O país do futebol?

Na semana passada me indignei com um absurdo sintoma do doente e combalido futebol brasileiro: o aluguel de times de futebol. E nem estava me referindo aos novíssimos times de prefeituras, de agentes e empresários (embora estes sejam a metástase do fenômeno do aluguel de times de futebol), mas dos times do interior que, por disputarem um calendário quebrado e desconexo, não possuiam mais elenco, montando um time a cada quatro ou seis meses, abandonando categorias de base e servindo de vitrines de empresários.

Mas há outros aspectos que me intrigam nessa nossa cultura futebolística, na cultura do auto-intitulado “país do futebol”.

Um fenômeno interessante atual é a torcida por times estrangeiros.  Fenômeno impulsionado pela internet, tvs por assinatura e video-games, além de uma estratégia de marketing excelente que transforma os clubes europeus em marcas globais que competem num mercado mundial ávido por futebol e que nossos clubes, graças a nosso calendário imbecil , não podem participar. Mas o interessante é que essa torcida “virtual”, torcida por um time que não faz parte do espaço geográfico do torcedor (portanto, só podendo ser exercida “virtualmente”, através dos meios de comunicação), é um fenômeno bastante anterior no futebol brasileiro.

Afinal, na década de 50, com a expansão do rádio e dos programas de integração nacional, o futebol carioca se transformou num fenômeno de massas. Sobretudo no nordeste. Em muitas cidades do nordeste existem mais torcedores de Flamengo, Fluminense, Vasco e Botafogo que de seus clubes locais. Há também o fenômeno do “torcedor de dois times”, o gajo que torce pelo time de sua cidade e também pelo time do “sul”. E há os engraçadíssimos “filhotes”, como o Botafogo da Paraíba, o Flamengo do Piauí e o Fluminense da Bahia. Esquecendo-se que Flamengo e Botafogo são nomes dos bairros onde tais clubes foram fundados e que Fluminense é o nome que se dá ao nascido ou habitante do Estado do Rio de Janeiro.

Mas isso não se restringe ao Nordeste. No interior de São Paulo há mais torcedores dos clubes da capital que dos clubes das cidades interioranas. No norte do Paraná há muitos torcedores de Palmeiras e Corinthians, enquanto no sul do Paraná e em Santa Catarina há muitos torcedores de Grêmio e Internacional.

Ora, sem torcida, como esperar que o futebol do interior do Brasil sobreviva? Não há time que se mantenha sem torcedores que comprem seus ingressos, suas camisas, seus produtos licenciados. Mas muitas vezes o interiorano prefere a experiência de se torcer por um grande e vitorioso time da capital a se ligar ao clube de sua cidade.

Portanto, clubes como Cardiff City, Watford, Middlesbrough e Leicester City, todos da segunda divisão inglesa, conseguem levar público médio em torno dos 20.000 por partida, enquanto Santos, Santo André, Botafogo e Goiás, todos times de grandes e populosos centros e disputando a primeira divisão, não chegam nem nos 15.000 pagantes.

Ora, se a cereja do bolo, a primeira divisão, não atrai um público decente, o que dizer dos times pequenos do interior do Brasil?

Tanto que 17 dos 20 clubes da série B do Brasileirão tiveram média de público inferior aos 10.000 torcedores.

Sim, é verdade que o processo de “virtualização” da torcida não é um fenômeno unicamente brasileiro. Tanto que a Juventus de Turin tem, estimadamente, cerca de um terço dos torcedores italianos como seus simpatizantes, e Manchester United e Liverpool tem mais torcedores na Inglaterra que moradores em suas cidades. Mas o fenômeno do abandono dos times locais pelos times mais glamourosos é bem mais evidente no Brasil.

