Aluguel Futebol Clube

O especialista em calendário esportivo no Brasil Luis Felipe Chateaubriand afirma constantemente que uma temporada de futebol de sucesso deve ser racionalmente construída de maneira que seja otimizada nos seus aspectos técnico, comercial e sistêmico. Um calendário que privilegie o aspecto técnico é aquele que permite que os atletas tenham férias, pré-temporada (uma ilusão no Brasil) e tempo para treinar sem comprometer sua saúde. O calendário comercial ideal é o que garante aos cerca de 700 clubes profissionais jogos oficiais em cerca de dez dos doze meses do ano (os outros dois meses são o de férias e o de pré-temporada). E o aspecto sistêmico é o que é alinhado ao calendário mundial, sem conflito de datas com as datas de seleções e que permita que a competição principal (no caso, o Campeonato Brasileiro em suas séries A, B, C e D) seja disputado preferencialmente aos fins de semana enquanto os dias de semana são reservados às competições continentais (Libertadores e Sulamericana), regionais e à Copa do Brasil.

Não precisa ser lá tão astuto assim para perceber que o calendário brasileiro está longe, bem longe  de ser bom. Quanto mais ideal.

Enquanto um time europeu de um grande centro (Itália, Alemanha, Inglaterra, Espanha) joga cerca de 65 partidas por ano disputando três ou quatro competições (uma ou duas copas, a liga nacional e um torneio continental), um clube brasileiro disputará dez partidas a mais, caso chegue nas fases finais dos torneios. É uma carga bem maior para o atleta, ainda mais em um país ainda não habituado a rotação de elenco como são os europeus. E a coisa é pior, pois em geral há um excesso de jogos no primeiro semestre, com o estadual, a Copa do Brasil ou Libertadores e o início do Brasileiro colidindo e impedindo que um time se dedique integralmente às competições, e uma falta de jogos no segundo semestre. E os times que jogam a Sulamericana geralmente a abandonam, pois em geral disputam posições importantes no Campeonato Brasileiro e não possuem elenco para duas competições simultâneas. Um trabalho de asno, esse calendário da CBF.

Porém, o péssimo calendário gera uma distorção ainda maior. Como o Brasileirão começa a pegar fogo só por volta de junho, muitos empresários colocam seus atletas em times do interior de SP, MG e RJ para disputarem o estadual e depois os colocam em algum outro time para disputar o Brasileiro. Com isso, muitos times do interior não tem mais elenco. Esses times alugam alguns jogadores por alguns meses, depois desmancham o elenco, buscam outros atletas e disputam as séries inferiores (isso se disputarem) do Brasileirão. E o atleta passa a ser uma espécie de “trabalhador por contrato temporário”, jogando neste ou naquele time em época de pico, como os temporários contratados pelas lojas na época do natal.

Como esperar que o torcedor do interior tenha o mínimo de identificação com o clube de sua cidade ou com o atleta que veste a camisa de seu time, sabendo que o cara não irá ficar no time por mais de quatro meses? E que o time, na verdade, não existe, mas é uma espécie de camisa alugada por alguns empresários apenas para manterem sua mercadoria (os jogadores) se movimentando para não perder valor de mercado? Não dá, né.

Não por acaso, times tradicionais do interior do Brasil, como o Botafogo de Ribeirão Preto,  o Noroeste de Bauru, a Ferroviária de Araraquara e centenas de outros começam a perder espaço para times artificiais sustentados por empresários como o Atlético Sorocaba do Reverendo Moon, o Guaratinguetá, o Desportivo Brasil e o Grêmio Itinerante (já foi Barueri, agora é Prudente e o que será, ninguém sabe). São times que não tem e não terão torcida. São apenas criadouros de jogadores para serem negociados.

Enquanto seus donos saem por aí dizendo serem uma evolução esportiva, na verdade são o sintoma do sucateamento promovido pela CBF e pelas federações. Pois diferentemente dos clubes que são empresas na Europa ou mesmo as franquias esportivas nos EUA, esses clubes ganham dinheiro com aquilo que seria uma atividade-meio do futebol, a venda de jogadores , e não com a atividade-fim dos clubes de futebol, que é a disputa esportiva (e o eventual lucro que se obtem de patrocínios, transmissões, vendas de produtos e ingressos).

A CBF, enquanto sucateia o futebol brasileiro, ainda enche seus bolsos (e o do Ricardo Teixeira e de seus comparsas) com ele. Uns vampiros, por assim dizer.

A propósito. O Luis Felipe Chateaubriand já escreveu diversos livros sobre o calendário de futebol, entre eles “Futebol Brasileiro: Uma Proposta de Calendário“. Um livro de fácil leitura, claro e com propostas bastante factíveis. Uma leitura agradabilíssima para qualquer fã de futebol. Embora mesmo em sua simplicidade, os asnos que dirigem a CBF não foram capazes de absorver.

P.S. Aqui, mais uma série de postagens sobre o calendário (ou a falta de) do futebol brasileiro.

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5 Respostas para “Aluguel Futebol Clube

  1. Olá Fabio,

    Como você sabe, também sou defensor de um calendário mais racional para o futebol brasileiro, mas, mesmo constatando que os Estaduais estão morrendo, a postura da CBF, dos clubes e da Globo acena que nenhuma das partes parece realmente interessada numa mudança. Assim, restam apenas o sindicato dos jogadores que, ao contrário do sindicato dos nossos hermanos, praticamente não existe.
    Tá difícil acontecer alguma coisa, meu amigo.

    Abraços.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Idiossincrasias à parte (já que o ele defende medidas dificílimas ou quase impossíveis, como estaduais com pouquíssimos clubes, torneios continentais e outras mudanças que não dependem apenas do Brasil), o Chateaubriand dá pistas muito boas para uma melhora expressiva do calendário do futebol.

    Entre elas o início do Brasileirão no início do calendário (atualmente, em fevereiro), com o estadual sendo disputado concomitantemente ao nacional durante os dias de semana enquanto o nacional seria disputado preferencialmente aos fins de semana.

    Com série A, B, C e D dá para abrigar uns 120 times, enquanto o restante poderia disputar torneios regionalizados (como a Taça Eduardo José Farah, que é disputada pelos clubes paulistas que não se qualificam para o nacional). E assim todos os clubes teriam jogos na temporada toda, não ficando longos meses sem jogos oficiais e, consequentemente, sem renda.

    Mas há outros aspectos graves como esse domínio dos empresários, não apenas nos jogadores mas começando a dirigir muitos clubes. Sobre isso eu até vou escrever depois.

    Abraços. Enquanto isso, a gente sofre com um futebol que teria potencial para encantar o mundo todo, mesmo com a sangria de jogadores…

  3. Como assim? Você fala do timinho de Ribeirão Preto e não toca no nome do glorioso time de Franca, a Francana???

    Indignado! rsrsrs

  4. Fabio Martelozzo Mendes

    Poxa Thiago… foi malz…

    Porém, quando falam em Francana, o que me vem à cabeça é o basquete. E aconteceu com o basquete paulista o mesmo (só que antes e em escala maior) que com o futebol: as empresas substituiram os clubes.

    Francana, Sírio, Monte Líbano, Palmeiras, Rio Claro e Corinthians, que eram os grandes times de basquete paulista (e consequentemente do brasileiro) também vazaram pra entrar um monte de time que dura uma ou duas temporadas e depois some.

    Mas, cá pra nós… a Francana está mais decadente que o outro representante de Ribeirão Preto, o Comercial…

  5. Pingback: O país do futebol? « Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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