Quem a Igreja tem que salvar?

Este texto, escrito pelo amigo e estudante de teologia na Faculdade da Igreja Metodista Francisco Thiago, aborda de maneira bastante simples mas sagaz o complexo relacionamento entre a institucionalização do cristianismo (e seu consequente monopólio da relação entre Javé e os homens) e sua tarefa missionária.

Na falta de tempo para escrever algo sobre o tema (tenho alguma coisa mais ou menos engatilhada sobre a universalidade de Cristo e a individualidade da salvação) fica aqui a dica para o curto artigo, o blog e tudo o mais que esse rapaz arretado e sua patota escrevem.

“Quem a Igreja tem que salvar?

A princípio esta questão parece inadequada. Igreja não salva ninguém, é o discurso que muitos mantém. Discurso esse que não se torna prática.

Hoje nesta madrugada estava lendo um dos textos do Frei Tito de Alencar onde ele dizia:

“Nós [a Igreja] não existimos para salvar as almas, mas para salvar as criaturas, os seres humanos vivos, concretos, no tempo e no espaço bem definidos.”

Evidente que esta “alma” a que Frei Tito se refere está apoiada no conceito Platônico atribuido a ela. A interpretação do senso comum de salvação. Salvação = Morar no céu.

Esquecendo um pouquinho Paulo (se é possível) e fixando o olhar apenas no movimento de Jesus, eu não vejo menções à figura da Igreja e a necessidade dela para se obter a tal “Salvação”. As condições que Jesus faz estão sempre ligadas à sua pessoa. “Quem vem a mim”, “ninguém vem ao Pai senão por mim”, “para que todo aquele que nele crê” e assim por diante.

No entanto, com o passar dos anos e a institucionalização da Igreja, o Cristo que vagava errante pelas terras desérticas da Palestina, passou a ter endereço e patrão: A Igreja. A Igreja apossou-se de Cristo de tal forma que fica difícil definir se a Igreja é de Cristo ou se Cristo é da Igreja. Neste processo, o alto clero instalou catracas na porta do céu e cobra o seu pedágio para entrada. Seja dinheiro ou o seguimento de alguns rituais.

O que quero dizer é que, pelo que percebo, a Igreja tem se preocupado em mandar as pessoas para o céu. Mostrar as pessoas “a verdade” de modo que, longe do engano, elas possam seguir o caminho certo para o céu. Mas não foi isso que Jesus disse. Ele não disse que todo aquele que crer na Igreja será salvo.

Por outro lado, seguindo o pensamento do Frei Tito, pergunto: O quê tornaria a Igreja diferentes de uma mãe – que educa o seu filho no caminho que lhe parece certo – e de uma ONG? Penso nas celebrações. Mas até as ONG tem suas comemorações de fim de ano. Seria então a profecia a vocação divina que distinguiria a Igreja de uma ONG? Evidente que não quero desmerecer a ação social da Igreja. De modo algum! Penso que a luta pela salvação do corpo é ponto pacífico. Estamos discutindo o “Foco” missionário.

A missão da Igreja seria, então, levar o “Evangelho”? Bom, precisamos discutir de qual evangelho vamos falar. Seria o da prosperidade? O do “Cristo Rei”? Seria o Evangelho do Cristo revolucionário, quase uma versão marxista de Gandhi? O do “Deus malvadão que manda todo mundo pro inferno” ou seria o “Evangelho do Deus que é uma coisinha quentinha”?

Vendo este esforço por uma sociedade justa, onde todos são iguais e não existem mais crimes ou corrupção e a Igreja tenha tão somente motivos para celebrar e os profetas possam tirar férias, penso nos movimentos milenaristas que remontam o séc. XVI. Homens que deram suas vidas em troca de um ideal revolucionário para estabelecer o Reino de Deus na terra.

Veja: Estamos falando de obras; de “coisas” que podem serem feitas pelas nossas mãos. Se o Reino de Deus pode ser estabelecido através de uma revolução, o que o torna Reino de Deus e não de Alá, ou de Buda, ou de Gandhi? A confessionalidade dos revolucionários? Volto a evocar a sempre presente questão da correlação: Se trocar o nome Jesus por Genésio, qual seria a diferença?

Mediante esta reflexão, fico pensativo e acredito que é bem provavel que Amós Oz tinha razão. A fonte da intolerância religiosa é a minha vontade de salvar o outro, ainda que ele “não queira” ser salvo. E como salvação sempre é God’s Bussiness me pergunto o que ou quem a Igreja deve salvar?”

Blog Projeto 5

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