Um poema às quartas

ferreira_gullar

POEMA

Se morro
universo se apaga como se apagam
as coisas deste quarto
                                 se apago a lâmpada:
os sapatos – da – ásia, as camisas
e guerras na cadeira, o paletó –
dos – andes,
          bilhões de quatrilhões de seres
e de sóis
        morrem comigo.

Ou não:
       o sol voltará a marcar
       este mesmo ponto do assoalho
       onde esteve meu pé;
                                     deste quarto
       ouvirás o barulho dos ônibus na rua;
           uma nova cidade
           surgirá de dentro desta
           como a árvore da árvore.

Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens
a mesma história que eu leio, comovido.

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2 Respostas para “Um poema às quartas

  1. Pois é, o ser humano é único, a sua experiência, pessoal ou cósmica, é irrepetível. Com ele vai-se tudo o que foi percebido e usufruído no universo, ainda que esse mesmo universo continue emoldurando e determinando infinitas percepções e vivências por todo o sempre.

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Olá Anrafel. E o melhor veículo para transmitir essa experiência é a poesia. Afinal trata-se da eternização do momento, descolando-o do fluxo tempo-espacial.

    Abraços.

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