Portanto, embora atraiam a antipatia geral, há de se dar ouvidos a jornalistas esportivos que não consideram o Brasil como O país do futebol. É o país onde se joga o melhor futebol, mas argentinos, italianos, ingleses e alemães gostam mais do esporte que a maioria de nós, brasileiros. Tanto que na mais recente pesquisa sobre torcidas no Brasil, 25% da população se declarou não torcedora de nenhum clube e que não gostam de futebol. Brasileiro, na verdade, não gosta de futebol. Gosta do seu time. E brasileiro não gosta de esporte. Gosta de torcer pelo vencedor. E esse fenômeno explica a “febre” do tênis durante o auge do Guga Kuerten e depois seu abandono, a “febre” da ginástica olímpica na época de Daiane dos Santos, para depois espezinhá-la e debochar dela ao não conseguir uma medalha olímpica, da “febre” da Fórmula Um na época de Senna e Piquet, seguida do deboche que beira o mau-caratismo em relação ao Barichello (outros países tiveram pilotos que ganharam menos, como o italiano Ricardo Patrese ou o austríaco Gerhard Berger, sem que eles fossem tão vitimados pela própria população).

Anúncios

9 Respostas para “O país do futebol?

  1. Olá Fabio,

    Esse dado sobre o percentual de brasileiros que não gostam de futebol é bastante interessante. Você tem os dados equivalentes da Inglaterra e Itália, por exemplo? Seria providencial para efeito de comparação.
    Particularmente, acredito que com as ridículas condições atuais (preço dos ingressos, transporte, horários dos jogos, oferta de jogos na TV e, sobretudo, segurança) oferecidas aos torcedores brasileiros, a frequência nos estádios é até alta por aqui. Para se ter uma ideia, antes do Relatório Taylor, a média de público no campeonato inglês era bem próxima àquela que temos por aqui hoje. E isso não é coincidência…

    Abraço.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Certamente Michel. O público do futebol até que é alto no Brasil, dadas as condições oferecidas ao torcedor.

    Mas outros aspectos que eu questionei é esse “abandono” dos clubes do interior por parte do torcedor e a adoção dos clubes das capitais. Não é só culpa do torcedor, claro. Ele reage à condição geral. Mas esse fenômeno é mais observável no Brasil que em outros países.

    Abraços.

  3. O futebol é hoje um esporte apreciado pela televisão. Na década de 70, quando as populações das capitais eram bem inferiores às de hoje, públicos de 70 ou 80 mil pessoas nos estádios eram comuns. Mas as coisas foram ficando mais complicadas nas cidades e extremamente mais fáceis na televisão.

    As capacidades dos estádios foram reduzidas, os preços dos ingressos aumentaram, em alguns casos assustadoramente. Muita gente espera esgotar o contingente de entradas esgotar e vai assistir ao jogo na TV aberta no bar da rua ou em casa na TV a cabo.

    Essa facilidade televisiva deve ser o principal motivo da crescente adesão das crianças e adolescentes aos times da Itália, Inglaterra e Espanha, como também o fato de que os craques da seleção atuam por lá. Camisas do Milan, Real Madrid, Barcelona e Manchester, por exemplo, vendem como água.

    Esse é hoje o correspondente globalizado daquele sujeito morador de Teresina e torcedor fanático do Flamengo. O descolamento entre a realidade geográfica e a paixão clubístico-futebolística.

    Fico por aqui. Sociologia do futebol é tão complicada quanto todas as outras.

  4. Fabio Martelozzo Mendes

    Sim, Anrafel.

    Porém, naquela época de clássicos que davam 115.000, 120.000 no Maraca ou no Morumba também tinha médias medíocres de público.

    Era engraçado. A torcida lotava os clássicos, mas havia partida de time grande com 5000, 6000 pagantes. Não havia na época essa cultura de “season ticket”, de carnê, do torcedor que ia em todas as partidas em casa, como há (e havia) na Europa.

    De qualquer modo, ao pesquisar na internet sobre esse negócio de preços, percebi que por exemplo no estádio do Manchester United os valores variam entre £ 25 e £ 55 o ingresso. Ou seja, o mais barato é caro. Mas ao ver preço de ingresso da NBA (Lakers e Nuggets) vi que nos EUA o ginásio é bem mais democrático.

