Uma indústria criminosa global

Estas foram as palavras de Declan Hill, jornalista e autor do livro “Como manipular uma partida de futebol”, para descrever o esporte mais popular do mundo.

Não que denúncias contra o futebol sejam lá alguma novidade. Não são. A alguns meses foi publicado o relatório Money Laundering Through the Football Sector (Lavagem de Dinheiro Através do Setor do Futebol), realizado por uma força-tarefa de fiscalização financeira, que percebeu que o futebol tem sido há tempos utilizado por organizações criminosas para lavar dinheiro e financiar o crime.

Mas agora o jornalista acrescenta detalhes picantes nas atividades pouco honestas perpetradas nos campos de jogo:

O que está por trás da corrupção no futebol europeu


O jornalista Declan Hill mergulhou nos meandros mafiosos das apostas e dos jogos manipulados. (Reuters)

Cada dia que passa traz mais revelações: o suposto escândalo dos jogos manipulados, que também atinge a Suíça, ganha proporções inimagináveis.

“Você ainda não viu nada”, prevê, portanto, o canadense Declan Hill, autor de um livro sobre as apostas esportivas ilegais.

O suposto escândalo dos jogos manipulados que abala o esporte europeu e suíço não surpreende Declan Hill. Jornalista independente, o canadense realizou uma vasta investigação para sua tese de doutorado na Universidade em Oxford, que o levou até à Ásia, onde as tríades mafiosas orquestram essa rede tentacular do mercado de apostas esportivas, movimentando bilhões de dólares por ano.

Autor do livro “Como manipular uma partida de futebol”, lançado no ano passado pela editora Florent Massot, ele revela as engrenagens dessa máquina e solta uma verdadeira bomba, afirmando que quatro jogos da Copa do Mundo de 2006 foram manipulados.

swissinfo.ch: Declan Hill, esse caso dos jogos manipulados na Europa e na Suíça o surpreende?

Declan Hill: De forma nenhuma! E eu posso mesmo dizer que você ainda não viu nada. Nessas duas próximas semanas, uma grande quantidade de novos jogos manipulados serão revelados em outras ligas europeias, na Inglaterra, Itália, França e Espanha.

swissinfo.ch: Justamente, como é possível manipular uma partida?

D.H.: No século passado, toda uma série de esportes como o remo ou as competições de atletismo foram atingidas pelas apostas ilegais. O futebol estava, até então, relativamente protegido. Vinte e dois jogadores, os árbitros, os cartolas e ainda o público que assiste aos encontros, tudo isso complica evidentemente as coisas. Podemos dizer que manipular uma partida é, em todo caso, possível. Para isso, é necessário, no mínimo, corromper três ou quatro jogadores da equipe mais fraca.

swissinfo.ch: Você falou a equipe mais fraca?

D.H.: Sim, pois se uma equipe fraca perde de propósito, ninguém suspeita. Seus jogadores ganham, em princípio, salários mais baixos e, portanto, são mais fáceis de subornar. Isso também vale para as grandes competições internacionais. As mais vulneráveis são as seleções da América Latina, África e Europa do leste. A prova? Durante a Copa do Mundo de 2006 na Alemanha, os quatro jogos manipulados seriam os de Gana (contra o Brasil e a Itália, ndr.), Equador (contra a Inglaterra) e Ucrânia (contra a Itália).

swissinfo.ch: Em todo caso é necessário encontrar esses jogadores e depois atraí-los com uma isca?

D.H.: Em uma partida fraudulenta, existe de um lado o mercado dos apostadores e, de outro, o mundo do futebol. É raro que os contatos entre as duas partes sejam diretos pois existem os intermediários entre os corruptores e os jogadores. Esses intermediários são ex-treinadores ou ex-jogadores que estão procurando ganhar dinheiro depois de terminada a carreira. Eles gozam de uma boa reputação e têm acesso fácil às suas presas.

swissinfo.ch: No seu livro, você também fala do recurso a prostitutas. Como é isso?

