Democratizar o dinheiro, a terra, a palavra

O Emir Sader é um dos mais importantes pensadores de esquerda do Brasil. Não é pouco, ainda mais ao observar o time das idéias no lado direito do campo, profundamente enfraquecido após a morte de Roberto Campos e Paulo Francis, por exemplo. Afinal, depender de Olavo de Carvalho, um parnasiano fora da realidade que mistura fanatismo religioso com reacionarismo recalcitrante, ou Reinaldo Azevedo (nem dá para citar o bobo-da-corte Diogo Mainardi) é realmente muito pouco.

Mas a pobreza da inteligentsia da direita (embora também não dê para elogiar a produção de esquerda com tanto entusiasmo assim) é até explicável pela total falta de necessidade de haver uma contundente defesa do ideário conservador. Não há. Há um aparato ideológico tão coesamente militante, formado pelos meios de comunicação que tratam de naturalizar o pensamento conservador que o trabalho hercúleo de se desmontar a construção ideológica é dos pensadores de esquerda, não o contrário.

Daí a importância do professor da UFRJ. Ocupa um espaço antes compartilhado com outros nomes da reflexão de esquerda, como o Idelber Avelar . Eu nem sempre concordo com ele. Não que eu discorde de seu radicalismo. Ao contrário. Considero imprescindível  a existência do pensamento radical no campo das idéias, até como uma vacina contra o excessivo pragmatismo eleitoral e governamental. Discordo de sua falta de crítica em relação a Bolívia, considerada muitas vezes como uma alternativa, não como um governo populista e autocrático. Enfim… nada é perfeito…

Mas esta coluna de Emir, publicada no site Carta Maior, acertou na mosca. Ainda mais na época de vuvuzelas midiáticas e cala boca galvão/dunga/tadeu schimidt e outras bobagens na mídia tuiteira.

Democratizar o dinheiro, a terra, a palavra

O problema maior da transição da ditadura à democracia no Brasil é que a democracia se restringiu ao sistema político. Não foram democratizados pilares fundamentais do poder na sociedade: terra, bancos, meios de comunicação, entre outros.

O Brasil da democracia teve assim elementos fortes de continuidade com o da ditadura. A política de meios de comunicação, por exemplo, nas mãos de ACM, o ministro de Sarney, completou a distribuição clientelística de canais de radio e televisão e favoreceu a consolidação do monopólio da Globo – os próprios Sarney e ACM, proprietários de emissoras ligadas à rede da Globo.

Não se avançou na reforma agrária, nem foi tocado o sistema bancário. É como se a ditadura tivesse sido apenas uma deformação de caráter político aos ideais democráticos. Mas nem os agentes imediatos do golpe e sujeitos políticos do regime – as FFAA – foram punidos. Como se tivesse sido “um mal momento”, até mesmo “um mal necessário”, como diriam as elites políticas tradicionais, que seguem por ai.

No entanto o golpe e a ditadura foram extraordinariamente funcionais ao capitalismo brasileiro. O processo que se desenvolvia de democratização política, econômica e social do país não interessava nem aos capitais estrangeiros, nem aos grandes capitais brasileiros. Estes, concentrados em áreas monopólicas, não se interessavam no enorme mercado popular urbano que o aumento sistemático do poder aquisitivo dos salários propiciava, nem no mercado popular rural, a que a reforma agrária apontava.

O eixo da indústria automobilística no setor do grande capital industrial e outros setores que produziam para os setores da classe média, para a burguesia e para a exportação, se coligaram com os golpistas no plano político, para impor, mediante o golpe, um modelo que atacava duramente o poder aquisitivo dos salários.

O golpe os atendeu imediatamente, com intervenção em todos os sindicatos e com a política de arrocho salarial. Foi uma “lua-de-mel” para os empresários, uma super exploração do trabalho, mais de uma década sem aumento de salários, sem negociações salariais. Bastaria isso para entender o caráter de classe do golpe e do regime e militar.

A dura repressão aos sindicatos e a todas as formas de organização do movimento popular contaram com o beneplácito do silêncio dos órgãos de comunicação, que pregaram o golpe e apoiaram a instalação do regime de terror que comandou o país por mais de duas décadas.

A democracia reconheceu o que os trabalhadores – com os do ABC na linha de frente – haviam conquistado: a legalização da luta sindical, junto ao direito de existência de centrais sindicais, a legalização dos partidos, o direito de organização dos movimentos populares, entre outras conquistas.

Mas os pilares do poder consolidado pela ditadura ficaram intocados. Ao contrário, seu poder monopólico sobre a terra, o sistema bancário, os meios de comunicação, se fortaleceram.

