Polaroids européias

Sou uma pessoa que vai muito pouco, pouquíssimo no cinema. Muito menos do que gostaria.

Então eu estou sempre atrasado no papo cinematográfico.

Nas últimas semanas, coincidentemente, assisti a diversos filmes que tinham a Europa em seu escopo, principalmente França e Espanha. Vi alguns, outros revi e um deles (aleluia!) vi no cinema. Vamos a eles:

le_fabuleux_destin_d_amelie_poulain_frontO Fabuloso Destino de Amélie Poulain. A Poliana francesa. O toque surreal do enredo e do final até que torna mais leve a sensação de mal-estar, de desajuste, de desenraização. E, claro, aquele final feliz não engana a ninguém. A solidão parece ser uma marca francesa mesmo.

irreversible_ver2Irreversível. O mal-estar elevado à enésima potência. Quem não saiu do cinema (ou deu “stop” no dvd player) na cena inicial, o fez na cena do túnel. A montagem em sentido cronológico inverso enfatiza o título do filme, que indica a inexorabilidade da dissolução, migrando do idílico ao trágico. A fragilidade das relações a despeito da vida sendo vivida a toda velocidade. Ressentimento de classe nada sutilmente posto em cena. 

paris-cedric-klapisch-albert-dupontel-juliette-binoche-romain-duris-fabrice-luchini_300Paris. Melancólico. Superficialmente bela, a cidade de Paris abriga pessoas que não conseguem criar laços, não conseguem se relacionarem umas com as outras. A solidão parece ser um estado ao qual as pessoas estão condenadas, assim como à liberdade, segundo Sartre.

vicky_cristina_barcelona1Vicky Cristina Barcelona. Um olhar americano, de Woody Allen, sobre a pulsante e erótica metrópole catalã. Chapa branca? Sim, um pouco. Javier Barden encarna um estereótipo do europeu no imaginário norte-americano. Sedutor, artístico, misterioso. Porém a cena final, com Vicky e Cristina retornando a Nova Iorque com o fracasso e a desesperança estampados em seus rostos é histórica.

Carne_tremulaCarne Trêmula. Um antigo de Almodóvar, também com Barden e Penélope Cruz no elenco, em uma curtíssima mas marcante participação. Almodóvar começa a segurar as tintas, até então carregadas, em sua escrachada ironia à sociedade patriarcal, o que a torna ainda mais contundente, pois sequer dá ao espectador a prerrogativa do alívio cômico característico de sua fase anterior. Seu estilo seria elevado ao estado-de-arte nos dois filmes posteriores, Tudo sobre sua mãe e principalmente em Fale com ela. O final melodramático e “feliz” quebra totalmente a curva do filme, introduzindo o elemento “palatável” ao grande público, solapando o efeito trágico que o filme constrói.

piaf-posterPiaf. Lindíssima cinebiografia de Edith Piaf. Marion Cotillard está em atuação maravilhosa. Houve uma certa comparação com outra biografia nas telas lançada recentemente, Maysa, mas embora ambas as cantoras sejam fantásticas, a comparação é cruel com a atriz brasileira. Maysa parecia caricatural e monofacetada. Cotillard conseguiu mostrar a complexidade de Piaf em cenas ternas, desesperadas, desesperançadas e serenas que nem de longe sua colega brasileira conseguiria. E a trilha sonora (semelhantemente à produção nacional) é sensacional.

2jc7savEu, meu irmão e nossa namorada. Assim como Vicky Cristina Barcelona, é americano. Mas tem ao menos Juliette Binoche no elenco. E, cá pra nós, uma Juliette Binoche vale mais que umas duas centenas de Meg Ryans. O talento da francesa e de Steve Carrell fazem dessa comediazinha dispensável um programa bastante agradável. A trilha sonora de Sondre Lerche é muito boa, com destaque para a canção Hell, no!, com Regina Spektor.

Enfim. Um breve passeio pelo velho continente, rápido e superficial como um pacote da CVC.

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7 Respostas para “Polaroids européias

  1. Aiii, ainda não assisti três dos que você relacionou aí no post.

    * O com o Steve Carrell(que amo de paixão, por ele ser Michael Scott) e Juliette Binoche (ma-ra-vi-lho-sa, gostosa, saborosa e tudo de bom… ah, magnífica atriz )

    * Piaf. (Não creio que ainda assisti, mas enfim…)

    * E Paris. Aliás, a relação de liberdade – e também a solidão-, sartreana ficou perfeita! Escolhas, escolhas, escolhas…mesmo que essas nos propiciem a mais completa solidão e vazio.

    Agora Almodóvar, o que dizer? Sou suspeita pra falar dele. A subjetividade do lado de cá não possibilita críticas…

    Eu também não vou ao cinema… O que não faz falta. Se você for depender dos Cinemark’s da vida, é melhor ficar em casa. A grande maioria é lixo.
    Eu e marido vemos tudo no pc.

    Graças ao fantástico e maravilhoso mundo dos Torrent’s!

  2. Fabio Martelozzo Mendes

    Long live the torrents!

    Mas eu não tenho saco pra assistir filme no pc 🙂

    Prefiro o bom e velho dvd locado (sim… sou um “otário” que ainda paga por conteúdo disponibilizado grautitamente na net 🙂 ou então às vezes dou muita sorte com a programação dos Telecines da vida.

    É vero que Cinemark além de lixo é caro. Mas há algumas alternativas, como o Belas Artes e o Espaço Unibanco. Caros também, mas de vez em quando rola alguma coisa legal.

    Abraços.

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  5. Eu, meu irmão e nossa namorada – foi o único que assisti (os outros nem sabia que existiam… por aqui não chega isso… só via torrent mesmo – e eu tam´bem prefiro o dvd)… eu diferentemente de você acho o trio da capa muito demais! na verdade, daqueles três, o menos foda, na minha opinião é o Carrel… Aquele maluco é demais! Foderasso! Tem um filme com ele e aquele maluco de american Pie.. esqueci o nome de ambos, onde eles contracenam com a gatíssima Kate Hudsson, o filme “amigos, amigos, mulheres a parte!” em que esse cara (lembrei! Dane Cook) tá simplesmente foda demais! Deve ser os ares da Kate.. pois esse mesmo carinha contracenou com Jessica Alba em Good Luck Chuck e foi uma merda! mas enfim..
    Vou anotar os outros pra procurar!

  6. Fabio Martelozzo Mendes

    O Carell pode ser menos foda, mas é um puta ator. Ele faz tanto comédia avacalhada como os dois “Todo Poderoso” (a cena do TP1 que ele apresenta o telejornal e o Carrey ferra com ele é histórica) como uns filmes, mesmo cômicos, mais contidos, como esse aí e o Pequena Miss Sunshine.

    Os outros são todos bons. Muito bons. Já que eu assisto poucos filmes, não gosto de desperdiçar meu parco tempo e dinheirinho assistindo abacaxis.

    Abraços.

  7. Pingback: Retrospectiva 2009 – Filmes « Por quem os sinos dobram-blog de Fabio M

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