A Puta da Uniban (sic)

O blog “Boteco Sujo” dá uma amostra do que aconteceu semana passada em um campus universitário (??????) paulista:

“Uma estudante de Turismo cometeu o crime de ir para faculdade vestindo apenas uma blusinha que mal chegava até suas coxas. Quando a garota começou a subir uma das rampas da universidade, oferecendo uma vista privilegiada das suas redundâncias, provocou um levante entre marmanjos que provavelmente nunca haviam visto uma mulher sem roupa desde que foram desmamados. Os estudantes começaram a cercar a moça, com gritos e galanteios de pedreiro, e foram se empolgando até que ameaçaram estuprá-la. Ela, então, correu e se trancou numa sala.

Foi aí que todos os alunos abandonaram as aulas e se aglomeraram numa multidão que ameaçava invadir a sala onde a garota havia se escondido, aos gritos de “puta, puta!”. Homens e mulheres se juntaram para xingá-la. Foi preciso que um grupo de policiais militares entrasse no prédio para evitar que a menina se tornasse a protagonista de um gang bang forçado.

Agora, uma retificação. Nada disso aconteceu nos tempos moralistas e patriarcais da boa rainha Vitória. Essa história aconteceu, de verdade, na noite da última quinta-feira, dia 22, no câmpus da Uniban em São Bernardo do Campo.” Continua aqui.

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A Marjorie Rodrigues escreve um longo post sobre a humilhação pública como arma de intimidação ditatorial e traça um paralelo ao caso recém acontecido.

” E é aí que entra o negócio da Uniban. É no mínimo interessante chegar de viagem e dar de cara com uma notícia dessas. As pessoas ainda não vêem horror numa humilhação pública. Ainda acham que há coisas que alguém possa fazer para merecer isso. Ainda acham que há o que a justifique. Não vêem um ato de extrema violência nisso. É fácil olhar para um monte de corpos empilhados e dizer “ai, que horror”, mas a gente não vê (ou se recusa a ver) que a força geradora dessas atrocidades está aí, na capacidade de dar aquele sorriso. Na capacidade de se juntar a uma turba e gritar “puta, puta, puta”.

A Mary W escreveu sobre isso. Muito bem, como sempre. Que a gente só vê a violência no outro e não percebe que a violência está em nós. Que a gente faz parte disso. Uma coisa que eu percebi em muitos comentários Internet afora (inclusive teve um mais ou menos assim aqui) é que a reação instintiva é dizer que os alunos da Uniban agiram como “animais”. Eu também já falei sobre animalização aqui. Mas nunca custa repetir. Que, quando você animaliza o outro, está distanciando ele de você. Porque animais não têm solução, não podem aprender a ser humanos nunca. Reduzir o outro assim é, também, uma violência. E, para cometer violência contra alguém, só mesmo não o considerando um semelhante.

Ora, os alunos da Uniban não são loucos, não. Não são animais, não. São seres humanos. Só levaram ao extremo uma forma de pensar que é muito disseminada: que a mulher é a culpada por seu estupro, que as roupas denotam recato ou promiscuidade e que promiscuidade é meio de avaliar o caráter de uma mulher. Os alunos da Uniban só levaram ao extremo o machismo que a gente vê disseminado de forma mais sutil em tantos outros lugares. Repare também que tem gente condenando os alunos da Uniban, dizendo: ”mesmo que ela fosse uma puta e desse pra todo mundo, não justifica”– ou seja: apesar de condenar a humilhação pública, ainda condenam a roupa. Ainda submetem as mulheres à dicotomia santa x puta. Ou seja: pensam igualzinho a quem criticam. São tão machistas quanto.”

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Pois bem. Toda uma psicologia das massas possa ser evocada para explicar esse episódio. Mas não apenas. Se as massas assumem prontamente o mais irracional que possa existir no cérebro do ser humano (aliás, como as brigas de torcidas, confrontos de skin-heads, e linchamentos podem comprovar), a cultura atual já naturalizou o machismo, como o Fausto, do blog Boteco Sujo, percebeu ao conversar com um dos rapazes da Uniban: “Uma fala do aluno com quem conversei resume o clima daquele ambiente universitário: — Eles estavam errados em querer estuprar a mina, mas ela provocou, né, véio? Então…  Então? — Então talvez ela merecesse.”

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Outro tópico interessante, sobre outro assunto mas que dialoga de maneira contundente com este acontecimento, foi escrito há um mês, mais ou menos, pelo Rafael Galvão:

“A postura francesa no pós-guerra é uma das coisas mais impressionantes daquela época. Se o país não foi corajoso o bastante para resistir à Alemanha, coragem não lhe faltou para perseguir as mulheres que “colaboraram” com a Alemanha — ou seja, que tentaram sobreviver dormindo com o inimigo, como mais tarde milhares de alemãs ganhariam o chucrute de cada dia de pracinhas americanos. Deve ser algo na psique francesa: os alemães podiam estuprar o país, mas não podiam seduzir suas mulheres.”

Uma pequena diferença entre Londres e Paris.

Update: A Uniban está se mobilizando. Não para punir os responsáveis. Mas para tirar os vídeos que mostram a agressão do ar. Os dois videos que ilustram essa postagem já foram apagados pelo Youtube. Mais informações aqui.

P.S. No iG há uma matéria onde a atitude boçal e cretina dos universitários é mostrada.

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2 Respostas para “A Puta da Uniban (sic)

  1. De novo eu repito: Ridículo isso!

    E a pergunta que eu faço é: não tinha ninguém, nenhuma pessoa com culhões pra se opor contra aquela palhaçada não…
    Sinceramente… deve ser a maior concentração de imbecis por metro quadrado da história, essa tal de Uniban…
    Francamente!

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    “Sinceramente… deve ser a maior concentração de imbecis por metro quadrado da história, essa tal de Uniban…”

    E é. Um consórcio de diploma frequentado pela nata da vagabundagem paulista.

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