    Aquelas cadeiras à beira da quadra (tipo, onde senta o Jack Nicholson, Lakers fanático), custa exorbitantes US$ 250,00. Mas há cadeiras a partir de US$ 10,00.

    E o pior é que o futebol brasileiro está elitizando sem oferecer um serviço melhor. Na Europa os estádios são confortáveis, tem lojas, restaurantes, bares, lanchonetes e cadeiras numeradas. É caro, mas o valor paga o serviço. No Brasil os banheiros são porcos, não há um lanche decente no estádio, não há como tomar um refri ou uma breja, não há estacionamento, nem transporte e nem nada. E o preço, proporcionalmente (relação salário x ingresso) é mais caro que na Europa.

  5. Victorino Netto

    Saudações Fábio M!!!

    Com alguns dias de atraso venho aqui deixar meus parabéns pelo post. Muito mais do que discutir o tema, é preciso compreendê-lo. E acredito que os argumentos e dados do post ilustram bem a questão: O Brasil não é mesmo “o país do futebol”!!!! De fato, fatores como a violência nos estádios, as falcatruas em relação aos ingressos, o gerenciamento incompetente dos clubes, entre outros, também influenciam e merecem ser discutidos. Porém, a relação que o torcedor brasileiro tem com o futebol é mesmo diferente de outras nações.

    Grande abraço!!!

  6. Fabio Martelozzo Mendes

    Olá Victorino. Abraços e valeu pelo prestígio.

    Eu vou escrever um outro post sobre futebol em breve. Eu sou cri-cri, né? Mas tem de ser. Se o futebol brasileiro é realmente o melhor do mundo em campo (sem pachequismo), infelizmente fora dele nós somos vítimas dos piores pilantras 😦

    E é isso que impede que haja público maior, uma melhor relação entre clube e torcedores, maior audiência, entre outros.

    É isso aí. Força!

  7. Victorino Netto

    Fabião!!!

    Sem média, cara… Dá gosto de ler o material que você posta aqui!!! Porque você escreve (sobre os temas mais diversos) p/ leitores de verdade e não essa galera pseudo-intelectual que anseia por resumos do wikipédia e rodapés de página da Revista Super-Interessante. Aquela velha desculpa de que a informação hoje em dia precisa ser cada vez mais condensada p/ justificar a preguiça de ler mais de dois parágrafos e não entender a causa de tamanho analfabetismo funcional em solo tupiniquim.

    Mas enfim… Aguardo ansioso esse posts “cri-cri” sobre o futebol nacional, pois pouca gente escreve sobre isso hoje em dia. E é preciso de material com consistência p/ conscientizar o leitor sobre a atual situação em que se encontra o futebol.

    Eu mesmo confesso que me sinto frustrado como jornalista, pois muitas vezes me apego aos textos que falam sobre o lado “fantasia” (crônicas das partidas, análise dos campeonatos, partidas em si, etc…) ao invés de investir mais na produção de materiais que abordem essa questão (meu trabalho de conclusão de curso na faculdade, por exemplo, foi uma revisão história extensa ilustrando como o futebol e a sociedade brasileira se refletem constantemente).

    Enfim, como já disse, sem média. Gosto mesmo de ler o que caras como você ou o Michel Costa (do A4L) escrevem sobre esse lado mais politizado da “peteca”!!! É desse tipo de “não-jornalistas diplomados” que a crônica esportiva nacional realmente necessita. Parabéns!

    Grande abraço!!!

  8. Fabio Martelozzo Mendes

    Poxa Victorino, valeu mesmo pelo elogio. Ainda mais vindo da parte de alguém que tem um largo e vasto conhecimento sobre esse assunto que não é nada de vida ou morte… é muito mais que isso!

    Além disso você costuma se informar muito bem e se aprofundar sobre os assuntos, diferentemente de muitos copty and paste que se vê por aí.

    Obrigado mesmo e continue prestigiando nosso barraco virtual.

  9. solange lacerda de melo

    eu perguntei qual é o time de futebol que Pe. Fábio de Melo torce mas vei outro assunto

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s