Esses temas ficam pendentes: quebrar o monopólio do dinheiro, da terra e da palavra – como algumas das grandes transformações estruturais que o Brasil precisa para construir uma sociedade econômica, social, política e culturalmente democrática.

Postado por Emir Sader às 12:13

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4 Respostas para “Democratizar o dinheiro, a terra, a palavra

  1. Roberto Campos, auto-denominado paladino do liberalismo e da livre-iniciativa, trabalhou para governos autoritários e ditaduras, ajudou a elaborar planos de metas e serviu a regimes planificadores e centralizadores.

    É, pois, algo que se aproxima de uma impostura intelectual.

    Paulo Francis não é isso, está mais para uma farsa, um divertissement. Depois de uma militância de esquerda inspirada intelectualmente por Bernard Shaw e Trotski (segundo ele mesmo), parece ter-se entediado com tudo e deu asas à sua paixão pelo teatro criando um personagem de direita, reacionário e preconceituoso. Ninguém com o juízo perfeito jamais o levou a sério, mas ele parece ter-se divertido muito – até porque ganhou uma boa grana nesse período. A vida toda teve lá suas qualidades.

    O pensamento de direita brasileiro, até mesmo pela história politica brasileira, sempre se empenhou mais em defender e justificar as ditaduras que iam e voltavam.

    Não temos, nem tivemos, muita gente pregando com consistência o liberalismo, a real medida do tamanho do estado e do seu papel e função como precursor e/ou parceiro. Uma direita realmente ideológica, com pés firmes na história e na realidade brasileiras, obrigaria a uma melhora no pensamento de esquerda. E vice-versa.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Entendo.

    E aí a questão bate mais fundo. Se Francis e Bob Fields parecem gênios comparados com Mainardi, Azevedo e Olavão, meu Deus… o nível da inteligentsia de direita está abaixo de zero.

    Pena que, como você mesmo disse (e eu também), o da esquerda não é lá muito melhor.

    Daí a necessidade de se dar valor às vozes que clamam no deserto.

  3. Essas colocações de Emir Sader são pertinentes. Demonstram, entre outras coisas, que, se estamos num processo de reforma do capitalismo, é muito tímida essa reforma, o que compreende-se.

    São estruturas, grupos de pressão e hegemonias surgidos e/ou consolidados durante nossos períodos ditatoriais, especialmente o último, com a particularidade de que alguns de seus principais defensores e protagonistas passaram a integrar a aliança que derrotou (!) a ditadura militar, atuando também como peças chaves nos governos seguintes, seja o da reforma econômica (FHC) ou aquele de que esperamos, pelo menos, algo parecido com uma reforma do capitalismo brasileiro, o do PT.

    Bom, pode ser que esteja acontecendo alguma coisa e no calor dos acontecimentos não dá para ver com muita nitidez. O tempo deverá esclarecer isso.

    No que concerne ao pensamento atual da esquerda brasileira, e talvez o próprio Sader esteja enquadrado nessa situação, há que se ressaltar a sua reticência na defesa da democracia quando estão em jogo Hugo Chavez e Fidel Castro.

    Talvez seja compreensível relevar o caso cubano, já que Fidel Castro é a figura histórica de sempre e ainda leva consigo a chama do anti-americanismo (a doença infantil das esquerdas), mas o silêncio em relação a Chavez é simplesmente desmoralizante.

    O venezuelano não tem qualquer compromisso com o processo democrático. Tem, sim, aquele defeito comum a políticos e militares: uma certeza da própria indispensabilidade a qualquer processo, e a democracia apanha com isso, como tem apanhado.

    A nossa esquerda não pode fugir à responsabilidade de encarar com senso crítico essa questão sob pena de colocar em dúvida a sua convicção na democracia como valor universal.

  4. Fabio Martelozzo Mendes

    Bem posto, Anrafel.

    Concordo sobre o Chavez. Por outro lado, muito embora tudo isso seja verdadeiro, que estamos vendo é uma ditadura populista e não um governo revolucionário, que é um ditador de araque, etc. e tal.

    Porém, a alternativa a Chavez é podre, dez vezes pior que Chavez. E aí? Apoiamos Chavez? Não, claro que não. Uma democratização completa, econômica, ideológica exige a democracia política.

    Falta esse viés crítico na esquerda brasileira. Numa esquerda esquerda, pois quando há a crítica, o que há é uma esquerda de araque, tipo PPS, que criticava as mazelas do governo Lula mas se alia ao que há de mais retrógrado nas eleições presidenciais, ao PSDB, ao DEM e ao Roberto Jefferson.

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