma programação intensa que contempla todos os estilos de música. Às quintas, por exemplo, uma camerata se apresenta no templo com repertório barroco e entrada franca, de modo que os moradores da cidade que apreciam música erudita têm oportunidade de assistir um concerto gratuito, além de apreciar os vitrais da velha catedral protestante, e tomar um delicioso café no salão, servido pelos membros da comunidade, que usam esse tempo como oportunidade para servir e estabelecer amizades. Sem proselitismo. Sem forçar a barra. Amizade genuína e desinteressada.

Às sextas as noites são de rock pesado. Os adolescentes e jovens da igreja, instruídos que são a cultivarem amizades fora dos muros de seu templo, veem na programação mensal, que inclui o concerto de rock, uma oportunidade de convidar seus amigos a conhecer o espaço e ouvir a música que ambos apreciam. E assim estarem mais perto. Curtirem a oportunidade de ser gente no meio de gente. Bem ao estilo de Jesus, que amava as festas e a possibilidade de estar cercado de pessoas.

No rodízio de programação incluem-se shows de MPB, música alternativa, música instrumental de estilos variados, palestras sobre música e cultura, musicoterapia etc.

Algumas manhãs e tardes são reservadas às exposições: pintura, escultura, gravura, fotografia.

Há também as mini-temporadas teatrais, os saraus, com leitura de poemas, os lançamentos de livros.

Quantas opções de difusão de arte e cultura forem concebidas e viabilizadas no espaço singelo de um templo! No espaço do coração e da mente arejada de uma comunidade que existe para servir o mundo e contagiá-lo com boas obras, serviço abnegado e amor sem limites.

Estou perto de despertar de meu sonho quando alguém toca em meu ombro e diz: “Quero agradecer ao pastor da igreja por abrir as portas do templo e do coração para me receber. Não imaginei que esse espaço pudesse servir a tantas possibilidades. Qual é mesmo o horário dos cultos aqui?”.

Acordo acreditando que a igreja ainda possa ser lugar de encontro, de acolhimento, de sorriso, de mentes e corações desarmados.
Mas tudo isso ainda é apenas um sonho.

• Jorge Camargo, mestre em ciências da religião, é intérprete, compositor, músico, poeta e tradutor. http://www.jorgecamargo.com.br

http://www.ultimato.com.br/?pg=show_conteudo&util=1&categoria=3&registro=1143

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2 Respostas para “Poeta, cantor, intérprete, cristão

  1. Meu caro xará, o complicado está num pequeno detalhe: se perguntarmos a 10 pessoas em nosso meio quantas delas desejam uma Igreja atuante para o público externo, 9 responderão “para quê?”, e ao menos 4 dirão que seríamos loucos por inserir a comunidade na Igreja.

    Depois perguntam porque não crescemos, e porque os neopentecostais prosperam; é fácil, se os crentes não louvam, as pedras farão isso por eles – ou estaria eu errado em dizer isso?

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Não sei se estaria “errado”, mas eu acho que os neopentecostais estão mais é para a população de Jerusalém na semana santa: gritam “hosana” na entrada triunfal para depois dizer: “soltem Barrabás”. Pois a espiritualidade consumista e ensimesmada neopentecostal insere a igreja sim, talvez não na comunidade, mas no mercado consumidor.

    Por outro lado, caro xará, a coisa tá preta. Tá preta na minha Metodista, na tua Presbiteriana do Brasil. Isso porque é a “banda boa”. Imagina na “banda podre…”

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