Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo

Com mais um campeonato brasileiro às vésperas do término, campeonato emocionante, equilibrado e totalmente imprevisível, quase que desapareceram os rumores levantados pela Rede Globo (que deveria ser cliente, não gestora do futebol brasileiro – mas isso é outra história) sobre a volta dos campeonatos disputados na fórmula do mata-mata.

Não há como defender o mata-mata utilizando o  argumento da “emoção”, pois tanto esse campeonato quanto o anterior empurraram até a reta final todas as definições, mantendo a torcida, a imprensa e os que acompanham a disputa em suspense. Também não há como dizer que o campeonato em pontos corridos não seja interessante para a torcida, com publicos crescentes e audiências (baixas em média durante todo o ano) também em ascensão.

Apenas para exemplificar, a média de público atual está na faixa de 18.196 pagantes (até a 36ª rodada), enquanto em 2008 foi de 16.992, em  2007 foi 17.461 e em 2006 foi de 12.401 (fonte:  site da CBF). Segundo matéria do Globo Esporte, campeonato atual tem a melhor média dos últimos 22 anos (aqui). E a tendência de crescimento foi comprovada pelo Emerson Gonçalves, do blog Olhar Crônico Esportivo, ao analisar uma pesquisa feita entre os torcedores do estado de São Paulo, que se mostraram favoráveis à atual fórmula:

“A pergunta seguinte já entrou no gosto do torcedor pelo sistema empregado: Qual sistema de disputas prefere? Pontos corridos ou mata-mata?

Entre os que acompanham o campeonato, 64% declararam-se a favor dos pontos corridos, enquanto 26% optaram pelo sistema mata-mata, 3% declararam-se indiferentes e 7% não responderam.

Na divisão por sexo, 70% dos homens optaram pelos pontos corridos, contra 55% das mulheres.

Por faixa etária, 69% da rapaziada dos 16 aos 24 optou por esse formato, contra 61% do pessoal dos 25 aos 44 e 66% de quem tem acima de 45 anos de idade.

Considerando escolaridade, pontos corridos foi a escolha de 52% de quem cursou até a 4ª série, 62% de quem ficou entre a 5ª e 8ª séries do ensino básico, 69% de quem tem o ensino médio e 64% de quem tem curso superior.

Por faixas de renda os resultados foram também favoráveis a esse formato: 58% entre os que ganham até 2 salários-mínimos por mês, 61% entre os que ganham de 2 a 5 SM, 68% entre o pessoal de 5 a 10 SM e nada menos que 87% de preferência entre a turma de 10 ou mais salários-mínimos mensais.

Nessa altura da entrevista, o pesquisador colocou as seguintes frases:

– O campeonato de pontos corridos é melhor pois premia os times mais regulares e que investem melhor e também mantém a emoção até o final da disputa.

– O mata-mata é melhor pois permite que um time se destaque no final do campeonato e seja campeão, mesmo que não tenha tido uma campanha melhor que os outros.

Entre os que acompanham o Campeonato Brasileiro, 69% concordaram com a primeira frase e 26% com a segunda.” Texto completo, aqui.

Por um lado, a consolidação de uma fórmula, que é positiva pois premia por mérito não por sorte e permite que o clube continue auferindo renda até o final da temporada, traz mais credibilidade para o torneio junto à opinião pública. Por outro, não dá para se contentar com estes avanços, que sim, são importantes, mas insuficientes para garantir ao futebol brasileiro a modernidade necessária.

Ainda há a necessidade de um calendário racional, que segundo o Luis Filipe Chateaubriand é o calendário que atenda princípios orgânicos (integração com o calendário do futebol mundial), esportivo (mantém a competitividade e a atividade dos atletas de maneira equilibrada) e financeiro (permite que os clubes maximizem as receitas com o futebol).

E, para mim, um calendário racional passa pela adoção do ano europeu e uma completa reformulação das competições atuais, possibilitando aos clubes que disputam a Libertadores disputerem também a Copa do Brasil, racionalizando e integrando os campeonatos regionais no calendário, permitindo que os clubes brasileiros participem do extremamente lucrativo mercado de torneios e amistosos de pré-temporada (como já falara sobre isso aqui)  e minimizando os problemas de evasão de jogadores no meio do campeonato (falei sobre isso aqui). Até eu, a exemplo da Revista Trivela e da Revista Four Four Two elaborei uma proposta de calendário que permite essa racionalização (aqui).

Esta racionalização do calendário acabaria com a falsa oposição de pontos corridos x mata-mata, pois permitiria a realização de campeonatos nos dois sistemas (sendo a verdadeira questão termos campeonatos em pontos corridos E em mata-mata), com o Campeonato Brasileiro em pontos corridos, mas com Copa do Brasil, Libertadores, Copa Sulameircana e Campeonatos Estaduais disputados no sistema de play-offs, com suas finais realizadas no final da temporada, aumentando o clímax futebolístico do ano.

Resta vontade política, ação dos clubes (os verdadeiros donos do negócio) e o mínimo de seriedade para tirarmos o futebol brasileiro da era mezozóica e encararmo-lo como um negócio e um setor da economia, não como o quintal da casa de dirigentes corruptos.

P.S. O já mencionado Luis Filipe Chateaubriand escreveu um artigo na Universidade do Futebol comentando os “sofismas” utilizados pelos defensores do mata-mata.

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5 Respostas para “Fecham-se as cortinas e termina o espetáculo

  1. O que mais me incomodou quando a Globo tentou rediscutir a fórmula do Brasileiro foram os argumentos utilizados. Quando não eram mentiras deslavadas, eram colocações, no mínimo, pouco inteligentes.
    Por esses dias aconteceu de novo. Com esse papo de ‘mala branca’ e ‘corpo mole’, o defunto do mata-mata quis se levantar novamente. Como se isso não pudesse acontecer (mesmo que em menor escala) na fase classificatória.
    Para piorar, o monstrengo sugerido pela Globo previa as mesmas 38 rodadas mais 6 de mata-mata.
    Ora, se o calendário já está mais do que inchado, como incluir mais 6 datas? Com certeza não pretendem diminuir os Estaduais para reorganizar isso. E que se danem os jogadores.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Se a Globo não fosse tão intransigente, haveria condições de se montar o calendário brasileiro no formato europeu e com isso termos Copa do Brasil terminando concomitantemente ao Brasileirão.

    Ou seja, a temporada terminaria com uma grande final, bem ao gosto brasileiro (e de todos).

    Mas, bem feito pros clubes brasileiros que são capachos da CBF e da Globo. Ao venderem suas almas ao diabo, impedem o crescimento de seu produto, que é o futebol.

  3. Em suma: pontos-corridos é coisa de adolescente que estuda em escola particular.

    Mata-mata é coisa de empregada doméstica.

  4. Eu sou a favor da minha fórmula, onde um time não é campeão sem fazer antes, no mínimo, 51 jogos. Mistura macheza, mata-mata e meritocracia.

    • Fabio Martelozzo Mendes

      So se tiver jogo em dia par e treino em dia impar pra enfiar um campeonato com 51 datas, meu fio…

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