Paper planes

Um dos melhores filmes que assisti neste ano é “Quem quer ser um milionário” (Slumdog Millionaire), papão do Oscar deste ano.

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Claro, como não poderia deixar de acontecer,  a crítica simplesmente assassinou o filme. “História de amor”, “como o amor supera as dificuldades”, “como o esforço compensa”. Meudeudocéu… quanta papagaiada.

E a chave interpretativa é simplesmente a cena final. Os créditos. A dancinha a lá Bollywood mostra que quem acreditou no melodrama fez papel de tonto. Tão iverossímil quanto qualquer dramalhão bollywoodiano foi o filme do Boyd. E é isso mesmo. Explicitamente iverossímil, quase. Ou alguém acha que um órfão favelado irá realizar sua love story, seu amor impossível com a namoradinha do gangster fodão, que seu irmão mau caráter terá a redenção final, que o malvado pagaria por toda sua malvadeza e o mocinho e a mocinha (sofredores que só eles) teriam finalmente encontrado a fortuna e a felicidade que tanto merecem?

Assim como Charles Dickens, a opção pelo sentimentalismo (li em algum canto da net que o filme é uma espécie de “Oliver Twist encontra com Bollywood”) foi o que o tornou palatável. Insidiosamente essa polaroid político-econômica (e que mostrou o lado feio de tudo isso, diferentemente do quase – quase? – chapa-branca e purpurinado Vicky Cristina Barcelona) penetrou na festa do Oscar, que premia babaquices monumentais como Shakespeare Apaixonado, e rapou a mesa, deixando os bonitinhos de Hollywood com cara de tacho.

Só que o filme já está velho e muita coisa interessante já foi dita (e muito melhor do que eu diria, inclusive) sobre o filme. Porém o que mais me chamou a atenção não foi o que eu vi, mas o que ouvi.

E a responsável por isso chama-se M.I.A. A cena que praticamente resume o filme e suas intenções tem como trilha sonora Paper Planes, canção do último álbum de M.I.A.

Pra entender o filme, precisa entender a canção, e pra entender a canção, precisa entender M.I.A.

Mathangi “Maya” Arulpragasam é mais conhecida em terras tapuias por ter sampleado uns lances de funk no seu primeiro álbum, mas ela é muito mais que isso. Ela é descendente de tâmil, uma minoria étnica no Sri Lanka cujo movimento separatista foi recentemente aniquilado e seu pai  se tornou membro da guerrilha tâmil. Sua infância foi uma sucessão de viagens, mudanças, fugas, até que a família se estabeleceu definitivamente em Londres.

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E a canção é auto-explicativa, com seus ruídos de revólveres e caixas registradoras. Não por acaso o gângster do filme se torna um grande empresário do ramo imobiliário – assim como os colonizadores se tornaram grandes magnatas nas antigas colônias. Tão ou mais fundamental quanto o filme.

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2 Respostas para “Paper planes

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