D.H.: Durante minhas investigações, muitas coisas me impressionaram mas, sobretudo, duas. A primeira foi a presença patente de corruptores nos grandes torneios internacionais como a Copa do Mundo, o Mundial feminino ou as Olimpíadas. A segunda foi o recurso ao sexo de certos grandes clubes europeus em favor dos árbitros, um fenômeno presente nesses últimos anos e que todos os dirigentes e pessoas do meio do futebol conheciam. Ao chegarem ao hotel, os árbitros sabiam que em meia-hora as meninas estariam lá.

swissinfo.ch: Por que essas apostam vêm da Ásia?

D.H.: O mundo dos apostadores e quase mais difícil de corromper do que o do futebol. Então as organizações criminosas agem onde há mais oportunidades. Na Ásia, o mercado é três vezes maior do que na Europa. Talvez isso seja até subestimado, mas continua enorme e ilegal. Não me surpreende que, nessas condições, todos os apostadores, incluindo também os europeus, encontram seu paraíso.

swissinfo.ch: Os apostadores asiáticos colocam centenas de milhares de francos sobre uma partida da segunda divisão suíça, entre Gossau e Yverdon. Não existe algo de estranho nisso?

D.H.: Isso ocorre na Suíça, mas não só aqui. A Bélgica, a Finlândia ou a República Tcheca conhecem o mesmo fenômeno. É difícil acreditar que os asiáticos se divertem em manipular jogos de segunda divisão com 200 torcedores e a milhares de quilômetros de distância. Mas o mercado de apostas ilegais é gigantesco na Ásia. Estima-se que ele movimenta 400 bilhões de dólares. Seus atores estão sempre dispostos a procurar novas oportunidades.

E ainda existe algo mais inquietante do que uma segunda divisão suíça. Doravante eles apostam em alguns campeonatos europeus de juniores disputados por adolescentes de 16 anos. Tenho inclusive uma anedota que resume bem a situação. Lembro-me de um encontro na Malásia com um rapaz que trabalha para as máfias locais. Esse cara conhecia tudo, mas tudo sobre o futebol islandês. Um verdadeiro especialista: ele me recitava os nomes dos clubes de primeira divisão, dos quais eu nem sabia da existência, mas também os das equipes de vilarejos com menos de cinco mil habitantes. Ele também era imbatível no futebol feminino.

Vincent Chobaz, Pascal Dupasquier/La Liberté, swissinfo.ch
(Adaptação: Alexander Thoele)

Sobre o relatório de lavagem de dinheiro, o blog Jogo de Negócios, do jornalista e publicitário Fabio Kadow, escreveu este excelente post: Lavanderia Futebol Clube: esporte tem dinheiro do tráfico e corrupção

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2 Respostas para “Uma indústria criminosa global

  1. Dificilmente um livro desses teria aqui no Brasil a repercussão merecida. Na televisão, por exemplo. Os Galvões e Lucianos continuam fingindo que acreditam que nós achamos o futebol uma atividade lúdica onde o dinheiro entra apenas como meio de pagamento de jogadores e comissão técnica.

  2. Havia escrito um longo comentário sobre isso, mas de algum modo ele foi apagado… então tecerei agora:

    Assim como no passado ninguém se importava em ver “Velho Barreiro” ou “Cachaça Tatuzinho” no letreiro do estádio (bons tempos quando nada fazia mal, hoje tudo faz mal) hoje ninguém liga em ver Sporting Bet e quetais, mas pode ser que um dia se importem.

    Isso tudo já é um tanto manjado. O livro deve publicar detalhes que escapam aos olhos, mas isso de prostitutas, que ele considerou impressionante, eu já sabia faz tempo… até sei um casinho ou outro…

    Outra coisa que é muito armada e o pessoal acha lindo é o sorteio da Copa e da UCL. Com algum conhecimento, dá prá saber mais ou menos como cai… quem acha que o sorteio da UCL não é armado precisa voltar para a escola… já houve gente que ANTECIPOU os 8 grupos, todos os 32 certinho.

    Sorteio de Copa ou UCL é igual aqueles”telecatch”: legalzinho de ver, mas até criança sabe que é armado (o problema é que no futebol muito marmanjo acha que não é).

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